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Testemunhos de um tempo muito distante

O testemunho ocular, em geral, é determinante e persuasivo. Se a testemunha observou o crime minuciosamente, e não sendo ela movida por nenhuma predisposição ou por outros motivos quaisquer, e se for verdadeira e justa, o ponto máximo do julgamento será o instante em que a testemunha apontar o réu como autor do crime na sala do tribunal. Isso pode ser o bastante para condenar essa pessoa à prisão ou coisa pior.

O testemunho ocular é tão essencial quanto a investigação dos fatos históricos — até mesmo quando se investiga se Jesus é realmente o Filho unigênito de Deus.

Mas, que testemunhos oculares temos? Será que temos o testemunho de alguém que interagiu com Jesus, que ouviu seus ensinamentos, presenciou seus milagres, testemunhou sua morte e que, talvez, tenha se encontrado com ele após sua alegada ressurreição? Há algum registro de "jornalistas" do século 1 que tenham entrevistado testemunhas oculares, fazendo perguntas difíceis e registrando escrupulosamente o que consideraram ser verdadeiro? E, não menos importante, em que medida esses relatos passariam incólumes pelo escrutínio dos céticos?

Eu sabia que, assim como o testemunho de Leo Carter determinara o encarceramento de três assassinos cruéis, os relatos de testemunhos oculares de um tempo longínquo poderiam ajudar na solução da mais importante questão espiritual. Em busca de respostas concretas, marquei uma entrevista com o dr. Craig Blomberg, estudioso de renome nacional e autor de um livro que trata desse tópico: The historícal reliability of the gospels [A confiabilidade histórica dos evangelhos].

Eu sabia que Blomberg era inteligente. Na verdade, até mesmo sua aparência encaixava-se no estereótipo. Alto (1,83 metro) e magro, cabelos castanhos, curtos, ondulados e penteados muito à vontade para a frente, barba crespa e óculos de lentes grossas, sem armação, ele parecia o tipo que deveria ser o primeiro da classe no colégio (e foi); digno do National Merit Scholar (premiação concedida aos estudantes que mais se destacam em seu campo de pesquisa), que recebeu de fato; e formado com louvor em um seminário de prestígio (o que é verdade: Craig formou-se pela Trinity Evangelical Divinity School).

Eu queria, porém, uma pessoa que fosse mais que apenas inteligente e instruída; estava à procura de um especialista que não minimizasse as nuanças nem descartasse despreocupadamente algo que pudesse pôr em xeque os relatos cristãos. Queria alguém íntegro, que tivesse lidado com as críticas mais contundentes à fé e que falasse com autoridade, sem lançar mão de declarações radicais, que mais escondem que põem a nu as questões fundamentais.

Disseram-me que Blomberg era exatamente quem eu estava procurando, por isso fui a Denver conferir a informação. Confesso que tinha minhas dúvidas, principalmente quando, em minhas pesquisas, descobri um fato muito inquietante sobre ele, que eu preferiria ter deixado encoberto: Blomberg ainda tem esperanças de estar vivo quando seus queridos heróis de infância, os Chicago Cubs, conquistarem a World Series.

Para falar a verdade, isso era o quanto bastava para que eu não confiasse muito em seu discernimento.

Primeira entrevista: Craig L. Blomberg, Ph.D.

Craig Blomberg é considerado uma das autoridades mais importantes do país nas biografias de Jesus, os quatro evangelhos. Doutorou-se em Novo Testamento pela Aberdeeen University, Escócia, tornando-se posteriormente pesquisador sênior da Tyndale House, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, onde integrou um grupo de elite formado por estudiosos internacionais responsáveis por uma série de trabalhos muito elogiados sobre Jesus. Há 12 anos leciona Novo Testamento no prestigioso seminário de Denver.

Dentre os livros que escreveu, podemos citar Jesus and the gospels: interpreting the parables [Jesus e os evangelhos: a interpretação das parábolas]; How wide the divide? [Qual o tamanho da divisão?], além de comentários sobre o evangelho de Mateus e 1Coríntios. Participou também da edição do sexto volume de Gospel perspectives [Perspectivas dos evangelhos], que trata exaustivamente dos milagres de Jesus. E co-autor ainda de Introductíon to biblical interpretation [Introdução à interpretação bíblica]. Contribuiu com alguns capítulos sobre a historicidade dos evangelhos para o livro Reasonable faith [Fé racional] e escreveu o elogiado Jesus under fire [Jesus sob cerco]. Blomberg é membro da Sociedade para o Estudo do Novo Testamento, da Sociedade de Literatura Bíblica e do Instituto de Pesquisas Bíblicas.

Como era de esperar, seu escritório transbordava de livros empilhados pelas estantes (até na gravata ele tinha livros estampados).

Todavia, observei imediatamente que nas paredes do escritório não predominavam os tomos empoeirados de historiadores antigos, e sim trabalhos artísticos feitos por suas jovens filhas. As pinturas extravagantes e coloridas de lhamas, casas e flores não tinham sido penduradas ao acaso, como se fossem uma reflexão tardia; evidentemente ele as tratava como se fossem um prêmio recebido — realizadas com muito esforço e emolduradas com cuidado, estavam devidamente autografadas por Elizabeth e Rachel. Não há dúvida, pensei comigo, que esse homem não é só cérebro, ele também tem coração.

Blomberg fala com a precisão de um matemático (sim, ele também lecionou matemática no início da carreira), pesando com cuidado as palavras, como se relutasse em propor qualquer sutileza que não pudesse ser provada. Era exatamente quem eu procurava.

Ele se acomodou em uma poltrona alta com uma xícara de café na mão, e eu também, para espantar o frio do Colorado. Percebendo que Blomberg era o tipo de pessoa que não gosta de rodeios, decidi começar minha entrevista indo diretamente ao que interessava.
Testemunhas oculares da história

— Por favor — eu disse com uma ponta de desafio na voz —, é possível ser inteligente e crítico e ainda assim acreditar que os quatro evangelhos foram escritos pelas pessoas que dão nome a eles? Blomberg pousou a xícara na ponta da escrivaninha e olhou firmemente para mim.



— A resposta é sim — disse convicto. Recostou-se novamente e prosseguiu:

— O que importa é reconhecer que, rigorosamente falando, os evangelhos são anônimos. Mas o testemunho uniforme da igreja primitiva é que Mateus, também conhecido por Levi, o coletor de impostos, e um dos 12 discípulos, escreveu o primeiro evangelho do Novo Testamento; João Marcos, companheiro de Pedro, é autor do evangelho que chamamos de Marcos; Lucas, o "médico amado" segundo Paulo, escreveu tanto o evangelho que leva seu nome quanto os Atos dos Apóstolos.

— Em que medida a crença de serem eles os autores era consensual? — perguntei.

— Não se sabe de ninguém mais que pudesse tê-los escrito

— disse ele. — Pelo que tudo indica, a autoria desses três evangelhos não era motivo de disputa.

Apesar disso, eu queria me aprofundar um pouco mais na questão.

— Perdoe meu ceticismo — eu disse. — Será que alguém não teria algum motivo para mentir, dizendo que aquelas pessoas escreveram os evangelhos, quando na verdade não o fizeram?

Blomberg fez que não com a cabeça.

— Não acho provável. Lembre-se de que aquelas personagens eram singulares — disse ele, rompendo em um sorriso.

— Marcos e Lucas nem sequer pertenciam ao grupo dos 12. Mateus sim, mas era odiado porque fora coletor de impostos; portanto, depois de Judas Iscariotes (que traiu Jesus!), seria ele a figura mais abominável. Compare isso com o que aconteceu quando os fantasiosos evangelhos apócrifos foram escritos muito depois. As pessoas atribuíram sua autoria a personagens conhecidos e exemplares: Filipe, Pedro, Maria, Tiago. Esses nomes tinham muito mais prestígio que os de Mateus, Marcos e Lucas. Respondendo então à sua pergunta, não haveria por que conferir a autoria a esses três indivíduos menos respeitáveis se não fossem de fato os verdadeiros autores.

Parecia lógico, mas era óbvio que ele estava deixando comodamente de fora um dos evangelistas.

— E João? perguntei-lhe. — Ele era muito importante; na verdade, João não era tão-somente um dos 12 discípulos, ele era um dos três apóstolos mais íntimos de Jesus, juntamente com Tiago e Pedro.

— Sim, ele é uma exceção — admitiu Blomberg meneando a cabeça. — E o mais interessante é que o evangelho de João é o único sobre o qual paira uma certa dúvida quanto à autoria.

— E qual é exatamente a objeção?

— Não há dúvida quanto ao nome do autor: era João mesmo — respondeu Blomberg. — A questão é que não se sabe se foi João, o apóstolo, ou se foi outro. Segundo o testemunho de um escritor cristão chamado Papias, em aproximadamente 125 d.C, havia João, o apóstolo, e João, o ancião, mas o contexto não deixa claro se ele se referia a uma única pessoa de duas perspectivas distintas ou a pessoas diferentes. Fora essa exceção, todos os demais testemunhos afirmam unanimemente que foi João, o apóstolo, o filho de Zebedeu, quem escreveu o evangelho.

— Mas você acha que foi ele mesmo quem escreveu? — perguntei-lhe, na tentativa de obrigá-lo a se posicionar.

— Sim, creio que grande parte do material remonta ao apóstolo — disse ele. — Todavia, se você ler com bastante atenção o evangelho, observará nos últimos versículos indícios de que eles talvez tenham sido finalizados por um editor. Eu, pessoalmente, não vejo problema algum no fato de que alguém próximo a João tenha dado aos versículos finais uma formulação tal que fosse capaz de conferir ao documento inteiro uma uniformidade estilística. Seja como for — sublinhou — o evangelho de João baseou-se sem dúvida alguma no testemunho ocular, a exemplo dos outros três.

Aprofundando-me um pouco mais

Embora estivesse satisfeito com as explicações de Blomberg, não me sentia pronto ainda para seguir em frente. A questão da autoria dos evangelhos é extremamente importante. Eu queria detalhes específicos — nomes, datas, citações. Terminei meu café e pus a xícara sobre a escrivaninha. Com a caneta em punho, preparei-me para um questionamento mais profundo.

— Vamos voltar a Marcos, Mateus e Lucas — eu disse. — Que provas específicas o senhor tem de que são eles os autores dos evangelhos?

Blomberg inclinou-se para a frente.

— Uma vez mais, o testemunho mais antigo e possivelmente mais significativo é o de Papias, que, por volta de 125 d.C, afirmou especificamente que Marcos havia registrado com muito cuidado e precisão o que Pedro testemunhara pessoalmente. Na verdade, ele disse que Marcos "não cometeu erro nenhum" e não acrescentou "nenhuma falsa declaração". Ele disse que Mateus preservara também os escritos sobre Jesus. Depois, Ireneu, escrevendo aproximadamente em 180 d.C, confirmou a autoria tradicional. Vejamos o que ele diz — disse ele pegando um livro e abrindo-o nas palavras de Ireneu:
... Mateus publicou entre os hebreus, na língua deles, o escrito dos Evangelhos, quando Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundaram a Igreja. Depois da morte deles, também Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, nos transmitiu por escrito o que pedro anunciava. Por sua parte, Lucas, o companheiro de Paulo, punha num livro o evangelho pregado por ele. E depois, João, o discípulo do Senhor, aquele que tinha recostado a cabeça ao peito dele, também publicou o seu Evangelho, quando morava em Éfeso, na Ásia.3
Erguendo os olhos das anotações que fazia, eu disse a Blomberg:

— Muito bem, deixe-me ver se entendi direito. Sabendo-se com certeza que os evangelhos foram escritos pelos apóstolos Mateus e João, por Marcos, companheiro do apóstolo Pedro, e por Lucas, o historiador, companheiro de Paulo e um tipo de jornalista do século 1, podemos afirmar que os acontecimentos por eles registrados baseiam-se em testemunhos diretos e indiretos.

À medida que eu falava, Blomberg acompanhava atentamente minhas palavras. Quando terminei, meneou afirmativamente.

— Exatamente — disse convicto.



Biografias antigas versus modernas

Havia ainda alguns aspectos preocupantes dos evangelhos que eu precisava esclarecer. Queria entender, principalmente, em que tipo de gênero literário eles se enquadravam.

- Quando vou à livraria, não encontro na seção de biografias o mesmo tipo de literatura com que deparo nos evangelhos — eu disse. —Quando, atualmente, alguém escreve uma biografia, vasculha a vida inteira do biografado. Mas veja o caso de Marcos — ele não fala do nascimento de Jesus e não diz absolutamente nada sobre a mocidade do Salvador. Em vez disso, concentra-se em um período de três anos e passa metade de seu evangelho tratando dos eventos que culminaram na última semana de Cristo. Como o senhor explica isso?

— Existem aí dois motivos — disse Blomberg, erguendo ao ar uma das mãos e reproduzindo num gesto com os dedos o número mencionado.


— O primeiro é literário, e o segundo é teológico. Com relação ao primeiro motivo, era assim que as pessoas escreviam biografias no mundo antigo. Eles não tinham essa percepção que temos hoje de que deviam dar igual importância a todas as fases da vida do indivíduo; ou que deviam contar a história em seqüência estritamente cronológica; tampouco achavam que tinham de citar literalmente o que dissera o biografado, bastava que a essência do que ele havia dito ficasse preservada. Os antigos gregos e hebreus nem sequer tinham um sinal para denotar a interrogação. Para eles, o registro da história só valia a pena porque as suas personagens tinham lições a ensinar. O biógrafo, portanto, se demorava nas partes da vida do biografado que considerava exemplares, paradigmáticas, que pudessem servir de ajuda a outras pessoas e que dessem sentido a determinado período da história.

— E qual seria o motivo teológico? — perguntei-lhe.

— É uma decorrência do que acabei de dizer. Para os cristãos, embora a vida de Jesus, seus ensinamentos e milagres sejam maravilhosos, não teriam sentido algum se Cristo não tivesse de fato morrido e ressuscitado dos mortos, para expiação e perdão dos pecados da humanidade. Marcos, portanto, autor do evangelho que é provavelmente o mais antigo, dedica quase metade de sua narrativa aos eventos que levarão àquele período de uma semana cujo clímax será a morte e ressurreição de Cristo. Dada a importância da crucificação — concluiu — a composição do evangelho está perfeitamente de acordo com a literatura antiga.

O mistério de q

Além dos quatro evangelhos, os especialistas sempre se referem ao que chamam q, inicial da palavra alemã Quelle, que significa "fonte".4

Pelas semelhanças de linguagem e conteúdo, supõe-se que Mateus e Lucas tenham se baseado em Marcos para escrever seu evangelho. Além disso, os estudiosos acham também que Mateus e Lucas teriam igualmente absorvido material desse q misterioso, ausente do livro de Marcos.

— Como se pode definir exatamente esse q? — indaguei a Blomberg.

— Não passa de uma hipótese — respondeu, recostando-se outra vez confortavelmente na poltrona. — Com poucas exceções, seriam apenas dizeres e ensinamentos de Jesus que teriam formado talvez um documento independente. Um gênero literário muito em voga na época consistia em agrupar os dizeres de professores proeminentes. É mais ou menos o que se faz com os grandes sucessos de um cantor ou cantora quando são reunidos em um único disco e chamados O melhor de... Isso é que deve ter sido o Q. Pelo menos, a teoria é essa.

Todavia, se q for anterior a Mateus e a Lucas, talvez contenha material mais antigo sobre Jesus. Quem sabe então, pensei, pudesse lançar nova luz sobre quem foi Jesus realmente.

— Escute — eu disse — se isolássemos o material de q, que retrato de Jesus teríamos?

Blomberg cofiou a barba e fitou o teto por alguns momentos enquanto refletia sobre a pergunta.

— Bem, não se esqueça de que o documento q era uma coleção de citações e, portanto, não tinha material de narrativa capaz de fornecer uma imagem muito ampla de Jesus — disse ele pausadamente, escolhendo com cuidado as palavras.

— Seja como for, Jesus faz ali algumas declarações de peso, por exemplo, a de que era a personificação da sabedoria e que, por seu intermédio, Deus julgaria toda a humanidade, fosse aceito ou rejeitado por ela. Recentemente, um livro acadêmico defendeu a seguinte tese: se todos os dizeres de q fossem isoladas, seria obtida a mesma imagem de Jesus que se encontra disseminada nos evangelhos: a de alguém que fazia afirmações audaciosas sobre si mesmo.

Queria que Blomberg se estendesse um pouco mais sobre o assunto.

— Ele é visto como fazedor de milagres? — perguntei-lhe.

— Lembre-se, repito, de que as histórias de milagres não figuram isoladamente — disse ele —, já que são encontradas normalmente em meio à narrativa, e q é essencialmente uma lista de citações.

Blomberg fez uma pausa, pegou uma Bíblia de capa de couro de cima da escrivaninha e folheou ruidosamente suas páginas gastas.

— Mas, por exemplo, em Lucas 7.18-23 e Mateus 11.2-6, lemos que João Batista enviou seus mensageiros a Jesus para que lhe perguntassem se era realmente o Cristo, o Messias que esperavam. Jesus respondeu-lhes basicamente o seguinte: "Digam-lhe que reflita sobre meus milagres; digam-lhe o que vocês viram: os cegos vêem, os surdos ouvem, os paralíticos andam e aos pobres foram pregadas as boas novas".

— Portanto, mesmo em q — concluiu —, há claramente a consciência do ministério de miraculoso de Jesus.

A menção de Blomberg a Mateus trouxe-me à mente outra pergunta relativa ao modo como os evangelhos foram agrupados.

— Por que — perguntei-lhe — Mateus, supostamente uma testemunha ocular dos feitos de Jesus, teria acrescentado ao seu evangelho parte do que Marcos escrevera, quando todos sabem que Marcos não testemunhou pessoalmente o ministério de Jesus? Se o evangelho de Mateus tivesse sido escrito de fato por uma testemunha ocular, é de se supor que ele confiasse em suas observações.

Blomberg sorriu.

— É algo que só faz sentido se Marcos estivesse realmente baseando seu relato nas lembranças de Pedro, que foi testemunha ocular — disse ele. — Como você mesmo disse, Pedro pertencia ao círculo íntimo de Jesus. Ele ouviu e viu coisas que os outros discípulos não puderam ver nem ouvir. Portanto, seria lógico que Mateus, embora testemunha ocular, confiasse na versão dos fatos que Pedro transmitira a Marcos.

É verdade, pensei comigo, acho que faz sentido. Na realidade, comecei a fazer mentalmente uma analogia com base nos meus vários anos como repórter. Lembrei-me de que fizera parte de uma multidão de jornalistas que, certa feita, cercou o famoso patriarca político de Chicago, o falecido prefeito Richard J. Daley, para metralhá-lo com perguntas sobre um escândalo que vinha fermentando no Departamento de Polícia.

Embora eu houvesse testemunhado os acontecimentos, dirigi-me imediatamente a um repórter de rádio mais íntimo de Daley e pedi-lhe que tocasse de novo a fita com o que Daley acabara de dizer. Só assim podia ter certeza de ter anotado corretamente suas palavras.

Foi isso, pensei, o que Mateus provavelmente fizera com Marcos — embora Mateus, um dos discípulos, tivesse suas lembranças, a busca pela precisão impulsionou-o a confiar em parte do material oriundo diretamente do círculo íntimo de Jesus por meio de Pedro.



A perspectiva singular de João

Satisfeito com as observações iniciais de Blomberg relativas aos três primeiros evangelhos — chamados sinóticos, palavra que significa "ver ao mesmo tempo", por causa da semelhança de suas linhas gerais e do modo como se inter-relacionam 5 — passei a me preocupar em seguida com o evangelho de João. Quem quer que leia os quatro evangelhos perceberá prontamente que existem diferenças óbvias entre os sinóticos e o evangelho de João. Será que isso implica a existência de contradições irreconciliáveis entre eles?


— O senhor poderia me explicar as diferenças entre os evangelhos sinóticos e o evangelho de João? — pedi a Blomberg.

Ele arqueou as sobrancelhas e exclamou:

— Que pergunta extraordinária! Um dia espero escrever um livro inteiro só sobre esse tópico.

Depois de lhe assegurar que só me interessavam os pontos fundamentais da questão, e não uma discussão exaustiva, ele se acomodou novamente na poltrona.

— Bem, é verdade que João é mais diferente do que semelhante aos sinóticos — disse ele inicialmente. —Apenas umas poucas histórias mais importantes que aparecem nos outros três evangelhos surgem novamente em João, muito embora haja uma diferença bastante significativa com relação à última semana de Cristo. Daquele ponto em diante, os paralelos são muito mais próximos. O estilo lingüístico parece também sofrer uma modificação muito significativa. Em João, Jesus emprega uma terminologia diferente. Ele faz longos sermões, a cristologia parece ser de qualidade superior — isto é, afirma mais diretamente e com mais ênfase que Jesus é um com o Pai, que é o próprio Deus, o Caminho, a Verdade, a Vida, a Ressurreição e a Vida.

— A que se devem as diferenças?

— Durante muitos anos, supôs-se que João soubesse tudo o que Mateus, Marcos e Lucas tinham escrito, portanto achava desnecessária a repetição e por isso optou por complementá-los. Mais recentemente, prevalece a opinião de que João é em grande parte independente dos outros três evangelhos, o que explicaria não somente as escolhas diferentes de material como também as diferentes perspectivas de Jesus.

A afirmação mais audaciosa de Jesus

— Existem algumas particularidades teológicas em João — observei.

— Sem dúvida, mas será que merecem ser chamadas de contradições? Creio que a resposta é não, porque grande parte dos temas mais importantes ou específicos de João têm paralelos em Mateus, Marcos e Lucas, embora sejam bem menos desenvolvidos.

Essa era uma afirmação audaciosa. Decidi testá-la imediatamente, levantando a questão que talvez seja a mais significativa dentre todas as que dizem respeito às diferenças entre os sinóticos e o evangelho de João.

— João afirma muito explicitamente que Jesus é Deus, o que alguns atribuem ao fato de ter ele escrito depois dos demais e de ter começado a dar um colorido às coisas — eu disse. — Será possível encontrar nos sinóticos o tema da divindade?

— Sim, é possível — disse ele. — É mais implícito, mas pode-se encontrá-lo ali também. Lembra-se de quando Jesus caminhou sobre as águas? Está lá em Mateus 14.22-33 e Marcos 6.45-52. A maior parte das traduções em inglês ocultam o grego ao verter da seguinte forma as palavras de Cristo: "Não temam, sou eu". Na verdade, o grego diz literalmente: "Não temam, eu sou". Essas duas últimas palavras são idênticas às que Jesus pronuncia em João 8.58, quando toma sobre si o nome divino Eu Sou, que é como Deus se revelou a Moisés na sarça ardente, em Êxodo 3.14. Portanto, Jesus se revela como aquele que tem o mesmo poder divino sobre a natureza que tem iavé, o Deus do Antigo Testamento. Balancei a cabeça concordando.

— Esse é um exemplo — eu disse. — O senhor teria outros?

— Sim, os outros são do mesmo tipo — disse Blomberg. — Por exemplo, o título que Jesus mais aplica a si mesmo nos primeiros três evangelhos é "Filho do Homem" e ...

Ergui a mão pedindo-lhe que esperasse um pouco.

— Um momento — eu disse. Abri minha valise e peguei um livro. Folheei-o até localizar o que estava procurando. — Segundo Karen Armstrong, a ex-freira autora do best-seller A history of God [Uma história de Deus], o termo "Filho do Homem", ao que parece, servia simplesmente para "enfatizar a fraqueza e a mortalidade da condição humana"; portanto, ao empregá-lo, Jesus nada mais fazia que chamar a atenção para o fato de que "ele era um ser humano frágil que um dia haveria de sofrer e morrer". 6 Se isso for verdade — eu disse —, não me parece que a expressão seja uma declaração de divindade muito convincente.

Blomberg irritou-se.

— Olhe — disse ele peremptório —, ao contrário da crença popular, "Filho do Homem" não se refere originariamente à humanidade de Jesus. Pelo contrário, trata-se de uma alusão direta a Daniel 7.13,14.

Dito isso, abriu o Antigo Testamento e leu as palavras do profeta Daniel:
Em minha visão à noite, vi alguém semelhante a um filho de homem, vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do ancião e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. Seu domínio é um domínio eterno que não acabará, e seu reino jamais será destruído.
Blomberg fechou a Bíblia.

— Veja, portanto, o que Jesus faz quando aplica a si mesmo a expressão "Filho do Homem" — prosseguiu. — Estamos diante de alguém que se aproxima de Deus, na sala do trono celestial, alguém a quem é concedida autoridade e domínio universais. Isso faz de "Filho do Homem" um título de grande exaltação, e não de mera humanidade.

Mais tarde, deparei com um comentário de outro erudito, William Lane Craig, que eu viria a entrevistar para este livro, e que fazia a mesma observação.
É muito comum a idéia de a expressão "Filho do Homem" ser usada em referência à humanidade de Jesus, assim como a expressão contrária, Filho de Deus, remeter à sua divindade. Acontece que a realidade é o oposto.

O Filho do Homem era uma figura divina do livro de Daniel, no Antigo Testamento, que surgiria no final do mundo para julgar a humanidade e reinar para todo o sempre. Portanto, autodenominar-se Filho do Homem seria, na verdade, reivindicar para si a divindade. 7


Blomberg prosseguiu:

— Além disso, Jesus se diz capaz de perdoar pecados nos evangelhos sinóticos, algo que só Deus pode fazer. Jesus aceita que lhe dirijam orações e adoração. Ele diz: "Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus". O julgamento final baseia-se na tomada de posição de um indivíduo perante quem? Um simples ser humano? Não. Essa seria uma reivindicação muito arrogante. O julgamento final baseia-se na tomada de posição do indivíduo perante Jesus por este ser Deus. Como você pode ver, há todo tipo de material nos sinóticos relacionado à divindade de Cristo, que em João se torna mais explícito.


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