Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)



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2. O teste da capacidade

Mesmo que os escritores quisessem fazer um registro histórico, será que teriam condições de fazê-lo? Como podemos ter certeza de que o material sobre a vida e os ensinamentos de Jesus ficou preservado durante 30 anos antes que fosse finalmente fixado por escrito nos evangelhos? Perguntei a Blomberg:

— O senhor não concorda que lapsos de memória, o desejo de as coisas serem de determinada maneira e o desenvolvimento de material lendário poderiam ter contaminado de modo irreparável a tradição vinculada a Jesus antes que os evangelhos fossem escritos?

Blomberg procurou primeiramente estabelecer o contexto.

— Temos de nos lembrar de que estamos em terra estrangeira, num tempo e lugar remotos, em uma cultura que não havia inventado ainda o computador e nem mesmo a máquina impressora. Os livros — ou melhor, os pergaminhos de papiro — eram relativamente raros. Portanto, a educação, o aprendizado, a adoração e o ensino nas comunidades religiosas eram ministrados oralmente. Alguns rabinos ficaram famosos porque sabiam de cor todo o Antigo Testamento. Logo, os discípulos seriam perfeitamente capazes de guardar na memória — e passar adiante com precisão — muito mais do que aparece nos quatro evangelhos somados.

— Espere um pouco — objetei. — Esse tipo de memorização parece realmente incrível. Como isso é possível?

— Sim, é difícil para nós hoje conseguirmos imaginar como isso podia ser possível — admitiu Blomberg —, mas aquela cultura era oral e enfatizava muito a memorização. Lembre-se de que 80 a 90% das palavras de Jesus estavam originaria-mente em forma poética. Isso não significa que havia rimas, mas havia métrica, com versos harmônicos, paralelismos, e assim por diante — o que teria facilitado muito a memorização. Outra coisa que precisa ser dita é que a definição de memorização era mais flexível naquele tempo. Os estudos de culturas com tradição oral mostram que era possível introduzir variações em partes da história conforme a ocasião — incluir ou excluir detalhes, parafrasear este ou aquele trecho, explicar esta ou aquela parte, e assim por diante. De acordo com um estudo, cerca de 30 a 40% de toda tradição sagrada transmitida oralmente no antigo Oriente Médio apresenta variações de uma ocasião para a outra. Todavia, certos pontos nunca se alteravam, e a comunidade podia intervir para corrigir o narrador caso ele reproduzisse erroneamente os aspectos importantes da história. É...

Blomberg fez uma pausa, buscando na mente a palavra mais adequada.

— É uma coincidência interessante: essa variação de 10 a 40% é praticamente a mesma que constatamos em qualquer passagem dos sinóticos.

Blomberg estava insinuando alguma coisa. Queria que ele fosse mais claro.

— O que o senhor está querendo dizer?

— Estou querendo dizer que, provavelmente, muitas das semelhanças e das diferenças entre os sinóticos podem ser atribuídas ao fato de que os discípulos e outros cristãos primitivos devem ter memorizado muito do que Jesus disse e fez, mas sentiam-se à vontade para relatar aqueles episódios de diferentes maneiras, embora preservassem sempre a importância dos ensinamentos e dos atos originais de Jesus.

Porém eu ainda não estava completamente convencido da capacidade de memorização fiel dos cristãos primitivos. Lembrava-me muito bem de jogos e brincadeiras de minha infância em que as palavras eram distorcidas em questão de minutos.

Brincando de telefone-sem-fio

Você provavelmente já brincou de telefone-sem-fio: alguém cochicha alguma coisa no seu ouvido — por exemplo: "Você é o meu melhor amigo" —, depois, você cochicha a mesma coisa no ouvido do vizinho e assim por diante até completar a volta por todo o círculo de participantes. No fim, a mensagem sai completamente distorcida, por exemplo: "Você é o meu pior amigo".

— Simplificando bastante — eu disse a Blomberg —, essa não é uma boa analogia para o que provavelmente aconteceu com a tradição oral sobre Jesus?

Blomberg discordou.

— Não, de maneira alguma — ele disse. — Eu explico por quê. Quem procura memorizar com atenção alguma coisa e só resolve passá-la adiante depois de ter certeza que a sabe de cor faz algo bem diferente do que a brincadeira do telefone-sem-fio propõe. Na brincadeira, boa parte da diversão se deve ao fato de que a pessoa talvez não tenha entendido direito a mensagem que lhe cochicharam, e a regra não lhe permite pedir à pessoa que repita a frase. Logo em seguida, a mensagem é passada adiante, sempre sussurrada, o que aumenta mais ainda a possibilidade de distorções pelo caminho. No fim das contas, depois de passar por todo o círculo, o resultado será engraçado, sem dúvida nenhuma.

— Por que então — perguntei a Blomberg — não podemos aplicar essa analogia à transmissão da tradição oral?

Blomberg tomou primeiro um gole de café.

— Se fôssemos transportar a brincadeira para o contexto da comunidade do século I, teríamos de submetê-la aos seus critérios. Isso significa que cada pessoa repetiria em alto e bom som o que ouvira do vizinho e em seguida pediria ao primeiro que passara a informação que a confirmasse: "Está correto o que eu disse?". Se não estivesse, ele se corrigiria. A comunidade monitoraria constantemente a reprodução da mensagem e interferiria sempre que fosse preciso fazer alguma correção. Isso preservaria a integridade da mensagem. E o resultado seria muito diferente do da brincadeira infantil.



3. O teste do caráter

O objetivo desse teste consiste em saber se os autores em questão tinham o propósito de ser verdadeiros. Será que havia algum indício de desonestidade ou de imoralidade que pudesse macular sua capacidade ou sua disposição de transmitir com precisão a história?

Blomberg acenou negativamente com a cabeça.

— Simplesmente não existem provas de que aqueles homens não fossem pessoas de muito caráter — disse ele. Observamos como narram as palavras e ações do homem que exigiu deles um nível de integridade tão severo quanto o de qualquer outra religião de que se tem notícia. Aqueles homens estavam tão determinados a viver sua fé que dez deles, do grupo de 11 apóstolos, tiveram mortes terríveis, o que demonstra sua grandeza de caráter. Em termos de honestidade, verdade, virtude e moralidade, essas pessoas tinham uma bagagem de dar inveja.


4. O teste da harmonia

Eis aqui um teste no qual, dizem os céticos, os evangelhos sempre são reprovados. Afinal, eles não se contradizem? Não há discrepâncias inconciliáveis entre os vários relatos evangélicos? E, se há, como é que podemos confiar no que dizem?

Blomberg concordou que os evangelhos parecem estar em contradição em inúmeros pontos.

— As incongruências vão de pequenas variações no fraseado até as contradições aparentes mais famosas — disse ele. — Na minha opinião, se você admite os elementos que mencionei anteriormente, ou seja, a paráfrase, a abreviação, os acréscimos explicativos, a seleção e a omissão, os evangelhos se mostram muito harmoniosos entre si pelos padrões antigos, que são os únicos pelos quais devemos julgá-los.

— Ironicamente — ressaltei —, se os evangelhos fossem exatamente idênticos, palavra por palavra, os críticos acusariam seus autores de estar mancomunados, para que suas histórias saíssem exatamente iguais, o que os colocaria sob suspeita.

— Exatamente — concordou Blomberg. — Se os evangelhos fossem 100% harmoniosos, isso os impossibilitaria de ser testemunhos independentes. As pessoas diriam então só haver um testemunho, os demais seriam só imitação.

Lembrei-me instantaneamente das palavras de Simon Greenleaf, da Faculdade de Direito de Harvard, uma das personagens mais importantes da história do direito e autor de um tratado muito influente sobre a prova. Depois de estudar o nível de harmonia dos quatro evangelistas, ele deu seu parecer:
Existe um volume significativo de discrepância, o que aponta para o fato de os autores não poderem ter estabelecido nenhum tipo de acordo entre si; por outro lado, há também uma harmonia de tal magnitude que demonstra sua condição de narradores independentes de uma transação de grande importância.12
Para Hans Stier, estudioso alemão da escola historiográfica clássica, a harmonia dos dados básicos e a divergência de detalhes são sinais de credibilidade, uma vez que as narrativas fabricadas costumam ser integralmente consistentes e harmônicas. "Todo historiador", diz ele, "torna-se muito cético no momento em que algo extraordinário só aparece relatado em narrativas completamente isentas de contradições".13

Apesar dessa verdade, eu não pretendia ignorar as dificuldades levantadas pelas discrepâncias explícitas entre os evangelhos. Resolvi levar ainda mais adiante a questão, pressionando Blomberg em alguns pontos evidentemente contraditórios que os céticos geralmente usam como exemplo de falta de confiabilidade dos evangelhos.



Lidando com as contradições

Destaquei primeiramente a história de uma cura muito conhecida.

— Em Mateus, lemos que um centurião foi pessoalmente a Jesus e lhe pediu que curasse seu servo. Lucas, porém, nos diz que o centurião mandou que os anciãos fossem até Jesus. Naturalmente trata-se de uma contradição, não é verdade?

— Acho que não — respondeu Blomberg. — Pense da seguinte forma: no mundo atual, ouvimos no noticiário "que o presidente declarou hoje...", quando na verdade o discurso foi redigido por alguém encarregado de escrevê-lo e lido pelo secretário de imprensa — e, com um pouco de sorte, talvez o presidente tivesse a oportunidade de vê-lo em um certo momento entre a primeira e a segunda etapa. Nem por isso podemos dizer que a reportagem estava errada.


Da mesma forma, no mundo antigo, era perfeitamente compreensível e aceitável que se atribuíssem às pessoas ações que, na verdade, foram praticadas por seus subordinados ou emissários — no presente caso, pelos anciãos do povo judeu.

— Então, em outras palavras, o senhor está dizendo que tanto Mateus quanto Lucas têm razão?

— Exatamente — disse ele.

Parecia plausível. Citei em seguida um outro exemplo:

— E quanto à afirmação de Marcos e Lucas, segundo a qual Jesus enviara alguns demônios para uma vara de porcos em Gerasa, enquanto Mateus refere-se a Gadara. As pessoas dizem que a contradição é óbvia nesse caso e que não há como resolvê-la: trata-se de dois lugares diferentes. Caso encerrado.

— É melhor não dar o caso por encerrado tão cedo — disse Blomberg com um sorriso sutil. — Uma possível solução para isso é que um dos lugares mencionados era uma cidade, e o outro, uma província.

A resposta de Blomberg me deu a impressão de uma solução muito fácil. Era como se ele estivesse evitando as verdadeiras dificuldades colocadas pela questão.

— Acho que a coisa é um pouco mais complicada — eu disse. — A cidade de Gerasa nem sequer ficava perto do mar da Galiléia. Mas foi exatamente para lá que os demônios se dirigiram depois de entrar nos porcos, precipitando-os para a morte de cima de um penhasco.

— Muito bem, boa questão — disse Blomberg. — Mas existem ruínas de uma cidade cujo sítio de escavação fica exatamente na margem oriental do mar da Galiléia. A forma que o nome da cidade geralmente toma (em inglês) é "Khersa". No entanto, como toda palavra hebraica traduzida ou transliterada para o grego, é provável que soasse bem próxima de "Gerasa". Portanto, o episódio pode ter ocorrido em Khersa (cuja grafia em grego acabou dando "Gerasa"), na província de Gadara.

— Excelente — admiti sorrindo. — Ponto seu. Mas há um problema que não é nada fácil de resolver: as discrepâncias entre as genealogias de Jesus em Mateus e Lucas? Os céticos normalmente as consideram totalmente inconciliáveis.

— Trata-se de um outro caso de múltiplas opções — disse Blomberg.

— E que opções são essas?

— Segundo as duas mais comumente aceitas, Mateus refletiria a linhagem de José, já que a maior parte do primeiro capítulo adota a perspectiva de José que, como pai adotivo, seria o antepassado legal por meio de quem a linhagem real de Jesus seria traçada. São esses os temas que importam a Mateus. Lucas, por sua vez, teria traçado a genealogia de Jesus com base na linhagem de Maria. E, já que ambos são descendentes de Davi, basta recuar mais um pouco para ver que ambas as linhagens acabam convergindo. A outra opção postula que ambas as genealogias refletem a linhagem de José, porque têm como objetivo o estabelecimento de rotinas legais necessárias. Uma delas, porém, seria a linhagem humana de José (evangelho de Lucas), ao passo que a outra seria a linhagem legal de José, sendo que ambas divergem nos pontos em que determinam antepassados que não tiveram descendentes diretos. Estes eram obrigados a suscitar descendência por meio de várias práticas previstas no Antigo Testamento. O problema torna-se maior porque alguns nomes são omitidos, o que era perfeitamente aceitável pelos padrões do mundo antigo. Existem ainda variantes textuais: nomes que, traduzidos de uma língua para outra, geralmente recebiam grafias diferentes e eram facilmente confundidos com os de outros indivíduos.

Blomberg concluíra sua argumentação: existem ao menos algumas explicações racionais. Mesmo que não sejam perfeitas, no mínimo harmonizam razoavelmente os relatos evangélicos.

Para que nossa conversa não se transformasse em uma espécie de tortura intelectual, resolvi seguir em frente. Nesse ínterim, Blomberg e eu concluímos que seria melhor tratar cada questão individualmente e, assim, procurar descobrir se existe um modo racional de resolver o aparente conflito entre os evangelhos. É claro que não faltam livros em que o assunto é abordado exaustivamente e com competência, chegando a detalhes excruciantes em sua tentativa de conciliar as diferenças.14

— E haverá momentos — disse Blomberg — em que talvez tenhamos de suspender nossa avaliação e simplesmente acatar o fato de que, uma vez compreendida a maior parte dos textos e considerando-os confiáveis, podemos dar-lhes então o benefício da dúvida toda vez que não tivermos certeza sobre um detalhe ou outro.




5. O teste do preconceito

Esse teste consiste em saber se os autores dos evangelhos tinham algum preconceito capaz de contaminar seu trabalho. Teriam eles algum interesse oculto em deformar seu material narrativo?

— Não podemos subestimar o fato de essas pessoas amarem Jesus — eu disse enfaticamente. — Não eram observadores neutros; eram seguidores fiéis a Cristo. Será que isso não poderia levá-los a fazer certas modificações para que Jesus parecesse bom?

— Admitamos que a situação possibilite isso — disse Blomberg. — Mas também as pessoas são capazes de honrar e respeitar alguém a tal ponto que se sintam impelidas a registrar sua vida com a maior integridade possível. Essa seria a forma de demonstrar seu amor por tal pessoa. E é o que eu acho que aconteceu aqui. Além disso, esses discípulos nada tinham a ganhar exceto críticas, o ostracismo e o martírio. Com certeza nada lucraram financeiramente. Na verdade, foram pressionados a ficar quietos, a negar a Jesus, a diminuí-lo, e até mesmo a esquecer que um dia o conheceram.

No entanto, por causa de sua integridade, proclamaram o que viram, ainda que com isso tivessem de sofrer e morrer.

6. O teste do acobertamento

Quando as pessoas testificam sobre eventos que presenciaram, sempre tentam proteger a si mesmas e aos outros, esquecendo-se muito convenientemente de mencionar detalhes embaraçosos ou difíceis de explicar. Conseqüentemente, isso suscita dúvidas sobre a veracidade de todo o seu testemunho.

Perguntei então a Blomberg:

— Os autores dos evangelhos registraram algum tipo de material que poderia ser fonte de embaraço ou o acobertaram para que parecesse decente? Será que inseriram em seu relato alguma coisa incômoda ou de difícil explicação?



— Há de fato muito o que dizer a esse respeito — ele respondeu. — Grande parte dos ensinamentos de Jesus consiste em palavras duras. Alguns ensinamentos exigem muito no plano ético. Se eu tivesse de inventar uma religião para satisfazer minha fantasia, provavelmente não cobraria de mim mesmo perfeição igual à do meu Pai celestial, tampouco diria que a lascívia que sinto no coração já é, por si mesma, adultério.

— Porém — objetei —, outras religiões também fazem exigências muito duras.

— Sim, é verdade, por isso mesmo as exigências mais duras eram as que colocavam as maiores dificuldades para o que a igreja se propunha a ensinar sobre Jesus.

Achei vaga a resposta.

— Dê-me alguns exemplos, por favor — pedi. Depois de pensar um pouco, ele disse:

— Por exemplo, em Marcos 6.5, lemos que Jesus não pôde fazer muitos milagres em Nazaré porque as pessoas dali eram incrédulas, o que parecia limitar seu poder. Jesus disse em Marcos 13.32 que não sabia a hora de seu retorno, o que parece limitar sua onisciência. Atualmente, essas declarações não são mais problema para a teologia, porque Paulo, em Filipenses 2.5-8, nos diz que Deus, em Cristo, quis, de maneira espontânea e consciente, limitar o exercício independente de seus atributos divinos. Mas, se pudesse passar pela história dos evangelhos sem lhe dar muita atenção, seria muito mais conveniente deixar de fora todo esse material, o que me pouparia o trabalho de ter de explicá-lo. O batismo de Jesus é outro exemplo. Existe uma explicação para que Jesus, que não tinha pecados, se deixasse batizar, mas por que não facilitar as coisas e deixar esse episódio de fora? Na cruz, Jesus gritou: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?". Teria sido muito melhor para os evangelistas omitir essa passagem, já que ela dá margem a tantas perguntas.

— Também há muito material constrangedor sobre os discípulos — acrescentei.

— Sem dúvida — disse Blomberg. — Sempre que Marcos fala de Pedro, o tom é bem pouco elogioso. E olhe que Pedro era o líder! Os discípulos quase sempre entendiam mal o que Jesus queria dizer. Tiago e João queriam os lugares à direita e à esquerda de Jesus, por isso Cristo lhes deu lições muito duras para mostrar-lhes que o líder é quem deve servir primeiro. Eles se comportavam como um bando de egoístas, interesseiros e tolos na maior parte das vezes.

— Já sabemos que os evangelistas eram seletivos; o evangelho de João termina dizendo, um tanto quanto hiperbolicamente, que o mundo inteiro não seria capaz de conter tudo o que se poderia escrever sobre Jesus. Portanto, se tivessem deixado de fora passagens desse tipo, isso não significaria necessariamente que estivessem falsificando a história. Mas a questão é a seguinte: se os evangelistas não se sentiam à vontade para deixar de fora esse tipo de material, quando na verdade teria sido conveniente e útil que o fizessem, será de fato plausível acreditar que tenham acrescentado e produzido material sem nenhuma base histórica?

Blomberg deixou por alguns momentos a pergunta no ar antes de respondê-la, convicto:

— Eu diria que não.

7. O teste da corroboração

Logo no início deste teste, perguntei a Blomberg:

— Quando os evangelhos falam de pessoas, lugares e acontecimentos, é possível confirmar as informações dos evangelistas por meio de fontes independentes? Normalmente, esse tipo de corroboração é inestimável sempre que se quer avaliar se um autor tem ou não comprometimento com a precisão.

— Sim, é possível, e quanto mais exploramos esse tópico, tanto mais os detalhes se confirmam — respondeu Blomberg. — Nos últimos séculos, a arqueologia trouxe à luz, inúmeras vezes, descobertas que confirmaram referências específicas dos evangelhos, principalmente de João — ironicamente, o que desperta mais desconfianças!

— Claro que existem algumas questões que ainda não foram resolvidas; por vezes, a arqueologia surgiu com novos problemas, mas que são pouquíssimos se comparados com o número de exemplos que corroboram as informações dos evangelistas. Além disso, sabemos por meio de fontes não-cristãs muitos fatos sobre Jesus que confirmam os principais ensinamentos e ocorrências de sua vida. E, se considerarmos que os historiadores antigos lidavam, na maior parte das vezes, só com legisladores políticos, imperadores, reis, batalhas militares, autoridades religiosas e movimentos filosóficos de grande importância, é notável o quanto podemos aprender sobre Jesus e seus seguidores, ainda que não se encaixem em nenhuma dessas categorias na época em que os historiadores escreveram seus livros.

Blomberg me dera uma resposta muito concisa e prática. Todavia, embora não houvesse razão para eu duvidar de sua opinião, achei que valia a pena aprofundar-me um pouco mais nesse tema. Peguei minha caneta e rabisquei um lembrete à margem das minhas anotações: "Consultar especialistas em arqueologia e história".



8. O teste do testemunho adverso

Esse teste faz a seguinte pergunta: Haveria outras pessoas presentes que poderiam contradizer ou corrigir os evangelhos, caso apresentassem alguma distorção ou erro? Em outras palavras, temos algum exemplo de contemporâneos de Jesus que teriam se queixado dos relatos evangélicos por conterem erros?

— Muitas pessoas tinham motivos para querer desacreditar o movimento e, se tivessem mais competência para escrever a história, certamente o fariam — disse Blomberg. — No entanto, veja o que disseram seus adversários. Nos escritos judeus tardios, Jesus é chamado de o feiticeiro que desviou Israel, o reconhecimento de que ele fez de fato obras maravilhosas, embora os autores coloquem em dúvida a fonte de seu poder. Essa seria a oportunidade perfeita para dizer alguma

coisa do tipo: "Os cristãos vão lhe dizer que ele fez milagres, mas nós estamos de prova que ele não fez". Nunca vemos, porém, seus opositores dizer esse tipo de coisa. Em vez disso, eles admitem implicitamente que é verdade o que lemos nos evangelhos, ou seja, que Jesus fez milagres. Perguntei então a Blomberg:

— Será que esse movimento cristão teria fincado raízes precisamente em Jerusalém, no lugar exato onde Jesus passou a maior parte de seu ministério, foi crucificado, morreu e ressurgiu, se as pessoas que o conheceram soubessem que os discípulos estavam exagerando ou distorcendo as coisas que ele fez?

— Creio que não — respondeu Blomberg. — Sabemos que o movimento foi inicialmente muito vulnerável, frágil e perseguido. Os críticos poderiam ter-se aproveitado dessa situação para atacá-lo, acusando-o de falsidades e distorções. Mas — concluiu Blomberg com ênfase — não é isso o que acontece.



Uma fé que se apóia em fatos

Confesso que Blomberg me impressionou. Informado e articulado, convincente e de formação erudita, sua argumentação em defesa do evangelho era muito sólida. As provas que apresentou em favor da autoria tradicional dos evangelhos, sua análise do conjunto de crenças fundamentais sobre Jesus já em um período bastante remoto, sua defesa muito lógica da precisão da tradição oral, sua análise ponderada de aparentes contradições — todo o seu testemunho me proporcionou um alicerce muito firme para seguir adiante com minhas investigações.

Todavia, faltava muito ainda para eu saber se Jesus era ou não o Filho Unigênito de Deus. Na verdade, depois de conversar com Blomberg, vi com muita clareza qual seria minha próxima missão: descobrir se esses evangelhos, cuja confiabilidade Blomberg tão bem demonstrara, haviam atravessado os séculos e chegado até nós sem deturpações. Como podemos ter certeza de que os textos que lemos hoje são os mesmos que foram escritos originalmente no século i ? Não teriam eles sofrido nenhuma modificação? Além disso, como saber ao certo se a história de Jesus que lemos nos evangelhos está mesmo completa?

Olhei para o relógio. Se o trânsito não estivesse congestionado, pegaria o avião sem problemas de volta a Chicago. Enquanto recolhia minhas anotações e desligava o gravador, olhei distraidamente para as pinturas infantis nas paredes — e, de repente, não vi mais em Blomberg o erudito nem o autor, tampouco o professor, mas o pai que se senta à beira da cama das filhas à noite e lhes diz o que realmente é importante na vida.

O que será que ele lhes diz sobre a Bíblia, pensei, sobre Deus? Sobre esse Jesus que faz afirmações tão audaciosas sobre si mesmo?

Não pude me conter. Fiz a ele mais algumas perguntas.

— E quanto à sua fé pessoal?—perguntei-lhe. — De que modo as suas pesquisas afetaram as coisas em que o senhor crê?

Mal terminara de perguntar e ele já me respondia:

— Elas a fortaleceram, sem dúvida nenhuma. Sei pelos meus estudos que são muitos os indícios que apontam para a confiabilidade do relato evangélico.

Depois de breve pausa, Blomberg prosseguiu:

— Sabe, é irônico: a Bíblia louva a fé que dispensa as provas. Lembre-se da resposta de Jesus a Tome: "Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram". Sei que as provas nunca podem compelir ou coagir a fé. Não podemos tomar o lugar do Espírito Santo, o que é sempre uma preocupação dos cristãos quando ouvem discussões desse tipo. Sabe, há muitas histórias de estudiosos especializados no Novo Testamento que não eram cristãos, mas pelo estudo dessas mesmas questões chegaram a Cristo pela fé. Muitos outros eruditos, que eram cristãos, tiveram sua fé fortalecida, mais solidificada e mais bem fundamentada por causa das provas: é nessa categoria que eu me encaixo.

Quanto a mim, estava inicialmente na primeira categoria — não, eu não era nenhum erudito; eu era cético, um iconoclasta, um repórter intransigente em busca da verdade sobre esse Jesus que disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Fechei minha valise e me levantei para agradecer a Blomberg. Voltaria satisfeito para Chicago, sabendo que minha busca espiritual tivera um excelente começo.

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