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Explorando as primeiras tradições

Em 1977, um livro da autoria do teólogo inglês John Hick, em parceria com vários outros colegas de mesma opinião, provocou uma polêmica acalorada ao afirmar que Jesus nunca pensou que fosse Deus encarnado ou o Messias. Esses conceitos, disseram, desenvolveram-se mais tarde e foram incorporados aos evangelhos, de modo que Jesus parece tê-los dito.

Para investigar essa alegação, Witherington retrocedeu ao tempo das mais antigas tradições sobre Jesus — ao material mais primitivo, inquestionavelmente à prova da influência de lendas — e descobriu provas convincentes sobre como Jesus via a si mesmo.

Eu queria me aprofundar nessa pesquisa começando pela pergunta:

— Que pistas temos sobre o conceito que Jesus tinha de si mesmo com base na maneira como ele se relacionava com as outras pessoas?

Witherington pensou um pouco e depois respondeu:

— Observe como ele se relacionava com os discípulos. Jesus tinha 12 discípulos, mas não era um deles.

Embora isso possa parecer um detalhe sem maior importância, Witherington disse que se trata de algo muito significativo.

— Se os 12 representavam um Israel renovado, onde é que Jesus se encaixava aí? — indagou ele. — Ele não é apenas parte de Israel, não é parte somente do grupo dos redimidos, mas está formando o grupo, assim como Deus no Antigo Testamento formou seu povo e estabeleceu as 12 tribos de Israel. Isso nos diz alguma coisa sobre o modo como Jesus via a si mesmo.

Em seguida, Witherington passou a descrever uma pista que pode ser encontrada no relacionamento de Jesus com João Batista.

— Jesus diz: "Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista". Tendo dito isso, ele vai mais além em seu ministério do que João Batista no dele: faz milagres, por exemplo. O que isso nos diz sobre o conceito que Jesus tinha sobre si mesmo?

Após uma pausa, continuou:

— Seu relacionamento com os líderes religiosos talvez seja o que melhor ilustra isso. Jesus faz uma afirmação verdadeiramente radical ao dizer que não é o que entra em uma pessoa que a corrompe, e sim o que sai de seu coração. Com isso, ele pôs de lado grande parte do livro de Levítico e todas as meticulosas regras referentes à pureza. Os fariseus, é claro, não gostaram dessa mensagem. Eles queriam que as coisas continuassem do mesmo jeito. Mas Jesus disse: "Não. Deus tem outros planos. Ele está fazendo uma coisa nova". Teríamos de perguntar: que espécie de pessoa se julga imbuída de autoridade para desprezar as Escrituras judaicas divinamente inspiradas, substituindo-as por seu próprio ensino?

Witherington passou então a seu último exemplo.

— E que dizer de seu relacionamento — se é que podemos chamá-lo assim — com as autoridades romanas? Por que elas o crucificaram? Se ele fosse apenas um sábio inofensivo que gostava de contar pequenas parábolas, como foi que terminou na cruz, principalmente na festa da Páscoa, quando nenhum judeu admite que outro judeu seja executado? Havia um motivo para aquela inscrição acima de sua cabeça: "Este é o rei dos judeus".

Witherington deixou pairando no ar este último comentário antes de passar à explicação dele:

— Ou Jesus declarou verbalmente isso — disse ele — ou com certeza alguém achou que ele o fez.

Pelo dedo de Deus

— Se, por um lado, os relacionamentos de Jesus nos permitem observar como ele via a si mesmo, os seus atos —, disse Witherington — principalmente os seus milagres, nos proporcionam, por sua vez, outro tipo de visão.

Nesse momento, porém, ergui a mão para interrompê-lo.

— É claro que não podemos dizer que os milagres de Jesus o conscientizaram de que era Deus — eu disse —, já que os próprios discípulos, posteriormente, fizeram as mesmas coisas, e não consta que tivessem reivindicado nenhuma divindade para si.

— Não, não é o fato de que Jesus realizou milagres que ilumina a consciência que ele tinha de si mesmo — respondeu Witherington. — O que importa é como ele interpreta seus milagres.

— Como assim? — perguntei.

— Jesus diz: "Mas se é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus". Ele não é como milagreiros que fazem coisas maravilhosas e depois a vida prossegue como se nada tivesse acontecido. Não. Para Jesus, seus milagres eram um sinal que indicavam a iminência do Reino de Deus. Eles são como que o aperitivo desse Reino que virá. Isso é o que diferencia de Jesus.

Eu o interrompi novamente:

— Por favor, dê mais alguns detalhes — pedi. — De que forma isso o diferencia?

— Jesus vê em seus milagres a realização de algo inédito: a vinda do Reino de Deus — respondeu Witherington. — Jesus não se vê simplesmente como um fazedor de milagres; ele se vê como aquele em quem e por meio de quem as promessas de Deus se realizam. Isso é bem mais do que uma declaração frágil e velada de transcendência.

Assenti com a cabeça, entendendo finalmente o que ele quis dizer. Em seguida, voltei às palavras de Jesus em busca de mais pistas sobre o que ele pensava de si mesmo.

— Ele era chamado raboni, ou "rabino", por seus seguidores — eu disse. — Isso não significa que ele simplesmente fazia preleções como outros rabinos do seu tempo?

Witherington sorriu.

— Na verdade — disse ele —, Jesus ensinava de uma maneira radicalmente nova. Ele começava seus ensinamentos com a frase "Amém, amém, eu lhes digo", o que significa: "Juro, desde já, que é verdade o que vou dizer". Isso era completamente revolucionário.

— Como assim? — perguntei. Witherington respondeu:

— No judaísmo, era preciso o testemunho de duas pessoas, de forma que a testemunha a comprovava o depoimento da testemunha b e vice-versa. Jesus, porém, era a testemunha da verdade de suas declarações. Em vez de basear seu ensinamento na autoridade alheia, ele o fazia com base na própria autoridade. Temos aqui então alguém que se acha dotado de uma autoridade superior e mais abrangente que os profetas do Antigo Testamento. Ele se achava imbuído não apenas de inspiração divina, como o rei Davi, mas também de autoridade divina e do poder da comunicação direta da palavra descer divina.

Além da expressão enfática sobre a verdade com que iniciava seus ensinamentos, Jesus utilizava o termo 'Abba" ao se relacionar com Deus.

— De que maneira isso nos revela o que ele pensava sobre si próprio? — perguntei.

— 'Abba" tem uma conotação de intimidade no relacionamento de um filho com seu pai — disse Witherington. — Curiosamente, é também o termo que os discípulos usavam quando se referiam a um professor querido no judaísmo primitivo. Jesus, porém, o utilizou para se referir a Deus, e, pelo que me consta, só Jesus e seus seguidores oravam a Deus dessa maneira.

Quando pedi a Witherington que discorresse um pouco mais sobre a importância disso, ele falou:

— No contexto em que Jesus atuava, era comum que os judeus dissessem o nome de Deus. Seu nome era a palavra mais santa que podiam pronunciar, a tal ponto que tinham medo de pronunciá-la erradamente. Sempre que tinham de se dirigir a Deus, diziam algo como "O Santo, bendito seja", mas nunca usavam seu nome pessoal.

— "Abba" seria um termo pessoal — eu disse.

— Muito pessoal — ele respondeu. — E um termo afetuoso que uma criança empregaria ao se dirigir a seu pai: "Paizinho, o que você tem para mim?".

Notei, porém, uma certa inconsistência no que ele me dizia.

— Espere um pouco — objetei. — Quando Jesus diz 'Abba" em suas orações, isso não implica que ele se julgue Deus, já que ensinou os discípulos a usar a mesma palavra quando orassem, e eles não são Deus.

— Na verdade — respondeu Witherington —, o significado de 'Abba" é que Jesus é o iniciador de um relacionamento íntimo que anteriormente não era possível. A questão é: que tipo de pessoa é capaz de mudar os termos do relacionamento com Deus? Que tipo de pessoa pode iniciar uma nova aliança com Deus?

A diferença estabelecida por Witherington fazia sentido para mim.

— Em que medida o senhor considera importante o uso que Jesus fazia da expressão 'Abba"? — perguntei.

— É muito importante — respondeu ele. — Isso implica que Jesus tinha um grau de intimidade com Deus muito diferente do que prevalecia no judaísmo daquele tempo. O mais surpreendente, porém, é que Jesus está dizendo o seguinte: somente por meio de um relacionamento com ele é possível ter com Deus um relacionamento do tipo "Abba". Isso diz muito sobre o que ele pensava a respeito de si mesmo.

Witherington acrescentou outro indício importante — as várias vezes em que Jesus referiu-s a si mesmo como o Filho do Homem —, mas eu lhe disse que um outro estudioso, Craig Blomberg, já havia explicado que a expressão era uma referência a Daniel 7. A expressão, também no parecer de Witherington, é de extrema importância por revelar a consciência messiânica ou transcendental de Jesus.

Nesse momento, fiz uma pausa para avaliar o que Witherington tinha acabado de dizer. Juntei todos os indícios relativos aos relacionamentos de Jesus, seus milagres e suas palavras. Com isso, a percepção que ele tinha de sua identidade ficou muito nítida.

Parecia haver pouca dúvida, com base nas provas mais antigas, de que Jesus se considerava mais que simplesmente um operador de atos grandiosos, mais que um professor, mais que outro profeta dentre muitos. Havia provas abundantes de que ele via a si mesmo em um grau único e elevado. Mas qual seria exatamente a abrangência dessa autocompreensão?


Jesus segundo João

Na abertura de seu evangelho, João emprega uma linguagem majestosa e inequívoca para afirmar corajosamente a divindade de Jesus.


No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito [...] Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.1-3,14).
Lembro-me de ter deparado com essa magnífica introdução quando li pela primeira vez o evangelho de João. Recordo-me de ter perguntado a mim mesmo: como será que Jesus reagiria se lesse essa passagem de João? Será que ele daria seu aval a ela ou será que diria: "Ei, João não entendeu nada do que eu disse! Ele me enfeitou e me cobriu de mitos a tal ponto que eu nem mesmo me reconheço!". Ou será que ele diria: "Sim, sou tudo isso e muito mais"?

Posteriormente, lendo o que Raymond Brown, outro estudioso, escrevera, vi que ele havia chegado a uma conclusão semelhante: "Não tenho nenhuma dificuldade em respaldar a tese de que se Jesus [...] tivesse lido o que João escreveu, teria achado seu evangelho uma expressão adequada de sua identidade".73

Agora eu teria a oportunidade de ouvir do próprio Witherington, que passara a vida inteira analisando os por-menores acadêmicos relativos à percepção que Jesus tinha de si mesmo, se ele concordava com a avaliação de Brown.

Não houve nenhuma hesitação e nenhum sinal de possível equívoco.

— Sim, concordo — ele disse. — Para mim, isso não representa nenhum problema. Quando lemos o evangelho de João, temos à nossa frente a imagem de Jesus que é fruto de uma interpretação, mas creio também que se trata da conclusão lógica do que estava implícito no Jesus histórico. E eu acrescentaria: mesmo que eliminássemos o evangelho de João, ainda assim não ficaríamos com um Jesus destituído de seu caráter messiânico, porque esse tipo de material consta dos outros três evangelhos.

Lembrei-me imediatamente da famosa passagem, registrada em Mateus, em que Jesus pergunta a seus discípulos em uma reunião secreta: "E vocês?... Quem vocês dizem que eu sou?". Pedro respondeu sem nenhuma ambigüidade: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo". Em vez de mudar de assunto, Jesus ratificou a afirmação de Pedro: "Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não lhe foi revelado por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus". (Cf. Mt 16.15-17.)

Apesar disso, algumas representações populares de Jesus, como no filme A última tentação de Cristo, mostram-no em dúvida quanto à sua identidade e missão. Ele aparece sobrecarregado de ambigüidade e angústia.

— Existe algum indício — perguntei a Witherington — de que Jesus tenha tido alguma crise de identidade?

— Uma crise de identidade não, embora eu acredite que ele tenha tido pontos de confirmação de sua identidade — respondeu o professor. — No seu batismo, na tentação, na transfiguração, no jardim do Getsêmani, são todos momentos de crise em que Deus confirmou-lhe quem ele era e qual era sua missão. Por exemplo, não creio que tenha sido acidental o fato de que seu ministério só comece realmente depois de seu batismo, quando ouve uma voz que lhe diz: "Este é o meu Filho amado, em quem me agrado".

— No entender de Jesus, qual seria sua missão?

— Ele se via como o libertador do povo de Deus, portanto sua missão era dirigida a Israel.

— Especificamente a Israel — enfatizei.

— Correto — confirmou Witherington. — Há poucos indícios de que ele tenha se preocupado com os gentios durante seu ministério: esta seria a missão da igreja. Como se vê, as promessas dos profetas eram para Israel, portanto era para Israel que ele tinha de vir.

"Eu e o Pai somos um"

Em seu livro Reasonable faith, William Lane Craig apresenta grande quantidade de provas de que, em um período de 20 anos depois da crucificação, havia uma cristologia muito desenvolvida que proclamava Jesus como Deus encarnado.

Jaroslav Pelikan, historiador da igreja, ressaltou que o sermão cristão mais antigo, o mais antigo relato sobre um mártir cristão, a mais antiga narrativa paga sobre a igreja e a oração litúrgica mais antiga (lCo 16.22) são todas passagens que se referem a Jesus como Senhor e Deus. Segundo Pelikan: "Sem dúvida, era essa a mensagem em que a igreja acreditava e que ensinava: que 'Deus' era um nome adequado para Jesus Cristo".74

Em vista disso, perguntei a Witherington:

— O senhor acha que isso aconteceria, principalmente de forma tão abrupta, se Jesus não tivesse feito nenhuma afirmação transcendente ou messiânica sobre si mesmo?

Witherington foi categórico.

— Não, a menos que você queira sustentar que os discípulos esqueceram completamente como Jesus era e que eles nada tiveram a ver com as tradições que foram surgindo 20 anos após a sua morte — disse ele. — Francamente, como historiador, isso não faz o mínimo sentido.

Conforme o raciocínio de meu entrevistado, quando o assunto é história tudo é possível, mas nem todas as coisas possíveis são igualmente prováveis.

— Será provável — ele perguntou — que tudo isso tenha sido tirado do nada 20 anos depois da morte de Jesus, quando ainda viviam pessoas que estiveram diante do Jesus histórico e sabiam como ele era? Para mim, essa hipótese histórica é tão improvável quanto qualquer outra que você possa imaginar. O que importa realmente é saber o que aconteceu depois da crucificação de Jesus que mudou a mente dos discípulos, que anteriormente haviam negado, desobedecido e abandonado a Jesus. Alguma coisa simplesmente lhes aconteceu, algo semelhante ao que Jesus experimentou no batismo — eles receberam a confirmação de que Jesus era de fato quem esperavam que fosse.

E o que era ele exatamente? Como eu já estava terminando meu encontro com Witherington, queria que ele sintetizasse a questão para mim. Levando em conta toda a sua pesquisa, a que conclusão ele chegava sobre o que Jesus pensava de si mesmo? Fiz a pergunta, recostei-me na cadeira e deixei que ele falasse; foi o que ele fez, com eloqüência e convicção.

— Jesus se julgava a pessoa divinamente escolhida para realizar o ato salvífico máximo de Deus na história humana. Ele acreditava ser o agente de Deus incumbido de executar tal plano; para isso fora autorizado por Deus, revestido de poder por ele, era seu porta-voz e era por ele dirigido na concretização dessa tarefa. Portanto, as palavras de Jesus são as mesmas palavras de Deus. O que Jesus fez foi obra de Deus. Pelo conceito judaico de intermediação, "o agente de um homem é como ele mesmo". Lembra-se de como Jesus enviou os apóstolos e lhes disse: "Tudo o que fizerem a vocês é a mim que o fazem"? Havia uma ligação muito forte entre o homem e o agente a quem incumbia representá-lo.

Após uma pausa, prosseguiu:

— Bem, Jesus acreditava ter uma missão divina, que era redimir o povo de Deus. A implicação disso é que o povo de Deus estava perdido e que Deus tinha de fazer alguma coisa, como sempre fez, para intervir e recolocá-lo nos trilhos certos. Desta vez, porém, havia uma diferença: seria a última vez; era a última chance. Jesus acreditava ser o Filho de Deus, o Ungido de Deus? A resposta é sim. Ele se via como Filho de Deus? A resposta é sim. Ele se julgava o Messias derradeiro? Sim, era assim mesmo que ele se via. Ele acreditava que alguém mais, além de Deus, poderia salvar o mundo? Não, não creio que acreditasse. E é aí que o paradoxo se torna o mais irônico possível: Deus vai salvar o mundo por meio da morte de seu Filho. O mais humano de todos os atos humanos: a morte. Bem, Deus, devido a sua natureza divina, não morre. De que modo então Deus poderia fazê-lo? Como é que Deus poderia se tornar o Salvador da raça humana? Ele teria de vir como ser humano para realizar essa missão. Jesus acreditava ser aquele que a realizaria. Jesus disse, em Marcos 10.45: "Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos". Ou essa é a mais alta forma de megalomania, ou é o exemplo de alguém que acredita realmente na frase que disse: "Eu e o Pai somos um". Em outras palavras: "Tenho autoridade para falar pelo Pai; tenho o poder para agir pelo Pai; se vocês me rejeitarem, estarão rejeitando o Pai". Mesmo que eliminássemos o quarto evangelho e ficássemos apenas com os sinóticos, essa seria a conclusão a que acabaríamos chegando. E é a essa conclusão que Jesus nos faria chegar se tivéssemos um estudo bíblico com ele e lhe fizéssemos essa pergunta. Por que será que nenhum outro judeu do século i tem milhões de seguidores hoje em dia? Por que não há um movimento de adeptos de João Batista? Por que, entre todos os personagens do século i, dentre eles os imperadores romanos, só Jesus é adorado hoje, ao passo que os outros foram tragados pelo pó da história? É porque Jesus, o Jesus histórico, também é o Senhor vivo. Eis a razão. É porque ele ainda está conosco, enquanto os outros já se foram há muito tempo.



Precisamente no lugar de Deus

A exemplo de Witherington, muitos outros estudiosos colheram com afinco as mais antigas provas relativas a Jesus e chegaram às mesmas conclusões.

Craig escreveu: "Eis aqui um homem que se julgava Filho de Deus em um sentido bem específico, que afirmava agir e falar com autoridade divina, que se considerava operador de milagres e que acreditava que o destino eterno das pessoas dependia de acreditarem ou não nele".75

Em seguida, acrescentou uma observação bastante surpreendente: "Há indicações suficientes de uma alta consciência cristológica em Jesus, mesmo nos parcos 20% de declarações reconhecidas por legítimas pelo Seminário Jesus".76

Os indícios de que Jesus pretendia ocupar o mesmo lugar de Deus são "totalmente convincentes", concorda o teólogo Royce Gordon Gruenler.77

Essa declaração sobre Jesus é de tal maneira extraordinária, disse Craig, que, inevitavelmente, a questão de sua sanidade tinha de vir à tona. Ele observa que após James Dunn ter concluído seu estudo épico sobre o assunto, não pôde deixar de dizer: "Não se pode ignorar uma última questão: será que Jesus era louco? 78

No aeroporto de Lexington, enquanto aguardava meu vôo de volta para Chicago, liguei de um telefone público para marcar uma entrevista com um dos principais estudiosos de psicologia do país.

Eu tinha de descobrir.



Ponderações

Perguntas para reflexão ou estudo em grupo
1. Quais seriam, em sua opinião, algumas das razões para que Jesus se mostrasse evasivo quanto à sua identidade sempre que se encontrava em algum lugar público? De que maneira você acha que a proclamação precoce de sua divindade poderia prejudicar sua missão?

2. Que dificuldades enfrentamos quando procuramos determinar o que pensavam sobre si mesmas algumas figuras históricas? Que indícios você consideraria mais úteis na tentativa de esclarecer essa questão? Os indícios apresentados por Witherington são bons o suficiente para convencê-lo a aceitar a idéia de que Jesus se considerava Deus e Messias? Por que sim ou por que não?

3. Jesus ensinou seus discípulos a usar o termo "Abba", ou "Paizinho", ao se dirigirem a Deus. O que isso lhe diz sobre o relacionamento de Jesus com o Pai? Esse tipo de relacionamento lhe parece atraente? Por que sim ou por que não?

Outras fontes de consulta

Mais recursos sobre esse tema
Craig, William Lane. The self-understanding of Jesus. In: Reasonable faith, p. 233-54, Westchester, Crossway, 1994.

Marshall, I. Howard. The origins of New Testament Christology. Downers Grove, InterVarsity, 1976.

Moule, C. F. D. The origins of Christology. Cambridgem, Cambridge Univ. Press, 1977.

Witherington, Ben, III. The Christology of Jesus. Minneapolis, Fortress, 1990.
8
A prova psicológica
Jesus estava louco quando afirmou

ser o Filho de Deus?

Sempre que um psicólogo testemunhar, deverá usar um chapéu em forma de cone de tamanho não inferior a 60 centímetros. O chapéu deverá estar estampado com estrelas e raios. Além disso, será obrigatório o uso de uma barba branca de tamanho não inferior a 45 centímetros de comprimento. Quando enfatizar os pontos cruciais de seu testemunho, deverá espetar o ar com uma varinha. Sempre que um psicólogo ou psiquiatra estiver no banco das testemunhas, o meirinho atenuará a luz da sala do tribunal e fará soar por duas vezes um gongo chinês.
Com essa sugestão de emenda aos estatutos estaduais em 1997, Duncan Scott, senador pelo Estado do Novo México, procurou deixar bem clara sua posição diante dos especialistas que defendem a condição de insanidade dos réus, tornando-os, portanto, inocentes de seus crimes perante a lei. Aparentemente, o cinismo de Scott foi aprovado pela maioria dos seus colegas, que votaram a favor da aprovação de sua proposta irônica! A piada chegou até a Câmara dos Deputados, que acabou vetando o projeto de lei. 79
Há, sem dúvida, uma corrente subliminar de ceticismo nos tribunais em relação a psiquiatras e psicólogos, que testemunham sobre o estado mental dos réus, sobre sua capacidade de cooperar com os advogados na preparação da defesa e, inclusive, se já eram legalmente desequilibrados na época em que cometeram o crime. Mesmo assim, a maior parte dos advogados admitem que os profissionais da saúde mental contribuem com insights importantes para o sistema de justiça criminal.

Lembro-me de um caso em que uma esposa dócil fora acusada de assassinar seu marido. À primeira vista, ela não parecia muito diferente das demais mães: bem vestida, agradável, gentil, era como se tivesse acabado de assar biscoitinhos de chocolate para a garotada da vizinhança. Eu ri quando um psicólogo testemunhou dizendo que ela não tinha condições mentais de ir a julgamento.

Em seguida, seu advogado a colocou no banco das testemunhas. Inicialmente, seu testemunho foi claro, racional e lúcido. Todavia, pouco a pouco foi se tornando cada vez mais bizarro à medida que ela descrevia, calmamente e com muita seriedade, como ela havia sido atacada por uma sucessão de indivíduos famosos, como Dwight Eisenhower e o espírito de Napoleão. Quando ela terminou de testemunhar, não houve no tribunal quem não tivesse certeza de que ela estava totalmente fora da realidade. O juiz a encaminhou para uma instituição de desequilibrados mentais, onde deveria aguardar até que estivesse em condições de enfrentar as acusações de que era alvo.

As aparências enganam. Cabe ao psicólogo desvendar o que o réu aparenta superficialmente e tirar daí suas conclusões com relação à saúde mental dele. Não é uma ciência exata, portanto pode haver erros e abusos, porém, o testemunho psicológico proporciona salvaguardas importantes para os réus.

Qual é a relação de tudo isso com Jesus? No capítulo anterior, o dr. Ben Witherington III apresentou provas convincentes de que mesmo nos materiais mais antigos sobre Jesus ele já aparecia afirmando ser Deus encarnado. Isso, naturalmente, nos leva a questionar se Jesus estava em juízo perfeito quando fazia tais afirmações.

Para conseguir a avaliação de um especialista sobre a saúde mental de Jesus, fui até um escritório nos subúrbios de Chicago com o objetivo de entrevistar uma das maiores autoridades do país em assuntos psicológicos.


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