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Oitava entrevista: Donald A. Carson, Ph.D.

D. A. Carson, professor e pesquisador do Novo Testamento da Trinity Evangelical Divinity School, já escreveu e editou mais de 40 livros, dentre eles The Sermon on the Mount [O Sermão do Monte], Exegetical fallacies [Falácias exegéticas] e The gospel according to John [O evangelho segundo João].

Fluente em vários idiomas (seu domínio do francês vem da infância passada em Quebec), Carson é membro da Tyndale Fellowship for Biblical Research, da Sociedade de Literatura Bíblica e do Instituto de Pesquisas Bíblicas. Suas áreas de especialização abrangem o Jesus histórico, o pós-modernismo, a gramática grega e as teologias dos apóstolos Paulo e João.

Carson começou seus estudos superiores na área de química (formou-se pela Universidade McGill); em seguida, fez mestrado em teologia antes de ir para a Inglaterra, onde doutorou-se em Novo Testamento pela prestigiosa Universidade de Cambridge. Lecionou em três outras faculdades e seminários antes de ir para a Trinity, em 1978.

Meu primeiro encontro com Carson foi no campus da Trinity em Deerfield, Illinois, ocasião em que o entrevistei. Para ser franco, eu esperava encontrar um acadêmico cheio de formalismos. Embora ele fosse de fato o erudito que eu imaginava, fiquei surpreso com seu tom caloroso, sincero e pastoral à medida que respondia às minhas perguntas — muitas vezes cáusticas.

Nossa conversa desenrolou-se em um salão deserto da faculdade durante o feriado do Natal. Carson usava um blusão branco por sobre uma camisa de colarinho, calças jeans e tênis Adidas. Depois de trocar algumas impressões informais sobre a Inglaterra (Carson morou na Inglaterra em diversas ocasiões e sua esposa, Joy, é inglesa), tirei meu caderno de anotações e fiz-lhe uma pergunta de fundo que me ajudaria a saber com certeza se Jesus tinha o "material certo" para ser Deus.

Vivendo e perdoando como Deus

Minha pergunta inicial tinha como objetivo descobrir por que Carson achava que Jesus era Deus.

— O que ele disse ou fez — perguntei — que levou o senhor a se convencer de que ele era Deus?

Não sabia ao certo de que modo ele responderia à minha pergunta, embora já pudesse prever que ele se ocuparia dos atos sobrenaturais de Cristo. Enganei-me.

— Há quem diga que a prova está nos milagres — disse Carson, recostando-se confortavelmente em sua poltrona estofada, —, mas ocorre que outras pessoas também fizeram milagres; portanto, embora eles sejam sugestivos, não são decisivos. E claro que a ressurreição é a prova máxima de sua identidade. No entanto, de todas as coisas que ele fez, a que mais me surpreende é o perdão de pecados.

— É mesmo? — disse, ajeitando-me na poltrona perpendicular à dele para encará-lo mais diretamente. — Como assim?

— Se você faz alguma coisa contra mim, tenho o direito de perdoá-lo. Todavia, se você faz algo contra mim e aí vem uma pessoa e diz: "Eu lhe perdôo", que ousadia é essa? A única pessoa capaz de pronunciar genuinamente essas palavras é Jesus, porque o pecado, mesmo se cometido contra outras pessoas, é, antes de tudo e principalmente, um desafio a Deus e às suas leis. Quando Davi cometeu o pecado do adultério e planejou a morte do marido da mulher com quem adulterara, ele diz finalmente a Deus em Salmos 51.4: "Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas". Ele reconheceu que, embora tivesse prejudicado outras pessoas, no fim das contas era contra Deus, que o fizera à sua imagem, que tinha pecado, e Deus precisava perdoá-lo. Aparece então Jesus e diz aos pecadores: "Os seus pecados estão perdoados". Os judeus imediatamente viram nisso uma blasfêmia. Eles reagiram dizendo: "Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?". Para mim, essa é uma das coisas mais extraordinárias que Jesus fez.

— Jesus não apenas perdoava pecados — observei — como também afirmava que não tinha pecados. Certamente a ausência de pecados é um atributo da divindade.

— Sim — concordou ele. — Ao longo da história ocidental, as pessoas consideradas mais santas também eram as mais conscientes de suas falhas e pecados. São pessoas cientes de suas imperfeições, concupiscências e ressentimentos, contra os quais lutam honestamente, pela graça de Deus. Na verdade, travam uma batalha tão aguerrida que outras pessoas percebem e dizem: "Ali vai um homem santo". Mas aí aparece Jesus e diz com uma fisionomia imperturbável: "Qual de vocês pode me acusar de algum pecado?". Se eu dissesse isso, minha esposa, meus filhos e todas as pessoas que me conhecem teriam muito prazer em se levantar e dar seu testemunho, ao passo que ninguém foi capaz de testemunhar contra Cristo.

Embora a perfeição moral e o perdão dos pecados sejam indubitavelmente características da divindade, existem diversos outros atributos que Jesus precisa ter para se encaixar no perfil divino. Chegara o momento de pô-los à prova. Depois de atirar a Carson algumas bolas fáceis, eu estava pronto para mandar algumas com efeito.



O mistério da encarnação

Com base em algumas notas que havia trazido comigo, disparei contra Carson uma rápida sucessão de alguns dos maiores obstáculos à alegação de divindade reivindicada por Cristo.



— Dr. Carson, de que modo Jesus poderia ser onipresente, se não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo? — perguntei-lhe. — Como podia ser onisciente se disse: "Quanto ao dia e à hora ninguém sabe [...] nem o Filho, senão somente o Pai"? Como poderia ser onipotente se os evangelhos narram com muita clareza que ele não foi capaz de fazer milagres em sua cidade natal?

Apontei então enfaticamente minha caneta em direção a ele e concluí:

— Admitamos: a própria Bíblia parece depor contra a divindade de Jesus.

Embora não demonstrasse nenhuma hesitação, Carson concordou que minhas perguntas não tinham respostas fáceis. Afinal de contas, elas tocam no âmago da encarnação: Deus se faz homem, o espírito se reveste de carne, o infinito torna-se finito, o eterno fica limitado pelo tempo. Essa doutrina mantém ocupados os teólogos há séculos. Foi por aí que Carson principiou sua resposta, retrocedendo ao modo como os estudiosos tentaram responder a essas indagações ao longo dos anos.

— Houve, no decorrer da história, duas ou três tentativas de lidar com essas questões — começou ele, como se estivesse de certa forma dando início a uma preleção. — Por exemplo, no final do século passado, o grande teólogo Benjamin Warfield vasculhou os evangelhos e atribuiu várias passagens à humanidade de Cristo ou à sua divindade. Quando Jesus faz algo que reflete seu caráter divino, atribui-se o fato à divindade de Cristo. Quando algo reflete suas limitações, finitude ou humanidade (por exemplo, suas lágrimas: será que Deus chora?), atribui-se o fato à sua humanidade.

Esse tipo de explicação me pareceu muito inconsistente. — Será que com isso não acabamos tendo um Jesus esquizofrênico? — perguntei-lhe.

— É fácil cair inadvertidamente nesse tipo de raciocínio — disse ele. — Todas as confissões de fé insistem em que a humanidade de Jesus e a sua divindade são condições distintas, embora estejam unidas em uma única pessoa. Procura-se então uma solução em que existam, de modo essencial, duas mentes: algo como um Jesus de mente humana e um Jesus de mente celestial. Essa é uma solução possível, e talvez não seja de todo inadequada. O outro tipo de solução seria na forma de kenosis, que significa "esvaziamento". É o que se conclui com base no que está registrado em Filipenses 2, onde o apóstolo nos diz que Jesus "sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se". Ou, numa tradução mais exata, "não achou que ser igual a Deus fosse algo que devesse explorar", antes "esvaziou-se a si mesmo". Ele se tornou um ninguém.

Isso me pareceu um tanto ambíguo.

— O senhor poderia ser mais explícito? — perguntei. — De que exatamente ele se esvaziou?

Pelo visto, eu havia tocado o cerne da questão.

— Ah, boa pergunta — Carson respondeu com um aceno. — Através dos séculos, as pessoas deram diferentes respostas a essa indagação. Por exemplo, teria ele se esvaziado de sua divindade? Bem, se assim fosse, ele deixaria de ser Deus. Ele teria se esvaziado de seus atributos divinos? É uma suposição que também me parece difícil, porque é complicado separar os atributos da realidade. Se você tem um animal que se parece com um cavalo, com todos os atributos de um cavalo, então é um cavalo o que você tem. Portanto, não compreendo como Deus pode esvaziar-se de todos os seus atributos e ainda continuar a ser Deus. Para algumas pessoas, ele não teria se esvaziado de seus atributos; esvaziou-se, isto sim, do uso deles, em uma atitude de autolimitação. É uma boa hipótese, embora não fosse isso o que fazia quando, por vezes, perdoava pecados como só Deus pode fazer, o que é um atributo da divindade. Outros vão mais longe e dizem que ele se esvaziou do uso independente de seus atributos. Isto ó, comportava-se como Deus quando seu Pai celestial autorizava-o explicitamente a fazê-lo. Essa hipótese é melhor ainda que a anterior. O problema é que não podemos abrir mão da idéia de que há um sentido em que o Filho eterno sempre agiu em conformidade com os mandamentos do Pai, mesmo no passado eterno. Mas chegamos bem perto.

Senti que estávamos bem próximos do alvo, mas não sabia ao certo se seríamos capazes de atingi-lo. Notei que Carson também tinha o mesmo pressentimento.

— Rigorosamente falando — disse ele —, Filipenses 2 não nos diz com exatidão de que o Filho eterno se esvaziou. Ele se esvaziou. Tornou-se um ninguém. Temos aí um tipo de esvaziamento, mas, para ser sincero, o que está em debate aqui é a encarnação, um dos principais mistérios da fé cristã. Estamos lidando com um Espírito sem forma, sem corpo, onisciente, onipresente, onipotente e com criaturas finitas, corpóreas, que podem ser tocadas e que são limitadas pelo tempo. A transformação de um no outro nos envolve necessariamente em muitos mistérios. Portanto, há uma parte da teologia cristã que não está preocupada com "explicações cabais". Seu propósito é trazer à tona a evidência bíblica e preservá-la imparcialmente por inteiro, descobrindo meios de sintetizá-la de modo racional e coerente, mesmo que não seja possível explicá-la totalmente.

Esse foi um jeito sofisticado de dizer que os teólogos são capazes de elaborar explicações que parecem sensatas, embora não possam explicar todas as nuanças relativas à encarnação. De certo modo, parece lógico que seja assim. Se a encarnação de fato aconteceu, não é de espantar que mentes finitas não sejam capazes de compreendê-la totalmente.

Pareceu-me razoável aceitar um tipo de "esvaziamento" em que Jesus abria mão do uso independente de seus atributos e, por isso, não demonstrava seu caráter "oni" — onisciência, onipotência e onipresença — em sua existência terrena, muito embora o Novo Testamento afirme claramente que ele possuía todas essas qualidades.

Isso, porém, era só parte do problema. Folheei meu caderno de anotações e comecei a fazer outro tipo de questionamento referente a passagens bíblicas específicas que pareciam contradizer frontalmente a afirmação de Jesus de que era Deus.



Criador ou criatura?

Outro perfil ao qual Jesus tinha de se adequar diz respeito ao fato de que Deus é um ser não-criado, cuja existência vem desde toda a eternidade. Em Isaías 57.15, Deus é descrito como o que "vive para sempre". Todavia, eu disse a Carson, há muitos versículos que parecem indicar enfaticamente que Jesus era um ser criado.

— Por exemplo — eu disse —, em João 3.16 lemos que Jesus é o Filho "Unigênito" de Deus e, em Colossenses 1.15, ele é chamado de "primogênito de toda a criação". Será que esses versículos não implicam claramente que Jesus foi criado, em vez de ser Criador?

Uma das áreas de especialização de Carson é a gramática grega, à qual ele recorreu para responder meu questionamento.

— Vamos analisar João 3.16 — disse ele. — É a Versão do rei Tiago que traduz o grego como "Filho primogênito". Os que consideram essa versão correta normalmente a associam à encarnação — ou seja, ao parto da Virgem Maria. Na verdade, porém, não é isso o que a palavra grega significa. O significado é "incomparável". No século 1, usava-se a expressão "incomparável e amado". Portanto, João 3.16 está simplesmente dizendo que Jesus é o Filho incomparável e amado, ou, conforme a nvi, o "Filho Único" (na nota de rodapé), em vez de classificá-lo como ontologicamente nascido no tempo.

— Isso explica apenas essa passagem específica — enfatizei.

— Muito bem, vamos examinar o versículo de Colossenses, onde aparece a palavra "primogênito". A grande maioria dos estudiosos, liberais ou conservadores, reconhecem que no Novo Testamento o primogênito, em virtude das leis da sucessão, normalmente recebia a maior parte dos bens e, no caso das famílias reais, tornava-se rei. O primogênito, portanto, era o que detinha, em última análise, todos os direitos do pai. Por volta do século II a.C, havia lugares onde a palavra não comportava mais a idéia literal de geração ou nascimento. Ela adquirira então o sentido de autoridade que decorre da posição de herdeiro legítimo. É com esse sentido que se aplica a Jesus, como reconhecem praticamente todos os estudiosos. Diante disso, a expressão "primogênito" dá margem a certas confusões.

— Qual seria a melhor tradução?

— Creio que "herdeiro supremo" seria mais adequado — disse ele.

Embora isso explicasse a passagem de Colossenses, Carson foi mais adiante ainda, tocando num último ponto.

— Quando citamos Colossenses 1.15, temos de contextua-lizá-lo com Colossenses 2.9, onde o mesmo autor afirma: "Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade". O autor não iria se contradizer. Portanto, o termo "primogênito" não pode excluir a eternidade de Jesus, uma vez que isso é parte do que significa possuir a plenitude da divindade.

Para mim, a questão estava encerrada. Mas havia outras passagens difíceis. Por exemplo, em Marcos 10, alguém se dirige a Jesus como "bom mestre", ao que ele responde: "Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus".

— Com isso, Jesus não estaria negando sua divindade? — perguntei.

— Não, creio que ele estava tentando fazer com que aquela pessoa parasse e pensasse no que estava dizendo — disse Carson. — A passagem paralela em Mateus dá mais detalhes, e Jesus não aparece fazendo pouco de sua divindade. Creio que o que ele está dizendo é o seguinte: "Espere um pouco, por que vocês estão me chamando 'bom'? Só por educação, como se estivessem dizendo: 'Bom dia'? O que vocês querem dizer com bom? Quando vocês me chamam 'bom mestre', o que pretendem com isso é bajular? Bem, no sentido mais profundo da palavra, só existe um que é bom, que é Deus, mas com isso Jesus não está dizendo implicitamente: "Portanto, não me chamem 'bom'". O que ele está dizendo é: "Será que vocês entendem realmente o que dizem quando me chamam de bom? Vocês estão querendo de fato atribuir a mim o que deve ser atribuído unicamente a Deus?". Eram questões provocativas, que na verdade significavam: "Sou de fato quem vocês dizem que sou; há mais verdade nas suas palavras do que vocês imaginam"; ou ainda: "Não ousem me chamar assim; da próxima vez, refiram-se a mim como 'o pecador Jesus', como o fazem as demais pessoas". Se atentarmos para tudo o que Jesus diz e faz em outras passagens, com qual opção ficaremos?

São tantos os versículos que se referem a Jesus "sem pecado", "santo", "justo", "inocente", "sem mácula" e "separado dos pecadores" que a resposta parece bem óbvia.

Será que Jesus era um deus inferior?

Se Jesus era Deus, que tipo de deus era ele? Seria igual ao Pai, ou talvez uma espécie de deus menor, possuidor dos mesmos atributos da divindade e, ainda assim, incapaz de se encaixar no perfil que o Antigo Testamento apresenta sobre a divindade?

A pergunta tem origem em outra passagem que mencionei a Carson.

— Jesus disse em João 14.28: "O Pai é maior do que eu". Muita gente conclui dessa passagem que Jesus teria sido uma espécie de Deus inferior. Será que elas estão corretas? — perguntei-lhe.

Carson suspirou.

— Meu pai era pregador — disse ele —, e eu, desde a minha infância, sempre ouvi o seguinte dentro de casa: "Um texto sem contexto torna-se pretexto para texto de rodapé". É importantíssimo analisar essa passagem dentro do seu contexto. Os discípulos suspiravam porque Jesus lhes havia dito que iria partir. Ele disse: "Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu". Em outras palavras, Jesus está retornando à glória que lhe pertence, portanto, se eles soubessem realmente quem ele era e o amassem de verdade, do jeito certo, ficariam contentes por vê-lo regressar ao Reino onde ele é de fato maior. Jesus diz em João 17.5: "Glorifica-me junto a ti, com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse" — ou seja, "o Pai é maior do que eu". Quando usamos uma categoria como "maior", o termo não se refere obrigatoriamente ao que é ontologicamente maior. Se eu disser, por exemplo, que o presidente dos Estados Unidos é maior do que eu, não estou querendo dizer com isso que, ontologicamente, ele é um ser superior. Ele é maior em sua capacidade militar, em sua intrepidez política e em reconhecimento público, mas isso não faz dele mais homem do que eu. Ele é um ser humano, e eu também sou um ser humano. Após uma pausa, prosseguiu:

— Portanto, quando Jesus diz: "O Pai é maior do que eu", é preciso analisar o contexto e verificar se Jesus está dizendo: "O Pai é maior do que eu porque ele é Deus, e eu não". Francamente, seria muita tolice dizer uma coisa dessas. Suponha que eu suba ao púlpito e diga: "Declaro solenemente que Deus é maior do que eu". Seria uma observação realmente inútil, não é verdade? A comparação só faz sentido se ambos estiverem no mesmo plano e se houver algum tipo de limitação em curso. Jesus está limitado pela encarnação — ele vai para a cruz, vai morrer —, mas voltará em breve para o Pai e para a glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse.

— Ele está dizendo: "Gente, vocês estão se lamentando pelo que vai acontecer comigo, mas deviam estar alegres, porque vou para casa". É nesse sentido que "o Pai é maior do que eu".

— Portanto — eu disse — isso não seria uma negação explícita de sua divindade.

— Não — concluiu Carson —, na verdade, não. O contexto deixa isso claro.

Embora eu estivesse disposto a aceitar o fato de que Jesus não era um deus inferior, havia uma questão mais delicada que eu queria esclarecer: como é que Jesus podia ser um deus misericordioso e ainda assim compactuar com a idéia de sofrimento eterno daqueles que o rejeitassem?

A incômoda questão do inferno

A Bíblia diz que o Pai é amoroso. O Novo Testamento afirma o mesmo sobre Jesus. Mas será que eles são realmente amorosos se, ao mesmo tempo, mandam as pessoas para o inferno? Afinal de contas, Jesus ensina mais sobre o inferno que qualquer outra pessoa na Bíblia toda. Isso não contradiz seu caráter supostamente gentil e compassivo?

Ao fazer essa pergunta a Carson, citei as palavras contundentes do agnóstico Charles Templeton: "Como é que um Pai celestial amoroso é capaz de criar um inferno sem fim e, ao longo dos séculos, enviar milhões de pessoas para lá porque não aceitam, não podem aceitar ou recusam-se a aceitar certas crenças religiosas?". 90

Essa pergunta, que eu formulei de modo a causar impacto, não deixou Carson irado.

— Em primeiro lugar — disse ele —, não creio que Deus simplesmente jogue as pessoas no inferno porque elas se recusam a aceitar algumas crenças específicas.

Carson fez uma pausa, depois retomou o assunto de forma mais detalhada, discutindo um tópico que muitas pessoas hoje consideram um anacronismo: o pecado.

— Imagine Deus no início da criação com um homem e uma mulher feitos à sua imagem — disse Carson. — Eles se levantam pela manhã e pensam em Deus. Eles o amam de verdade. Têm prazer em satisfazê-lo, e para eles não há prazer maior. Seu relacionamento com Deus é perfeito, e ambos se dão muito bem. Depois, com a entrada do pecado e da rebelião no mundo, o casal, que era a imagem de Deus, começou a achar que era o centro do universo. Não literalmente, mas era o que achavam. E é assim que nós pensamos também. Tudo o que chamamos "patologias sociais", a guerra, o estupro, a amargura, o sentimento de inveja que alimentamos dentro de nós, os ciúmes ocultos, o orgulho, os complexos de inferioridade, estão todos vinculados, antes de tudo, ao fato de que nosso relacionamento com Deus não é como deveria ser. Conseqüentemente, as pessoas se sentem feridas. Da perspectiva divina, isso é terrivelmente repugnante. O que Deus devia fazer a respeito? Se ele disser: "Bem, não me importo", estará dizendo que não se importa com o mal. E mais ou menos como se disséssemos: "Tudo bem, já ouvi falar do holocausto, mas e daí?". Você não ficaria chocado só de pensar na possibilidade de Deus achar que isso não tem nenhuma importância moral? Mas, em princípio, se ele é o tipo de Deus que atribui importância moral a esse tipo de coisa, tem necessariamente de se importar com todos os que, criados à sua imagem, desafiam-no com o punho em riste e cantam, como Frank Sinatra: "I did it my way" ("Agi como quis"). Essa é a verdadeira natureza do pecado. Dito isso, o inferno não é um lugar para onde são mandadas as pessoas simplesmente porque foram estúpidas o bastante para não acreditar no que deviam crer. Elas foram para lá, principalmente, porque desafiaram seu Criador e quiseram ser o centro do universo. O inferno não está cheio de pessoas agora arrependidas que Deus não deixa sair porque sua bondade não chega a tanto. Ele está cheio de pessoas que, por toda a eternidade, sempre quiseram ser o centro do universo e insistem em desafiar a Deus. O que Deus deveria fazer? Se disser que não se importa com isso, não será mais um Deus digno de admiração. Ou é um ser amoral ou um monstro. Se agisse de outro modo diante de uma insubordinação tão evidente, ele não seria o Deus que é, seria menos.

— Entendo — interrompi —, mas o que mais parece incomodar as pessoas é o fato de que Deus vai atormentar essas pessoas por toda a eternidade. Isso não lhe parece cruel?

— Em primeiro lugar — disse Carson —, a Bíblia diz que existem diferentes graus de castigo, portanto, não creio que o grau de intensidade será o mesmo para todos. Em segundo lugar, se Deus retirasse suas mãos deste mundo decaído, de modo que não houvesse mais nenhuma restrição para a impiedade humana, estaríamos vivendo no inferno. Assim, se você permitir que uma multidão de pecadores viva em um lugar confinado onde não possam prejudicar ninguém, exceto a si mesmos, não seria isso o inferno? Em certo sentido, é o que acontece: eles estão prejudicando a si mesmos. É isso o que querem, porque não se arrependeram.

Achei que Carson tivesse concluído sua resposta, porque percebi que hesitou um pouco. Todavia, ele tinha ainda uma observação crucial por fazer.

— Uma das coisas na qual a Bíblia insiste é que, no fim, não apenas se fará justiça, mas será possível ver a justiça sendo feita, de modo que toda boca se cale.

Suas últimas palavras me chamaram a atenção.

— Em outras palavras — eu disse —, quando chegar o dia do julgamento final, ninguém vai poder se queixar dizendo que Deus não lhe deu um tratamento justo. Todos vão reconhecer a justiça genuína pela forma como Deus irá julgá-los, e também ao mundo.

— Correto — afirmou Carson resoluto. — Nem sempre se faz justiça no mundo; é o que vemos diariamente. No dia do juízo final, porém, todos poderão vê-la. Ninguém vai poder se queixar dizendo: "Isto não é justo".



Jesus e a escravidão

Havia outra questão que eu queria discutir com Carson. Olhei para o relógio.

— O senhor tem mais alguns minutos? — perguntei-lhe. Ele disse que sim. Fiz-lhe então mais uma pergunta sobre um assunto polêmico.

Para ser Deus, Jesus tinha de ser eticamente perfeito. Todavia, alguns críticos do cristianismo acusam-no de não o ser porque, segundo eles, Jesus teria compactuado com a prática moralmente abominável da escravidão. Conforme escreveu Morton Smith:


O imperador e o Estado romano tinham inúmeros escravos; o templo de Jerusalém possuía escravos; o sumo sacerdote tinha escravos (um deles perdeu uma orelha quando Jesus foi preso); todos os ricos e praticamente toda a classe média tinham escravos. Até onde sabemos, Jesus nunca atacou essa prática. [...] Parece que houve uma revolta de escravos na Palestina e na Jordânia na mocidade de Jesus; uma pessoa que liderasse essa revolta e fosse ao mesmo tempo um operador de milagres teria atraído muita gente. Se Jesus tivesse denunciado a escravidão ou prometido a libertação dos escravos, não há dúvida de que teríamos ficado sabendo. Mas não há registro de que isso tenha ocorrido, portanto, pela lógica, tudo indica que ele não disse nada a esse respeito.91

Como é que se pode equacionar o fato de que Jesus não se empenhou pela libertação dos escravos com o amor de Deus por todas as pessoas?

— Por que ele não se levantou e disse em alto e bom som: 'A escravidão é errada"? — perguntei. — Não teria Jesus falhado moralmente por não se empenhar pelo fim de uma instituição que humilhava as pessoas, feitas à imagem de Deus?

Carson endireitou-se na cadeira.

— Creio que as pessoas que fazem esse tipo de objeção estão confusas — disse ele. — Se você me permite, vou primeiro contextualizar a escravidão, antiga e moderna, porque em nossa cultura ela naturalmente apresenta certas características que não tinha no mundo antigo.

Acenei para que prosseguisse.


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