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A pauta teológica dos evangelhos

Ao escrever o último dos evangelhos, João teve de fato a vantagem de poder refletir sobre as questões teológicas durante um período de tempo mais longo. Perguntei a Blomberg:

— Será que o fato de João escrever com uma preocupação teológica maior teria prejudicado o material histórico de seu evangelho, tornando-o menos confiável?

— Não creio que João seja mais teológico — ressaltou Blomberg. — Simplesmente sua ênfase teológica gira em torno de outras questões. Mateus, Marcos e Lucas têm, cada um, ângulos teológicos distintos que desejam destacar. Lucas, o teólogo dos pobres, tem preocupações sociais; Mateus é o teólogo que procura entender a relação do cristianismo com o judaísmo;


Marcos mostra Jesus como o servo sofredor. Uma lista que procurasse determinar as diferenças entre as teologias de Mateus, Marcos e Lucas ficaria bem comprida.

Interrompi Blomberg porque achei que ele estava se afastando do objetivo de minha pergunta.

— Muito bem, mas será que essas motivações teológicas não colocam em dúvida a capacidade e disposição dos apóstolos de informar com precisão o que aconteceu? — perguntei-lhe. — Não é possível que a pauta teológica deles os levasse a dar um colorido à história no momento de registrá-la, chegando mesmo a distorcê-la?

— Isso significa, sem dúvida, que, a exemplo de todo documento ideológico, temos de levar em conta essa possibilidade



— Blomberg admitiu. — Muita gente distorce a história para adequá-la aos seus propósitos ideológicos. Infelizmente, as pessoas acham que isso sempre acontece, o que é um erro. No mundo antigo, a idéia de uma história escrita sem paixão, de maneira objetiva, com o único propósito de registrar os acontecimentos, sem que houvesse algum objetivo ideológico, era algo inédito. Ninguém escrevia história se não pudesse aprender algo com ela.

— Suponho então que, diante disso, tudo se torna muito suspeito — sugeri sorrindo.

— Sob certo aspecto, sim — disse ele. — Mas, se podemos reconstruir de modo razoavelmente seguro a história com base em vários outros tipos de fontes antigas, poderemos igualmente fazê-lo com os evangelhos, muito embora eles também sejam ideológicos.

Blomberg refletiu por um momento em busca de uma analogia que pudesse servir ao que se propunha a expor. Finalmente, disse:

— Vamos tomar um paralelo moderno colhido na experiência da comunidade judaica, que poderá ajudar a esclarecer o que quero dizer. Algumas pessoas, normalmente movidas pelo anti-semitismo, negam ou atenuam os horrores do Holocausto. Todavia, foram os estudiosos judeus que fundaram museus, escrevei, a livros, preservaram artefatos e registraram os depoimentos de testemunhas oculares sobre o Holocausto. Claro que seu propósito é ideológico — a saber, certificar-se de que tal atrocidade nunca mais se repita —, mas foram também extremamente fiéis e objetivos na documentação dessa verdade histórica. O cristianismo baseou-se igualmente em certas alegações históricas segundo as quais Deus teria entrado no espaço e no tempo na pessoa de Jesus de Nazaré, portanto a ideologia que os cristãos tentavam promover exigia um arcabouço histórico bastante meticuloso.

Blomberg fez uma pausa para que sua analogia fizesse efeito. Depois, virando-se para mim, perguntou-me:



— Entendeu o quero dizer? Balancei a cabeça dizendo que sim.

Últimas notícias da história

Uma coisa é dizer que os evangelhos procedem direta ou indiretamente do testemunho ocular; outra coisa é afirmar que a informação neles contida ficou preservada de modo confiável até que fosse finalmente registrada por escrito anos mais tarde. Eu sabia que esse era um dos principais pontos em disputa, por isso queria desafiar Blomberg, o quanto antes, com essa questão.

Peguei novamente o livro de Karen Armstrong, A history of God, e lhe disse:

Ouça o que mais diz a autora:


Sabemos muito pouco sobre Jesus. O primeiro relato mais abrangente sobre sua vida aparece no evangelho segundo São Marcos, que só foi escrito por volta do ano 70, cerca de 40 anos depois de sua morte. Àquela altura, os fatos históricos achavam-se misturados a elementos míticos que expressavam o significado que Jesus havia adquirido para seus seguidores. É esse significado, basicamente, que o evangelista nos apresenta, e não uma descrição direta e confiável.8
Pus de volta o livro na valise aberta, virei-me para Blomberg e prossegui:

— Alguns estudiosos dizem que os evangelhos foram escritos muito depois dos acontecimentos por eles registrados. Com isso, as lendas que se desenvolveram durante esse período acabaram por contaminar sua redação, alçando Jesus de simples professor sábio ao mitológico Filho de Deus. O senhor acha razoável essa hipótese ou será que existem indícios suficientes de que a composição dos evangelhos é anterior a essa data, ou seja, antes que a lenda pudesse corromper totalmente o que ficou registrado?

Blomberg, de olhos semicerrados, disse em tom veemente:

— Temos duas questões distintas aqui, e é importante que as conservemos assim. Estou certo que temos indícios suficientes para fixar a data da redação dos evangelhos em um período mais antigo. Mas, mesmo que não tivéssemos, o argumento de Armstrong seria falho do mesmo jeito.

— Por quê? — perguntei-lhe.

— As datas estabelecidas no meio acadêmico, mesmo nos círculos mais liberais, situam Marcos nos anos na década de 70, Mateus e Lucas na década de 80, e João na década de 90. Observe que essas datas ainda estão dentro do período de vida de várias pessoas que foram testemunhas oculares da vida de Jesus, inclusive daquelas que lhe foram hostis, e que por isso poderiam atuar como parâmetro de correção caso houvesse em circulação algum ensinamento falso sobre Jesus. Conseqüentemente, essas datas mais recentes para os evangelhos não são assim tão recentes. Na verdade, é possível fazer uma comparação muito instrutiva. As duas biografias mais antigas de Alexandre, o Grande, foram escritas por Ariano e Plutarco depois de mais de 400 anos da morte de Alexandre, ocorrida em 323 a.C, e mesmo assim os historiadores as consideram muito confiáveis. É claro que surgiu um material lendário com o decorrer do tempo, mas isso só aconteceu nos séculos posteriores aos dois autores. Por outras palavras, nos primeiros 500 anos, a história de Alexandre ficou quase intacta. O material lendário começou a aparecer nos 500 anos seguintes. Portanto, comparativamente, é insignificante saber se os evangelhos foram escritos 60 ou 30 anos depois da morte de Jesus. Na verdade, a questão praticamente inexiste.

Entendi o que Blomberg queria dizer. Ao mesmo tempo, tinha minhas reservas. Para mim, parecia intuitivamente óbvio que, quanto menor o lapso de tempo entre um acontecimento e o momento de seu registro, tanto menor a possibilidade de esse registro ser corrompido por lendas ou lembranças incorretas.

— Vamos admitir, por enquanto, que seja isso mesmo, mas voltemos à data de registro dos evangelhos — eu disse. — O senhor acredita que eles foram escritos possivelmente antes da data mencionada?

— Sim, antes — disse Blomberg. — Podemos confirmar isso pelo livro de Atos, escrito por Lucas. Atos termina, aparentemente, sem uma conclusão. Paulo é a personagem principal do livro, e se encontra preso em Roma. É assim, abruptamente, que o livro acaba. O que acontece com Paulo? Atos não nos diz, provavelmente porque o livro foi escrito antes da morte dele.

Blomberg ia ficando cada vez mais empolgado.

— Isso significa que o livro de Atos não pode ser posterior a 62 d.C. Assim, podemos recuar a partir desse ponto. Uma vez que Atos é o segundo tomo de um volume duplo, sabemos que o primeiro tomo — o evangelho de Lucas — deve ter sido escrito antes dessa data. E já que Lucas inclui parte do evangelho de Marcos, isto significa que Marcos é ainda mais antigo. Se trabalharmos com a margem aproximada de um ano para cada um, chegaremos à conclusão de que Marcos foi escrito por volta de 60 d.C, talvez até mesmo em fins da década de 50. Se Jesus foi morto em 30 ou 33 d.C, temos aí um intervalo de, no máximo, 30 anos aproximadamente.

Blomberg recostou-se novamente na poltrona com ar de triunfo.

— Em termos de história, principalmente se compararmos com Alexandre, o Grande, disse ele, é como se fosse uma notícia de última hora!

Era mesmo muito impressionante o fato de que, do ponto de vista histórico, tinha pouquíssima relevância o intervalo entre os acontecimentos da vida de Jesus e a data em que os evangelhos foram escritos. Todavia, eu queria insistir no assunto. Meu objetivo era retroceder no tempo o máximo possível até chegar às primeiras informações sobre Jesus.


Voltando ao começo

Levantei-me e fui até a estante.

— Vejamos se é possível recuar mais ainda no tempo — disse, virando-me para Blomberg. — De que época datam os primeiros testemunhos mais importantes sobre a expiação, a ressurreição e a relação única de Jesus Cristo com Deus?

— É bom lembrar que os livros do Novo Testamento não estão em ordem cronológica — disse Blomberg inicialmente. Os evangelhos foram escritos praticamente depois das cartas de Paulo, cujo ministério epistolar começou por volta do fim da década de 40. A maior parte de suas cartas mais importantes são da década de 50. Para saber qual a informação mais antiga, vamos às cartas de Paulo com a seguinte pergunta: "Existem sinais aqui de que fontes mais antigas teriam sido usadas na redação dessas cartas?".

— E o que encontramos? — perguntei.

— Descobrimos que Paulo havia abraçado alguns credos, confissões de fé ou hinos da igreja cristã mais antiga. Esses elementos remontam ao alvorecer da igreja pouco depois da ressurreição. Os credos mais famosos são os de Filipenses 2.6-11, que fala de Jesus como tendo a mesma natureza de Deus, e Colossenses 1.15-20, onde Jesus é descrito como a "imagem do Deus invisível", que criou todas as coisas e por meio de quem todas as coisas foram reconciliadas com Deus, "estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz". Essas passagens sem dúvida são importantes porque mostram o tipo de crença que tinham os primeiros cristãos em relação a Jesus. Todavia, talvez o credo mais importante no que se refere ao Jesus histórico seja o de 1Coríntios 15, onde Paulo usa uma linguagem técnica para indicar que estava transmitindo essa tradição oral de uma forma relativamente fixa.


Blomberg localizou a passagem na Bíblia e a leu para mim:
Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos os apóstolos.9
— Essa é a questão — disse Blomberg. — Se a crucificação ocorreu em 30 d.C, a conversão de Paulo se deu aproximadamente em 32. Ele foi então levado imediatamente para Damasco, onde se encontrou com um cristão chamado Ananias e alguns outros discípulos. Seu primeiro encontro com os apóstolos em Jerusalém teria ocorrido em 35 d.C. Em algum momento desse período, Paulo recebeu esse credo, que fora formulado pela igreja primitiva e era usado por ela. Temos aqui, portanto, os principais fatos sobre a morte de Jesus pelos nossos pecados, além de uma lista detalhada daqueles para quem ele apareceu ressuscitado — tudo isso se dá no intervalo de dois a cinco anos depois dos eventos propriamente ditos! Não se trata aí de mitologia elaborada cerca de 40 anos ou mais depois, conforme pretende Armstrong. Pode-se perfeitamente argumentar a favor da crença na ressurreição, muito embora não haja nenhum registro escrito, que ela remonta aos dois anos posteriores ao evento. Isso é de suma importância — disse ele, levantando um pouco a voz para dar ênfase.
— Não estamos comparando 30 ou 60 anos com os 500 anos normalmente aceitos para outros dados — estamos falando de dois anos!

Não havia como negar a importância dessa prova. Ela parecia, sem dúvida, invalidar a acusação de que a ressurreição — que para os cristãos era a maior prova da divindade de Jesus — fora meramente um conceito mitológico formulado ao longo do tempo, à medida que as lendas corrompiam os relatos das testemunhas oculares da vida de Cristo. Fiquei particularmente impressionado: como cético que era, a ressurreição era uma das minhas principais objeções ao cristianismo.

Encostei-me na estante. Tratáramos de vários assuntos e, depois daquela observação culminante de Blomberg, achei que era hora de fazer uma pausa.

Um pequeno recesso

Já era fim de tarde. Tínhamos conversado o tempo todo sem fazer nenhum intervalo. Todavia, não queria encerrar nossa conversa sem antes submeter os relatos das testemunhas oculares ao mesmo tipo de teste utilizado por advogados ou jornalistas. Precisava saber se eles passariam no teste ou se, na melhor das hipóteses, se mostrariam duvidosos; ou, na pior das hipóteses, indignos de confiança.

Depois de preparado o terreno, convidei Blomberg a se levantar e a esticar as pernas antes de nos sentarmos novamente para retomar a discussão.
Ponderações

Perguntas para reflexão ou estudo em grupo
1. Você já foi influenciado pelo testemunho ocular de alguém? Que critérios você costuma utilizar para avaliar a veracidade e a precisão de uma história? Pelos seus critérios, que tipo de avaliação receberiam os evangelhos?

2. Na sua opinião, o conteúdo teológico dos evangelhos afeta a autenticidade de seu testemunho histórico? Sim ou não? Justifique. Você acha que a analogia que Blomberg faz com o Holocausto ajuda a refletir sobre essa questão?

3. De que modo a explicação de Blomberg sobre as informações mais antigas que se tem sobre Jesus influencia sua opinião sobre a confiabilidade dos evangelhos e por quê?

Outras fontes de consulta

Mais recursos sobre esse tema
Barnett, Paul. Is the New Testament history? Ann Arbor,Vine,

1986.


______. Jesus and the logic of history. Grand Rapids, Eerdmans,

1997.


Blomberg, Craig. The historical reliability of the gospels. Downers Grove, InterVarsity, 1987.

Bruce, E E Merece confiança o Novo Testamento? 2. ed. Trad Waldyr Carvalho Luz. São Paulo, Vida Nova, 1990.

France, R. T. The evidence for Jesus. Downers Grove, InterVarsity, 1986.

2
Avaliando

o testemunho ocular
As biografias de Jesus resistem

à investigação minuciosa?

A voz debilitada de Michael McCullough, de 16 anos, era quase inaudível. Os jurados não conseguiam ouvi-la por causa do som ofegante que vinha da máquina de respiração que o mantinha vivo. Foi preciso que uma pessoa se debruçasse sobre a cama de Michael para ler seus lábios, entender o que ele dizia e reproduzir seu testemunho ao tribunal improvisado.

Paralisado do pescoço para baixo por uma bala que lhe dilacerara a medula espinhal, Michael estava muito fraco para ser levado ao tribunal onde era julgado o caso dos dois jovens acusados de atacá-lo. O juiz, o júri, os réus, advogados, repórteres e o público presente à sessão amontoaram-se no quarto de hospital de Michael, que foi declarado jurisdição temporária do tribunal itinerante da comarca de Cook.

Questionado pelos promotores, Michael recordou o dia em que saíra de seu apartamento localizado em um projeto residencial de Chicago com dois dólares no bolso. Contou como fora abordado na escada pelos dois acusados, que o alvejaram propositadamente no rosto enquanto tentavam roubar-lhe o dinheiro. Sua história foi confirmada por dois outros jovens que presenciaram a agressão no local.

Os acusados em momento algum negaram a autoria do disparo. Eles alegavam que a arma disparara acidentalmente enquanto a balançavam no ar. Os advogados de defesa sabiam que só havia um modo de conseguir a pena reduzida para seus clientes: desacreditando o testemunho de que o disparo fora um ato de violência cruel e premeditada.

Fizeram de tudo para colocar em dúvida os depoimentos das testemunhas oculares. Questionaram sua capacidade de ver o que acontecera, mas não conseguiram diminuir nem um pouco sua credibilidade. Tentaram explorar as inconsistências dos testemunhos, mas os relatos eram coerentes nos pontos principais. Exigiram mais provas, mas era óbvio que nenhuma prova mais era necessária.

Levantaram suspeitas sobre o caráter das testemunhas, mas tanto elas quanto a vítima eram jovens obedientes à lei, sem nenhum antecedente criminal. Queriam provar que os acusados estavam sendo vítimas de preconceito, mas não conseguiram descobrir nenhum. Colocaram em dúvida a capacidade de compreensão de uma das testemunhas, um garoto de nove anos chamado Keith, alegando que ele não tinha condições de entender o que significava dizer a verdade sob juramento, mas ninguém, é claro, duvidava de sua capacidade.

Como os advogados de defesa não foram capazes de pôr em dúvida a credibilidade da vítima e das testemunhas da acusação, os dois réus foram condenados a 50 anos de prisão por homicídio doloso. Dezoito meses depois, Michael morreu.10

O trabalho do advogado de defesa é desafiador porque remete ao questionamento, suscita dúvidas e investiga os pontos delicados e vulneráveis do depoimento da testemunha. É preciso, portanto, submeter as testemunhas a diversos testes.


Pressupõe-se com isso que o testemunho honesto e correto passe nos testes, ao passo que o testemunho falso, exagerado ou enganador seja desmascarado.

No caso de Michael, a justiça prevaleceu porque os jurados perceberam que as testemunhas e as vítimas contaram com sinceridade e precisão o que tinham vivenciado.

Mas voltemos à investigação sobre a realidade histórica de Jesus. Chegara o momento de submeter o testemunho do dr. Blomberg aos testes que iriam revelar sua fraqueza ou realçar sua força. Vários testes seriam os mesmos usados pelos advogados de defesa no caso de Michael havia tantos anos.

— Gostaria de submetê-lo a oito tipos diferentes de testes — disse ao dr. Blomberg, enquanto nos sentávamos depois de uma pausa de 15 minutos.

Blomberg pegou uma xícara fumegante de café preto recém-passado e recostou-se. Não sei, mas tive a impressão de ele estar ansioso pelo desafio.

— Vá em frente — disse-me ele.



1. O teste da intenção

Este teste mostrará se os escritores tiveram a intenção, implícita ou explícita, de preservar com exatidão a história.

— Será que esses autores do século 1 estavam preocupados em registrar com precisão o que de fato aconteceu? — perguntei a Blomberg.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Sim, estavam — disse ele. — Pode-se ver isso no início do evangelho de Lucas, que se parece muito com os prefácios de outras obras da Antigüidade, biográficas ou históricas, dignas de confiança.

Blomberg abriu a Bíblia e leu a introdução do evangelho de Lucas:

Muitos já se dedicaram a elaborar um relato dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra. Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas certeza das coisas que te foram ensinadas.11
— Como podemos ver — prosseguiu Blomberg —, Lucas diz claramente que ele pretendia escrever com precisão sobre as coisas que havia investigado e que comprovara com o respaldo extremamente confiável de testemunhas.

— E quanto aos outros evangelhos? — perguntei-lhe. — Eles não começam com declarações desse tipo. Isso significa então que os autores não tinham a mesma intenção?

— É verdade que Marcos e Mateus não afirmam isso explicitamente — disse Blomberg. — No entanto, estão próximos de Lucas em termos de gênero, o que nos leva a crer que o objetivo histórico de Lucas refletiria muito de perto o deles.

— E João? — perguntei-lhe.

—A única afirmação do propósito dos evangelhos está em João 20.31: "Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome".

— Isto me parece muito mais uma declaração teológica que histórica — objetei.

— Admito que sim — disse Blomberg. — Mas se o indivíduo acha que primeiro precisa estar suficientemente convencido para depois crer, é preciso que a teologia proceda de fatos históricos exatos. Além do mais, há uma prova implícita que não pode passar despercebida. Pense no modo como os evangelhos foram escritos — de maneira sóbria e responsável, com detalhes incidentais apurados, com cuidado e precisão óbvios. Não encontramos neles os rebuscamentos exóticos e a presença evidente da mitologia que vemos em vários outros escritos antigos.

— Aonde isso nos leva? — Blomberg perguntou. Em seguida disse, respondendo à própria indagação: — Parece-nos bastante óbvio que o objetivo dos autores dos evangelhos era o de registrar o que efetivamente ocorrera.



Respondendo às objeções

Mas será que foi isso mesmo que aconteceu? Alguns críticos procuram fomentar um ambiente de idéias contraditórias e concorrentes.

Na opinião deles, os primeiros cristãos estavam convencidos de que presenciariam ainda em vida o retorno de Jesus para a consumação da história, por isso não achavam que fosse necessário preservar algum registro histórico sobre a vida de Jesus ou sobre seus ensinamentos. Afinal de contas, por que se dar ao trabalho de escrever se ele em breve voltaria para pôr fim ao mundo e consumar a história?

— Portanto — eu disse —, anos mais tarde, quando ficou evidente que Jesus não retornaria logo, os cristãos se deram conta de que não possuíam nenhum material confiável em que pudessem se basear para escrever os evangelhos. Nada fora registrado com objetivos históricos. Não foi isso o que aconteceu de fato?

— Existem ao longo da história, sem dúvida nenhuma, seitas e grupos, inclusive religiosos, para os quais esse argumento é válido, mas não para os primeiros cristãos — disse Blomberg.

— Por que não? — perguntei desafiando-o. — O que tornava o cristianismo tão diferente?

— Em primeiro lugar, acho que a premissa é um tanto exagerada. A verdade é que a maior parte dos ensinamentos de Jesus pressupõem um lapso significativo de tempo antes do fim do mundo. Em segundo lugar, mesmo que alguns dos seguidores de Jesus acreditassem que ele fosse voltar sem demora, lembre-se de que o cristianismo saiu do judaísmo. Durante oito séculos, os judeus viveram entre a tensão dos freqüentes discursos dos profetas de que o "Dia do Senhor" estava próximo e a marcha ininterrupta da história de Israel. E, mesmo assim, os seguidores daqueles profetas registraram, preservaram as palavras deles e as tinham em alta conta. Uma vez que os seguidores de Jesus o consideravam muito superior a um profeta, parece bastante lógico supor que tenham feito a mesma coisa.

Embora o argumento me parecesse sensato, alguns estudiosos levantavam uma segunda objeção que eu queria propor a Blomberg.

— Alguns eruditos dizem que era crença comum entre os primeiros cristãos que o Cristo fisicamente ausente dirigia-se à sua igreja por meio de mensagens, ou "profecias". Uma vez que essas profecias gozavam da mesma autoridade que tinham as palavras de Jesus durante sua existência terrena, os cristãos primitivos não faziam distinção entre os novos discursos e os que o Jesus histórico proferira. Conseqüentemente, esses dois materiais distintos aparecem juntos nos evangelhos, portanto não sabemos qual deles procede de fato do Jesus histórico. Esse é o tipo de crítica que atormenta muita gente. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?

— Esse argumento tem menos fundamento histórico que o anterior — disse Blomberg com um sorriso. — Na verdade, o próprio Novo Testamento desmente essa hipótese. Existem algumas passagens que fazem referência a profecias primitivas, mas elas nunca se confundem com as palavras de Cristo. Em 1Coríntios 7, por exemplo, Paulo distingue claramente a palavra que transmite do Senhor e a que procede do Jesus histórico. No livro de Apocalipse, pode-se distinguir perfeitamente todas as vezes em que Jesus fala diretamente com o profeta, o apóstolo João, conforme supõe a tradição, e as vezes em que João relata suas visões inspiradas. E, em 1Coríntios 14, quando Paulo discute os critérios da verdadeira profecia, ele fala da responsabilidade que tem a igreja local de testar os profetas. Com base em seus antecedentes judaicos, sabemos que, entre os critérios da verdadeira profecia de que fala o apóstolo, estava o seu cumprimento ou não, além do fato de que ela deveria estar de acordo com as palavras anteriormente reveladas pelo Senhor. O argumento mais forte, porém, é o que não encontramos nos evangelhos. Depois da ascensão de Cristo, diversas controvérsias rondaram ameaçadoramente a igreja primitiva: os crentes deveriam ou não ser circuncida-dos? Como disciplinar o falar em línguas? Como conservar unidos judeus e gentios? Quais as funções mais adequadas às mulheres no ministério? Os crentes podiam se divorciar de seus cônjuges não-cristãos? Essas questões poderiam ter sido muito bem resolvidas se os cristãos primitivos simplesmente lessem nos evangelhos o que Jesus lhes havia dito sobre o mundo. Isso, porém, nunca aconteceu. A persistência dessas controvérsias é sinal de que os cristãos estavam interessados em distinguir o que acontecera durante a vida de Jesus e o que fora debatido posteriormente nas igrejas.

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