Ação Popular: cristianismo e marxismo



Descargar 264 Kb.
Página1/5
Fecha de conversión18.01.2017
Tamaño264 Kb.
  1   2   3   4   5




Ridenti, Marcelo S. “Ação Popular: cristianismo e marxismo”. In: Reis Filho, Daniel Aarão e Ridenti, Marcelo (orgs.). História do marxismo no Brasil, 5. Partidos e organizações dos anos 20 aos 60. Campinas: ed. da UNICAMP, 2002, p.213-282.

Capítulo 6

Ação Popular: cristianismo e marxismo

Marcelo Ridenti*



Introdução

Este capítulo da História do marxismo no Brasil aborda a trajetória da Ação Popular (AP), de suas raízes no cristianismo, particularmente na Juventude Universitária Católica no final dos anos 50 e início dos 60, passando pela influência da revolução cubana, até a adesão ao marxismo-leninismo em 1968, a integração da maioria da organização ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1973, e a dissolução do que restara da AP no início da década de 1980.

O interesse pela AP, nos vários momentos de sua história, não se restringe à sua importância nos movimentos sociais e políticos brasileiros, especialmente no meio estudantil. A saga romântica1 da AP importa também porque, naquele período, em alguns países da América Latina, ocorreu a passagem de grupos políticos cristãos ao marxismo. De modo que estudar a evolução ideológica da AP pode eventualmente trazer luz ao conhecimento de uma parcela da esquerda latino-americana. A passagem do cristianismo ao marxismo-leninismo – por intermédio da versão do maoísmo difundida após a chamada revolução cultural chinesa de 1966 – ocorreu por exemplo no Peru2 "com o grupo Crítica Marxista, no Chile com o Movimento de Ação Popular Unitária (MAPU)", entre outros, cuja militância era composta especialmente por ex-integrantes da Ação Católica, que fora implementada pela Igreja em toda a América Latina. (Garcia, 1979)

Além disso, o processo que gerou a AP no seio da Igreja foi precursor da Teologia da Libertação e de importantes movimentos católicos nos anos subseqüentes, por exemplo, as Comunidades Eclesiais de Base, herdeiras do romantismo revolucionário do catolicismo de esquerda no Brasil nos anos 60.3



Como já disse o ex-militante e dirigente da AP, Herbert José de Souza, conhecido como Betinho, "nós éramos resultantes de um processo com profundas raízes sociais encontradas no Brasil. E, no Brasil, até 64, uns 90% dos militantes políticos, ou eram católicos ou tinham pai e mãe católicos, tinham saído do cristianismo" (Souza, 1978: p.72). É para a reconstituição da história da AP e para o entendimento do fenômeno de aproximação de setores católicos do marxismo que este capítulo pretende contribuir. Evidentemente, não há a pretensão de estabelecer uma versão “definitiva”, uma suposta “verdade” única e incontestável sobre a História da AP, que poderia ser tomada de diversos ângulos.4

Raízes da Ação Popular: a Juventude Universitária Católica

A Juventude Universitária Católica (JUC) era um setor especializado de um movimento mais amplo, a Ação Católica (AC), apostolado de leigos promovido pela alta hierarquia da Igreja Católica em todo o mundo, a partir dos anos 30.

A AC foi criada no Brasil em 1935 pelo arcebispo do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, sob o governo de Getúlio Vargas, com o qual conviveu bem. A base para sua fundação foi o Centro D. Vital, inspirado pela Action Française. Fundado em 1922, o Centro aglutinava parte da intelectualidade católica conservadora e defendia um nacionalismo de direita. Sob direção de Jackson de Figueiredo, nos anos 20, apoiou o integralismo, movimento fascista brasileiro que contaria também com a simpatia do sucessor de Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima – que mais tarde viria a tornar-se um expressivo intelectual católico de esquerda – e D. Hélder Câmara, que logo renegaria o integralismo: nomeado assistente da AC em 1947, seria cada vez mais sensibilizado pela problemática social, até converter-se em verdadeiro símbolo do chamado clero progressista.5

Só por volta de 1950 a JUC passou a organizar-se nacionalmente, no interior da AC, tornando-se um movimento social significativo, sendo por isso comemorado seu “surgimento” nessa data, embora existisse anteriormente. Na época, ela se movia principalmente no universo ideológico do catolicismo tradicional. Como aponta José Luiz Sigrist (1982, p.27-37, 51-53), a preocupação era dar formação aos membros da JUC, aprofundando sua fé e espiritualidade. Voltando-se sobre si mesmos, reafirmando os valores oficiais da Igreja, os integrantes da JUC tendiam a compor uma elite acadêmica católica. A visão de mundo que deu origem à JUC estaria ancorada na doutrina medieval da Igreja: a tarefa do homem na Terra seria espelhar a ordem divina ideal, tanto em sua alma como na sociedade. Assim, a predisposição seria valorizar a ordem e a harmonia social, acatar as estruturas e as instituições existentes, cujos eventuais problemas estariam nas falhas das pessoas que as compõem. Caberia, no máximo, reformar as consciências individuais para que uma ordem harmônica e justa imperasse no mundo, espelhada na vontade de Deus.

Em seus primeiros anos de atuação nacional, a JUC criou uma identidade enquanto representação oficial da Igreja no meio universitário. Segundo Sigrist, o outro em oposição ao movimento seria o mundo moderno, encarnado na maior parte do meio universitário, resistente ou alheio à mensagem católica, e que deveria ser conquistado para a ordem divina, a ser restaurada na Terra por intermédio da Igreja, a qual, na universidade, seria a própria JUC (1982, p.36-37).

Não se deve imaginar, contudo, que nos anos 50 a JUC fosse um movimento ideologicamente monolítico: ia-se gestando em seu interior o salto de participação social que afloraria explicitamente no fim da década, como aponta Luiz Alberto Gómez de Souza (1984, p.107-152). Com o tempo, os jovens da JUC passaram a questionar aspectos das idéias dominantes na Igreja, como a passividade política diante da ordem estabelecida, num contexto de convivência universitária com outras correntes de pensamento, especialmente as socialistas e comunistas, às quais precisavam fazer frente. Eles eram influenciados pela discussão teórica no interior da própria Igreja, em particular pelas obras de Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Pierre Teilhard de Chardin; ficaram marcados pelo pontificado progressista do Papa João XXIII a partir de 1958; além de confrontar-se com as desigualdes gritantes da sociedade brasileira e com o ascenso na mobilização política de trabalhadores urbanos e rurais, numa dada evolução da conjuntura política nacional – nos anos liberais do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) – e internacional, notadamente com a vitória da Revolução Cubana em 1959.

A JUC agia em meio a circunstâncias históricas que marcaram os anos 50 e 60. Em âmbito internacional, foram vitoriosas ou estavam em curso inúmeras revoluções de libertação nacional, algumas marcadas pelo ideário socialista ou terceiromundista, por exemplo, a revolução cubana de 1959, a independência da Argélia em 1962 e outras, além de lutas anticoloniais na África e na Ásia etc. Também era contestado o modelo soviético de socialismo, considerado burocrático e acomodado à ordem internacional estabelecida pela guerra fria, algo que também se fazia sentir no plano interno: começavam a surgir novas referências na esquerda – inclusive de cristãos, católicos na maioria, mas também protestantes –, que ameaçavam a hegemonia do pró-soviético e clandestino PCB.6 Delineava-se a polarização social que levaria ao golpe de 1964.

O documento 10 anos de JUC, publicado em 1960 no Boletim da JUC, fazia um balanço do período de organização da entidade em âmbito federal. Desde 1950, a JUC reunia anualmente um Conselho Nacional, com ampla participação dos militantes.7 O documento esboçava uma autocrítica, que pode ser sintetizada na seguinte frase: "Nós sabemos que existe uma Providência que governa a História, mas talvez tenhamos ignorado que esta Providência quer que sejamos nós os executores de sua vontade". Mais adiante, a questão ficava ainda mais explícita, embora fazendo uso de linguagem cautelosa: "A própria condição histórica que atravessamos parece-nos situar a tônica da realidade numa inserção no social, na encarnação total no temporal presente, o que poderia inclinar-nos talvez a pensar em uma insistência maior na ação sobre as estruturas" (In Sigrist, 1982, p.39-40).

A História continuava a ser vista como desígnio de Deus, mas a atitude deixava de ser passiva. Ao invés de acatar a ordem supostamente natural da sociedade existente, tratava-se de agir em nome de Deus para transformar as estruturas, criar uma ordem socialmente justa, baseada nos princípios cristãos. Agora, a ação dos universitários católicos colocava em segundo plano seu ideal inicial, de recrutar e salvar almas no meio acadêmico, inserindo-as na Igreja. A universidade passava a ser abordada como um meio complexo, no interior de uma sociedade mais abrangente, o que implicava estender a atuação da JUC para fora dos muros acadêmicos.

A questão não era mais salvar almas, chegar a alguns poucos eleitos que constituiriam uma elite católica na universidade. Os destinatários da salvação passavam a ser as massas humanas, cuja plena realização estaria obstruída pelas estruturas econômicas, sociais e políticas existentes, que urgia modificar. Para isso, seria preciso ir além da hierarquia eclesiástica: "No nosso papel de leigos, vanguarda da igreja, atuando no primeiro front – nós que abrimos as trincheiras, é imperioso que nos arrisquemos. O risco é um dado do cristão. Devemos arriscar-nos mais que a Hierarquia. Nossa bagagem é a busca incessante da santidade" (Boletim da JUC no. 1, In Sigrist, 1982, p.44). Começava a ser contestada a autoridade eclesiástica, abria-se o campo de tensão com a hierarquia da Igreja.

A princípio, a obra de Maritain foi um referencial teórico cristão a dar sustentação à evolução política e ideológica da JUC. A entidade adotou explicitamente seu conceito de ideal histórico, exposto no texto Da necessidade de um Ideal Histórico, apresentado pelo padre Almery Bezerra, assistente da JUC de Recife, à reunião do Conselho Nacional da JUC, realizado em Belo Horizonte, em 1959. O conceito apareceu novamente no documento Diretrizes mínimas para o ideal histórico do povo brasileiro, aprovado no Congresso dos dez anos da JUC, em 1960, no Rio de Janeiro. Esse documento, por outro lado, revelava a "opção por um 'socialismo democrático' e pelo que chama de 'revolução brasileira'" (Arantes & Lima, 1984, p.28). Então, as fontes cristãs já não eram as únicas para as lideranças da JUC, que começavam a aproximar-se do marxismo.

Ao tomar "consciência de que nós ajudamos a construir a história" – conforme a formulação do número 4 do Boletim da JUC –, seria preciso encontrar soluções cristãs para os problemas sociais, buscando novas linhas de ação, com base em um ideal histórico concreto, uma essência ideal realizável, na expressão de Jacques Maritain em Humanismo Integral: uma visão nova da ordem cristã, livro traduzido para o português por Afrânio Coutinho e publicado no Brasil pela editora Dominus (Maritain, 1962). Num mundo polarizado pela guerra fria, buscava-se em Maritain um caminho dentro do ideário católico, que não fosse nem a adesão ao comunismo – essa "ideologia de decomposição revolucionária que se eleva contra a própria idéia de cristandade"–, nem a inércia conformista dos cristãos frente à ordem capitalista estabelecida. Procurava-se atingir "um primado vital da qualidade sobre a quantidade, do trabalho sobre o dinheiro, do humano sobre a técnica, da sabedoria sobre a ciência, do serviço comum das pessoas humanas sobre a ambição individual de enriquecimento indefinido ou a vontade estatista de poder ilimitado" (Maritain, 1962, p.164).

Constatando que vivia num mundo polarizado entre capitalismo e comunismo, ambos anticristãos, mas também sem as ilusões dos católicos tradicionalistas de um retorno ao paraíso perdido medieval, a JUC encontrava no ideal histórico de Maritain uma das bases para o engajamento cristão eficaz, em sua luta dentro da Igreja pela participação política ativa de todos os católicos – e fora dela, em busca de uma sociedade justa e cristã, acima dos sistemas capitalista e comunista.

Entretanto, é preciso frisar o uso inovador da obra de Maritain pela ascendente ala esquerda da JUC, como parte de um "esforço de transição para superar uma visão tradicional da Igreja e do mundo. As categorias de Maritain são empregadas então a outra situação e mesmo fora do clima social-cristão de outros países" (Gómez de Souza, 1984, p.103). A JUC utilizou com originalidade o pensamento de Maritain, num "clima ideológico que não era mais o da construção de uma 'nova cristandade', nem dos programas reformistas da democracia cristã", como fora o caso da construção do Partido Democrata-Cristão no Chile, por exemplo (1984, p.58). Nas palavras de Luiz Alberto Gómez de Souza, que participou intensamente da JUC e da AP8: "Maritain e mais tarde Mounier ou Teilhard de Chardin não foram adotados porque tinha ocorrido uma 'conversão' a seu pensamento, mas sobretudo porque se opunham a outros autores que se queria deixar de lado e abriam pistas que poderiam ser utilizadas, ainda que com muita liberdade. Chegava-se a eles freqüentemente por uma via negativa e pelo desconhecimento de outras ferramentas teóricas melhores". Seus conceitos eram usados "em situações que eles, ao criá-los, nem podiam prever que viessem a existir" (Gómez de Souza, 1984, p.158).

O ideal histórico logo passaria a ser considerado ultrapassado pela ala esquerda da JUC, dada a magnitude de suas pretensões transformadoras, numa conjuntura de radicalização das lutas de classes na sociedade brasileira no princípio dos anos 60, contemporânea da ascensão da influência da revolução cubana na América Latina. Os autores preferidos, no âmbito do catolicismo, passavam a ser "Emmanuel Mounier e Pierre Teilhard de Chardin. O primeiro pela dimensão cristã do seu 'existencialismo', frente a outros não cristãos. O segundo, por apresentar uma alternativa cristã para uma visão 'científica' da História, e, assim, fazer frente ao aspecto 'científico' do materialismo dialético". Ainda segundo Sigrist, os "problemas da 'existência concreta' e da 'história' polarizam as indagações fundamentais dos militantes" (1982, p.24). Nas palavras de Betinho, o “engajamento católico nos levava a acreditar na revolução personalista de Emmanuel Mounier, na visão histórica de Teilhard de Chardin, em uma crítica aguda ao capitalismo, que não respeitava a pessoa humana” (Souza, 1996b, p.15). Baseados em depoimento de Francisco Whitaker, Löwy e Garcia-Ruiz afirmam que “a JUC e de modo geral a Ação Católica brasileira dividem-se, ao longo dos anos 50, em duas tendências divergentes: a dos discípulos de Maritain, que se tornarão democratas-cristãos, e aquela dos discípulos de Lebret e Mounier, que tomará o caminho do socialismo” (1997, p.21).

O padre Lebret esteve no Brasil várias vezes, a partir de 1947, e manteve contato com dirigentes da JUC, como Plínio de Arruda Sampaio, que o encontrou em 1953, segundo Gómez de Souza (1984, p.115). A trajetória do padre Lebret é abordada em detalhe no livro Économie et humanisme – de l´utopie communautaire au combat pour le tiers monde (1941-1966), de Denis Pellentier (1996). Lebret, nascido em 1897, entrou para a ordem dos dominicanos em 1923. Nos anos 30, ele foi um dos fundadores da Juventude Marítima Cristã e aderiu ao combate sindical ao lado dos pescadores. Participou de um projeto de revolução nacional e colaborou com o regime direitista de Vichy, tendo depois se distanciado dele. Em 1941 fundou a revista Economia e Humanismo, expressão de um movimento que evoluiria para posições democratas cristãs e para o diálogo com os comunistas. Logo viria o contato com o Terceiro Mundo e a busca de uma economia humana, com desenvolvimento harmônico nos países subdesenvolvidos, que influenciaria as posições oficiais do Vaticano a respeito. Para tanto, teve peso decisivo seu contato com o Brasil, onde esteve pela primeira vez de abril a outubro de 1947. Nessa ocasião, em São Paulo, o padre Lebret deu um curso de dois meses na Escola Livre de Sociologia e Política, intitulado «Introdução geral à economia humana», que se aproximava do pensamento de Marx. Segundo Pellentier, Marx e Lebret tinham em comum «a mesma indignação diante do sistema capitalista» (1996, p.115).

Para Löwy (2000, p.235), teriam sido influenciados pelo pensamento de Lebret: Dom Helder Câmara, os intelectuais católicos Alceu Amoroso Lima e Cândido Mendes, dominicanos como o frei Benevenuto Santa Cruz, e quadros da JUC, caso de Luís Eduardo Wanderley e Vinícius Caldeira Brant. O dominicano francês Thomas Cardonnel, que permaneceu cerca de dois anos no Brasil, a partir de dezembro de 1959, também “eletrizou a atmosfera e contribuiu para radicalizar os espíritos”, especialmente o dos integrantes da JUC (Löwy, 2000, p. 241).

Exemplo da influência de Cardonnel encontra-se num livro organizado por Luiz Alberto Gómez de Souza em 1962. Ele selecionou artigos do Frei Cardonnel, do Padre Vaz e de Herbert José de Souza na obra Cristianismo hoje, publicada pela UNE (Cardonnel, Vaz e Souza, 1962). Na maioria, foram artigos que saíram originariamente no jornal O metropolitano, órgão oficial da União Metropolitana dos Estudantes do Rio de Janeiro, que vinha encartado nas edições de domingo do jornal Diário de Notícias, então dos mais vendidos nas bancas cariocas. Isso dava uma expressão cultural difusa socialmente ao órgão estudantil, produzido por jovens de esquerda – geralmente universitários da PUC, ligados à JUC. No artigo “Deus não é mentiroso como certa paz social”, por exemplo, Frei Cardonnel insistia na “necessidade de denunciar a harmonia natural, a colaboração das classes” (1962, p.21), buscando “ajudar os homens a serem humanos”, na “luta contra a miséria”, evitando assim cair numa “sociedade totalitária”, como a soviética (1962, p.23).

Vários "pensadores católicos mais avançados" – caso de Jean-Yves Calvez (autor de um livro sobre O pensamento de Karl Marx, que foi a primeira aproximação de muitos militantes católicos com o marxismo, a partir da tradução portuguesa de 1959), Leon Bloy, Bernanos, Charles Péguy, Henri de Lubac, Yves Congar, Christian Duquoc e outros – também davam subsídios à JUC, em particular, e aos católicos de esquerda, em geral. Pode-se ter idéia da influência de pensadores católicos franceses sobre os brasileiros por intermédio de textos como os Herbert José de Souza (1996a, p. 23, 34, 123) e de Löwy e Garcia-Ruiz (1997), entre outros.

Mas a incorporação era feita de modo criativo: “aquilo que os brasileiros fizeram não consistiu em aplicar no Brasil um corpo de idéias francesas, mas de utilizá-las como ponto de partida para criar idéias novas, para inventar uma cultura político-religiosa [...] de inspiração propriamente brasileira. Pode-se considerar essas idéias e práticas dos anos 1960-62 como o nascimento, pela primeira vez, de um pensamento/ação (“ver, julgar, agir”) cristão autenticamente latino-americano”. (Löwy & Garcia-Ruiz, 1997, p.26)

O método ver, julgar, agir foi incorporado criativamente pelos católicos brasileiros para tomar posição frente aos problemas sociais. Originalmente desenvolvido pelo padre belga José Cardjin, o método envolvia “partir da realidade em que os leigos estão inseridos (ver); analisar esta realidade à luz da fé (julgar); agir em sentido transformador dessa realidade (agir)”.9 Para Löwy e Garcia-Ruiz, “a lógica interna da reinterpretação ou da mudança em relação à problemática francesa pode ser resumida por um termo: radicalização”. (1997, p.26)

Talvez o Personalismo de Mounier tenha sido dos mais influentes na JUC, na fase do início dos anos 60, ao pretender ser "uma terceira posição entre o 'idealismo desencarnado', desligado da realidade, e o marxismo, que supostamente não levava em conta os valores do indivíduo". A inserção da JUC no movimento estudantil fazia com que as idéias de Mounier estivessem presentes em importantes documentos da União Nacional dos Estudantes (UNE), como a Declaração da Bahia, conclusão do I Seminário Nacional de Reforma Universitária, realizado em maio de 1961, na qual constava que "em nossos dias trata-se menos de optar entre o socialismo e o capitalismo, do que escolher uma forma de socialismo que possibilite a realização do homem e da humanidade". O humanismo de Mounier também se encontra na Carta do Paraná, documento da UNE de março de 1962, que "fala de uma universidade como expressão de um humanismo integral a que repugna o homem dividido em compartimentos estanques" (Arantes & Lima, 1984, p. 27-30).10

Na esteira do humanismo, o documento Juventude cristã hoje, escrito por Betinho em 1962, destacava uma atitude fundamental de sua "geração: a adesão ao drama do homem, de todos os homens, a luta pela universalização concreta da Redenção colocada não no plano de uma visão dualista, mas de uma concepção do homem como um todo, indissociável, organicamente definido. [...] voltamos à perspectiva universal do Cristianismo: todos os homens e o homem todo são objeto de amor e da Salvação" (In Lima, 1979, p.108-9). Mais adiante, acrescenta-se: "Absolutizamos o homem como fruto mais perfeito da Criação. Como fim último da História Humana, como tendo uma vocação eterna de encontro com o Absoluto" (In Lima, 1979, p.112).

Mas esse humanismo já não era apenas cristão, vinha mesclado com um esboço de análise das classes de inspiração marxista, como se evidencia, por exemplo, no seguinte trecho da referida Declaração da Bahia, na redação da qual os estudantes da JUC tiveram participação direta: "cumpre que os estudantes, principalmente os universitários, colocados numa perspectiva proletária, aliem-se às classes trabalhadoras, e, ao mesmo tempo que forneçam a estas subsídios para o aceleramento de seu processo emancipatório, sofram, por parte delas, a influência revolucionária que só essas classes, atualmente, podem exercer" (In Sanfelice, 1986, p.34).

Questionada pelo episcopado e impulsionada por um movimento social que já não cabia nos limites da Igreja, a ala mais à esquerda da JUC criaria a Ação Popular (AP) em 1962, associada a outras forças, como será exposto adiante – mas isso não impediu que houvesse muitos casos de dupla militância: a JUC continuaria em parte a ter uma função auxiliar à AP. Nesse sentido, declarou-me Duarte Pereira:

Algumas das figuras destacadas da JUC nos anos 50, como Betinho e Luiz Alberto, simplesmente se formaram e, por isso, automaticamente, deixaram de pertencer aos quadros da organização, que era estudantil. Era uma razão a mais por que buscavam, no começo dos anos 60, outras alternativas de organização para atuar. Alguns poucos, como Aldo Arantes, foram excluídos pela hierarquia. A maioria mantinha dupla militância ou boas relações com as duas organizações, JUC e AP. Em geral, nunca houve hostilidade entre militantes e dirigentes das duas organizações, que tinham natureza e propósitos distintos.

Podada pela hierarquia, carente de seus melhores quadros – que tendiam a privilegiar a AP –, confrontada com o golpe militar de 1964, a JUC foi gradualmente perdendo força. Em seu Conselho Nacional de 1967, já muito enfraquecida, a JUC deixou de considerar-se parte da Igreja, propondo ser meramente um "movimento de cristãos". Realizou ainda um Encontro Nacional em 1968, no qual ficou evidente o esvaziamento da entidade, que se dissolveu.

Entretanto, os debates, a vivência e a militância na JUC tiveram desdobramentos significativos na vida intelectual e política brasileira. Assim, por exemplo, vários intelectuais tiveram suas raízes na JUC – e depois na AP. Vejam-se os depoimentos de Henrique de Lima Vaz, Raul Landim e Paulo Arantes para o livro Conversas com filósofos brasileiros (Nobre e Rego, 2000). São três casos de intelectuais com participação na JUC, depois identificados com a AP no pré-1964, embora Paulo Arantes declare que, apesar de ter acompanhado de perto a fundação da AP, “não podia entrar, pois era dirigente nacional da JUC”. Segundo ele, “a AP foi um fenômeno. Em menor proporção pode ser comparada aos primeiros passos do PT, também com forte impregnação católica de esquerda” (In Nobre e Rego, 2000, p.338). Otília Fiori Arantes, José Luís Fiori – filhos de um conhecido professor universitário de Filosofia no Rio Grande do Sul, que também foi da AP – e uma infinidade de outros intelectuais hoje destacados academicamente também transitaram pela esquerda católica no início dos anos 60.

Muito da participação católica nas Comunidades Eclesiais de Base, a partir dos anos 70, e da própria versão brasileira da Teologia da Libertação, é herdeira da JUC – e também da Juventude Estudantil Católica (JEC), organização da Ação Católica para estudantes secundaristas, os quais, chegando ao ensino superior, incorporavam-se à JUC.11 Sem esquecer a Juventude Operária Católica (JOC), a Juventude Agrária Católica (JAC) e a Juventude Independente Católica (JIC), todas ligadas à Ação Católica Brasileira e fornecedoras de quadros para a AP.

A influência da JUC chegou mesmo a ultrapassar as fronteiras nacionais, a julgar pelo depoimento do peruano Gustavo Gutiérrez, autor do livro Teologia de la liberatión, publicado em Lima, em 1971. Ele declarou a Gómez de Souza que, enquanto redigia esse livro, em 1969, "parou na metade e sentiu necessidade de vir ao Brasil para discutir certos detalhes e entrevistar alguns antigos militantes da JUC, sobretudo aqueles do período 1960-1963" (Gómez de Souza, 1984, p.9).

Especialmente a ordem dos dominicanos foi influenciada pela militância na JUC naquele período, inclusive alguns frades que, depois de 1964, ligaram-se ao esquema guerrilheiro organizado pelo líder comunista Carlos Marighella, fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), em 1967. A relação entre os frades e a ALN foi relatada por frei Betto no livro Batismo de Sangue (1983). Segundo o jornalista Emiliano José (1997, p.72 e segs.), em seu livro sobre Marighella, baseando-se em depoimento do frei Fernando de Brito, “tornaram-se militantes da ALN” os freis Oswaldo Rezende, Yves Lesbaupin, Magno José Vilela, Luís Felipe Ratton, além do próprio Fernando e de frei Betto.

Por outro lado, alguns integrantes ou simpatizantes da JUC, e mais tarde da AP, viriam a ocupar postos importantes no governo de Fernando Henrique Cardoso – eleito presidente do Brasil em outubro de 1994, graças a uma aliança entre o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e as forças conservadoras da política nacional –, casos dos ministros Sérgio Motta, José Serra, Paulo Renato Souza, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Clóvis Carvalho, Paulo Paiva, além de funcionários graduados, como Vilmar Faria, Egydio Bianchi, entre outros. Numa reportagem para a revista Caros Amigos, intitulada “Serjão e os ex-revolucionários de São Paulo”, o jornalista Carlos Azevedo relata “a história do grupo que foi perseguido por subversão no regime militar e acabou no poder”. Segundo ele, Mendonça de Barros e Clóvis Carvalho deixaram a AP por discordar de sua radicalização a partir de 1965. Sérgio Motta afastou-se mais adiante, quando avançou a proposta de preparação da luta armada – mas continuou solidário aos ex-companheiros, dando-lhes emprego na sua empresa de planejamento e projetos hídricos, a Hidrobrasileira.

Sergio Motta foi um dos seis integrantes da direção nacional que reorganizou a AP em 1965, ao lado de Aldo Arantes (coordenador), Paulo Wright, Carlos Aumond, Betinho e Duarte Pereira. Segundo carta deste último à Folha de São Paulo, publicada parcialmente em abril de 1998, logo após a morte de Motta, “Serjão, ou Rodrigo, seu nome de luta, ocupava nesse grupo um lugar especial. Prático, organizador, garantia a ligação com São Paulo e o apoio administrativo às atividades da direção. Briguento mas afetuoso, conseguia divergir sem inviabilizar a convivência. Em 1967, por uma confluência de motivos pessoais, políticos e ideológicos, deixou a direção e em seguida a organização. Mas permaneceu na luta democrática e, mesmo ao integrar uma aliança conservadora, não arquivou as preocupações sociais. Também não esqueceu os antigos companheiros e amigos. Eu próprio devo muito ao apoio dele e de [sua esposa] Wilma em momentos decisivos”.

O ex-presidente da UNE, José Serra, exilou-se no Chile e lá foi representante da AP até afastar-se da organização, em 1973, ano da integração da maioria da AP (então já denominada APML) ao PCdoB, de uma série de prisões e assassinatos de militantes da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) no Brasil, e da derrubada do governo Allende no Chile. Nesse país atuaram vários militantes da AP, assumindo posições políticas diferenciadas na trajetória de ascensão e queda de Allende.



Os quadros da AP no Chile davam suporte à sobrevivência política e material da organização no Brasil. Exemplo de atuação da AP no Chile foi a publicação de Brasil: represión y tortura (Allarcón, 1971). O livro foi “sugerido pela direção nacional da AP, com participação de militantes de outras organizações, exilados no Chile. Assumido pelo chileno Rodrigo Alarcón, do Comitê de Denúncia à Repressão no Brasil, para facilitar a publicação”, segundo nota de Duarte Pereira para seu fundo documental doado ao Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp.12 Nesse livro, há um artigo de José Serra – sem assinatura – no anexo intitulado “La situación económica y social del pueblo brasileño: la outra violencia” (p.145-148). Numa obra dedicada a denúncias sobre as atrocidades da repressão, Serra expunha também a violência implícita na política econômica e social da ditadura.

Outros futuros políticos de destaque no campo conservador também pertenceram à AP(ML), como o ex-governador do Rio de Janeiro, Moreira Franco. Entretanto, neste capítulo sobre o lugar da AP na História do marxismo no Brasil, o propósito restringe-se a enfocar os rumos da parcela dirigente mais politizada da JUC nos anos 60, que daria origem à Ação Popular (AP), nascida sob signo cristão, mas crescentemente influenciada por idéias marxistas, até chegar ao maoísmo.



Surgimento e consolidação da Ação Popular

A AP surgiu em 1962, embora o ato formal de fundação só viesse a ocorrer em 1963, em Salvador. Estava implantada principalmente no movimento estudantil, no qual manteve a Presidência da UNE e de muitos centros acadêmicos e outras entidades representativas locais e regionais durante os anos 60. Gestou-se em particular no interior da JUC, que mostrara sua força política organizada no XXIII Congresso Nacional dos Estudantes, em 1960, quando compôs a chapa eleita para a diretoria da UNE com outros grupos de esquerda. Entretanto, cabe lembrar que além da JUC, da JEC e de outros movimentos católicos predominantes nas origens da AP, a organização bebeu de outras fontes. Por exemplo, no depoimento que me concedeu Duarte Pereira (31/01/2001), ele questiona a “versão tradicional que absolutiza o papel dos militantes oriundos da JUC” na criação da AP. Segundo ele,

É inquestionável que a JUC e, particularmente, lideranças saídas da entidade tiveram um papel decisivo na criação da AP, assim como as idéias filosóficas e políticas de raiz cristã, de que eram portadores. Mas, remontado assim, o quadro não está completo. Do ponto de vista de idéias e posições, é preciso levar em conta, desde o início, o movimento renovador que ocorria no seio de várias igrejas cristãs evangélicas e que, no caso da juventude, se cristalizou em organizações como a UCEB (União Cristã dos Estudantes do Brasil) e as ACAs (Associações Cristãs Acadêmicas). Uma figura como a do pastor Richard Schaull13 desempenhou nesses meios um papel semelhante ao do padre Vaz nos círculos católicos juvenis. Em vários aspectos, as idéias desses setores evangélicos podem ser consideradas mais avançadas do que as que circulavam na Igreja Católica e mesmo em seus movimentos leigos. É claro que a influência deles era muito menor. Mas, desde 1963, pelo menos, algumas das lideranças saídas desses movimentos tiveram um papel na criação da AP. Rubens Menzen Bueno, ou "Rubão", chegou a ser em 1963 um dos pré-candidatos da AP à presidência da UEE paulista. Escolhi como minha principal assessora na UNE a Abigail. Paulo Wrighrt começou a aproximar-se da AP no segundo semestre de 1963. E assim por diante. Após 1964, esses vínculos aumentaram, até com movimentos e lideranças evangélicas de outros países, inclusive dos Estados Unidos na luta contra o racismo e contra a guerra do Vietnã.

Duarte Pereira esclarece que, além do pessoal da JUC, de outras instituições católicas e dos evangélicos, haveria na origem da AP a presença de estudantes independentes de esquerda:

Outra corrente, além da JUC e dos evangélicos, foram os estudantes, como eu, que atuavam na "esquerda independente". Alguns eram cristãos (como eu, mas não mais filiados a nenhum movimento institucional de qualquer igreja), outros existencialistas a la Sartre, outros já se declaravam marxistas, mas contrários à orientação e à atuação do PCB e das outras organizações que se reivindicavam marxistas na época (como a IV Internacional, a Polop ou o PCdoB). O baiano Severo Sales, para dar um exemplo, já se dizia ateu e marxista na época; foi quem me recrutou para a AP; e foi eleito membro da direção nacional no primeiro Congresso, de 1963. Quanto à composição social, é indiscutível o predomínio da juventude universitária; mas havia também uma influência crescente no movimento secundarista, que se ampliaria até ganhar hegemonia após 1964 (ver a geração de Tibério Canuto, Bernardo Joffily e outros); havia os profissionais universitários (como o próprio Betinho, Luiz Alberto, Cosme e tantos outros); advogados trabalhistas (como o mineiro Antônio Lins); parlamentares, que participaram das primeiras articulações, embora alguns não se tenham tornado militantes, mas apenas amigos e aliados, quando AP se organizou efetivamente, com estrutura e disciplina (por exemplo, Paulo de Tarso, Almino Affonso, Max da Costa Santos e outros; daí a participação da AP no Ministério da Educação, no Ministério do Trabalho, na Supra etc., durante o governo Jango); e os primeiros vínculos com as Ligas Camponesas e sindicatos rurais, com movimentos populares urbanos (em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro etc.) e com o movimento operário e lideranças operárias, desde 1962-1963 (em São Paulo, em Minas, na Bahia etc.). Em suma, a AP não foi, desde o começo, um movimento exclusivamente estudantil e cristão. E esta realidade foi-se alterando com o passar dos anos. Desconhecer isso facilita a tese da interpretação "pequeno-burguesa", "cristã" e "mística" da AP, inclusive de seu "marxismo”.

Se as origens foram variadas, isso não deve elidir que foram as lideranças surgidas na JUC que desempenharam o papel decisivo na criação da AP, a partir do movimento estudantil.14 Nos anos 50, havia acirrada disputa entre as esquerdas e os liberais pelo controle da UNE. De 1950 a 1956, a entidade esteve em mãos de setores ligados à União Democrática Nacional (UDN), o partido de direita mais importante da época. No final da década, comunistas e socialistas passaram a ser hegemônicos na UNE; para manter sua escassa maioria na direção da entidade, precisavam do apoio de outros estudantes. Daí aproximarem-se de setores da JUC, que não votava em bloco nas eleições para a UNE: alguns de seus membros pendiam para os liberais, outros para a esquerda. É preciso reiterar que a JUC, dada sua condição de representação estudantil dos católicos, sempre esteve marcada pela diferenciação interna, com setores mais ou menos conservadores ou progressistas.

Por volta de 1960, a tendência de esquerda passou a predominar no interior da JUC e a organizar-se num setor político, especialmente significativo em Minas Gerais, onde se destacaram militantes como Herbert José de Souza (Betinho), Vinícius Caldeira Brant, Henrique Novais, entre outros, com atuação especialmente significativa na Universidade Federal de Minas Gerais, cujo Diretório Central dos Estudantes (DCE) era controlado pela esquerda da JUC, que mantinha relações estreitas com integrantes do clero progressista, como o Frei Matheus Rocha e o Padre Lage. Segundo frei Betto,

Todas as tardes nós nos encontrávamos no “chá das seis”, como era conhecido o encontro dos militantes cristãos à porta da igreja São José, no centro da capital mineira. Ali conspirávamos e debatíamos as estratégias para mudar a sociedade pela força da fé: Vinícius Caldeira Brant, Hugo Amaral, Paulo Haddad, Marcelo Guimarães, Nassim Mehedeff, Tomás Aroldo da Mota Santos, Humberto Pereira, José Alberto Fonseca, Rafael Guerra, Jair Ferreira de Sá e tantos outros. Enquanto a missa não tinha início, analisávamos a conjuntura do mundo, do Brasil, de Minas, até a hora de entrar no templo para receber a comunhão.



Betinho era o líder, o mais perspicaz, o mais sagaz. [...] Era o estrategista de nossas lutas estudantis. Nunca chegou à presidência da UNE, mas levou ao cargo Vinícius Caldeira Brant, Aldo Arantes e José Serra. (Betto, 1997).15

No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, a esquerda da JUC também era forte, especialmente na Universidade Católica (PUC-RJ), cujo DCE foi presidido por Aldo Arantes; ali também contava com o apoio de membros do clero, como o Padre Henrique Lima Vaz, que foi um dos principais ideólogos da JUC e da AP no início dos anos 60. Segundo Betinho, “o padre Vaz foi nosso ideólogo, porque o frei Matheus foi o inspirador”. Frei Matheus Rocha foi fundador da JEC; enquanto o padre Henrique Vaz – leitor de Marx, Engels, Hegel, Heidegger e outros pensadores – seria o redator da “parte ideológica, teórica, filosófica” do documento fundador da AP. (Souza, 1996a, p. 23 e 38)16

Na Bahia, com respaldo de padres como Jerônimo de Sá Cavalcanti e Dionísio Sciucchetti, a JUC foi representativa no movimento estudantil, que contava com a militância de Jorge Gonçalves, Paulo Mendes, Haroldo Lima, entre outros. São Paulo, Pernambuco, Goiás e Rio Grande do Sul também foram estados com destaque da JUC no seio do movimento estudantil, conforme relatam Arantes e Lima (1984, p.28-29).

Dada sua crescente organização, as lideranças da JUC passaram a encabeçar a frente de esquerda que dirigia a UNE. Assim, em 1961, o jucista Aldo Arantes foi eleito presidente da entidade, aliado ao Partido Comunista (PCB) e a outras forças progressistas que compunham a chapa vencedora. Mas Arantes foi obrigado a afastar-se da JUC, devido à aproximação com os comunistas e ao reconhecimento por parte da UNE, sob sua gestão, da União Internacional dos Estudantes, ligada a Moscou, como apontou Gómez de Souza (1984, p.187). Este foi apenas um exemplo dos atritos com a hierarquia católica, aos quais a radicalização política de lideranças da JUC levava. Começava a amadurecer o afastamento dos setores de esquerda da JUC em relação à hierarquia da Igreja. Formou-se, então, o chamado Grupão, organização transitória para a AP.

Tendo em mente a formação de uma organização política autônoma, líderes mais à esquerda da JUC promoveram a chamada UNE-Volante, em que dirigentes da UNE deslocavam-se por todo o país, levando aos estudantes mensagens de conscientização e luta política. A adesão em âmbito nacional à greve do 1/3 – que reivindicava um terço de participação estudantil em todos os colegiados universitários – facilitou a articulação de uma nova organização política, com base na esquerda da JUC, em todo o país.17 A pretensão era criar no Brasil uma terceira via, socialista e democrática, ao mundo polarizado da guerra fria.

Uma série de três reuniões constituiria a AP. A primeira, no início de 1962, aprovou o Estatuto Ideológico da nova agremiação, que defendia o socialismo democrático e a revolução brasileira. Escolheu-se o nome provisório de Grupo de Ação Popular (GAP), logo abandonado, para a sigla não ser confundida com uma organização de extrema direita, o Grupo de Ação Patriótica. O nome e a sigla AP seriam assumidos na segunda reunião de fundação, em junho de 1962, em Belo Horizonte, com representação de 14 estados. Finalmente, em fevereiro de 1963, em Salvador, ocorreu a terceira reunião, a mais significativa na etapa de fundação, constituindo-se no I Congresso da AP, cujo nascimento alguns autores datam a partir daí, caso de Daniel Aarão Reis (Reis Filho & Sá, 1985, p.36).

Os principais fundadores, participantes do I Congresso da AP, segundo Arantes e Lima (1984, p.40), teriam sido: Herbert José de Souza (Betinho, eleito coordenador nacional), Aldo Arantes, Luiz Alberto Gómez de Souza, Haroldo Lima, Cosme Alves Neto – todos também presentes nas duas reuniões anteriores do processo de fundação –, além de Duarte Pereira,18 Antonio Lins, Severo Sales, Péricles dos Santos, Maria Angélica Duro e Manuel Joaquim Barros.

A AP organizava-se na época em âmbito municipal, regional (8 regiões, englobando 21 estados), e nacional, cada um com suas respectivas coordenações. O sistema de coordenações, correspondente à fase de maior herança cristã na AP, seria transformado depois de 1965 em sistema de comandos (o nome já revela a influência da revolução cubana), e posteriormente em sistema de comitês, no período do marxismo-leninismo-maoísmo. Alguns documentos ao longo do tempo dão pistas sobre o funcionamento organizacional da AP, por exemplo: Estruturação e organização do grupo (1963), Histórico (da AP, 1966), Estatutos da APML (1971) etc.

Também há informações a respeito no livreto AP, socialismo brasileiro, de um jesuíta conservador, Estáquio Gallejones (1965, 47 p.). Segundo Duarte Pereira, esse foi um dos primeiros trabalhos a serem publicados sobre a AP; o autor teria tido “acesso, possivelmente, a documentos apreendidos pelos serviços de inteligência e repressão do regime militar; por isso fornece dados sobre a estrutura da AP e a composição nominal de seus órgãos dirigentes, difíceis de serem encontrados em outras fontes”. Conforme escreveu Pereira à margem de seu exemplar do livreto, este apresentaria “orientação crítica e conservadora, mas relativamente fiel aos fatos”. Ali são identificados os primeiros membros eleitos para o Secretariado Nacional da AP no seu I Congresso: Herbert José de Souza (de Minas Gerais, coordenador nacional) Severo Albuquerque Sales (da Bahia), Cosme Alves Neto (do Amazonas), e Maria Angélica Duro (do Rio Grande do Sul). Esta última logo deixaria o Secretariado, que a partir de agosto de 1963 seria composto também por Tereza Rodrigues e Sílvio Gomes de Almeida (da Guanabara), Aldo Arantes (do Distrito Federal), e Luiz Alberto Gómez de Souza (do Rio Grande do Sul).

O I Congresso da AP aprovou o Documento Base da organização, que orientou sua atuação política até por volta de 1968.19 O texto aboliu qualquer referência ao cristianismo, o que significou uma ruptura com a JUC. Mas o ideário cristão ainda estava presente, por exemplo, na afirmação abstrata de que "nosso compromisso único é, pois, com o homem" (In Lima, 1979, p.118), sob clara inspiração da reflexão anterior, desenvolvida no seio da JUC, na qual vários integrantes da AP continuavam a atuar paralelamente. Outra herança da JUC na AP surge logo no segundo parágrafo do Documento Base: “Visão, opção e ação traduzem para nós três momentos articulados de um só movimento: o movimento mesmo de nossa presença na história de que não somos espectadores, mas atores conscientes”. Ora, o que seriam visão, opção e ação senão uma referência ao método da JUC “ver, julgar, agir”?

Por outro lado, sob o impacto recente da vitória da revolução cubana, as idéias marxistas mesclavam-se à inspiração cristã no documento, que adotava a "perspectiva do socialismo como humanismo, enquanto crítica da alienação capitalista e movimento real da sua superação" (In Lima, 1979, p.126). Defendia-se o caráter socialista da revolução brasileira, embora a análise ainda se prendesse a uma visão dualista da economia e da sociedade: haveria a coexistência de um setor arcaico e feudal em parcelas do campo, com um setor capitalista crescente no conjunto da sociedade; a proposta era lutar contra "a dupla dominação capitalista (internacional e nacional) e feudal", com prioridade para a organização de operários e camponeses, numa política de preparação revolucionária (In Lima, 1979, p.138-44). A proposta de socialismo, contudo, afastava-se da fórmula de ditadura do proletariado, vigente no leste europeu (In Lima, 1979, p. 134-138).

Outro fator decisivo para os dirigentes de esquerda da JUC fundarem a AP – associando-se a setores políticos menores de fora da JUC – foi a necessidade de aproximação com a sociedade mais abrangente, fora do movimento estudantil. Sem abandonar o trabalho com universitários e secundaristas, a AP pretendia lançar-se com prioridade à organização política de operários e camponeses. Entre esses últimos, conseguiu certa inserção, especialmente por meio da participação no Movimento de Educação de Base (MEB), da Igreja católica. Esse movimento foi objeto do portentoso livro Educar para transformar: educação popular, Igreja Católica e política no Movimento de Educação de Base, de Luiz Eduardo Wanderley, que dedica um breve tópico à AP (1984, p. 401-408). Para ele, “o MEB, juntamente com o sindicalismo rural e a JUC, e em parte a JEC, se constituíram nos movimentos da Igreja católica que redefiniram a atuação da prática dos cristãos na sociedade brasileira” (1984, p.16).

O MEB, ligado à hierarquia católica, “era essencialmente educativo e não um movimento político ou calcado em um projeto político definido”, como o da AP (1984, p. 404). Não obstante, no início dos anos 60, o MEB constituiu-se num espaço de atuação para católicos de esquerda, que procuravam conscientizar e politizar especialmente o povo do campo durante o processo de aprendizagem. O MEB atingiu 14 estados e um território em 1964, num sistema que envolvia aulas radiofônicas. Entre 1961 e 1965, 380 mil alunos concluíram os estudos no MEB, que mobilizou milhares de professores, supervisores e monitores voluntários, conforme dados fornecidos por Wanderley (1984: p. 60-61).

Entre os alunos do MEB, em 1962, esteve o futuro líder camponês Manoel Conceição dos Santos, que assim começava uma trajetória que o levaria a tornar-se organizador de 20 a 30 escolas de alfabetização no interior do Maranhão, depois fundador do Sindicato do Trabalhadores Rurais Autônomos de Pindaré Mirim em 1963, organizador da resistência ao golpe de 1964 no campo, mais tarde dirigente da AP e da APML (Conceição dos Santos, s.n.t.; e 1980). Paralelamente ao MEB – e sem se confundir com ele –, desenvolveu-se na época, a partir de Recife, o sistema revolucionário de alfabetização do educador católico Paulo Freire, do qual também participaram membros da AP.

A AP obteve certo êxito no processo de organização de sindicatos rurais, promovido pela Superintendência para a Reforma Agrária (SUPRA), órgão do governo federal, criado em outubro de 1962 pelo Presidente da República, o trabalhista João Goulart. A organização participou ainda da criação e da primeira diretoria da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). Por aí se vê que a AP, embora com discurso e postura à esquerda do governo, integrou-se ao esforço reformista da época, a partir da ação do Estado, junto ao qual reivindicava a implementação das chamadas reformas de base na sociedade brasileira, como as reformas agrária, educacional, fiscal, administrativa e outras que promovessem melhor distribuição de riquezas e direitos sociais.


  1   2   3   4   5


La base de datos está protegida por derechos de autor ©bazica.org 2016
enviar mensaje

    Página principal