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Ponderações

Perguntas para reflexão ou estudo em grupo
1. De que maneira as respostas do professor Blomberg aos oito testes comprobatórios afetaram sua confiança na veracidade dos evangelhos? Por quê?

2. Qual desses oito testes você considera mais persuasivo e por quê?

3. Quando pessoas da sua confiança dão detalhes ligeiramente diferentes do mesmo acontecimento, você automaticamente duvida delas ou procura ver se há um meio de conciliar as suas versões? Até que ponto você achou convincente a análise de Blomberg sobre as aparentes contradições que encontramos nos evangelhos?

Outras fontes de consulta

Mais recursos sobre esse tema
Archer, Gleason L. Enciclopédia de temas bíblicos. 2. ed. São Paulo,

Vida, 2002.

Blomberg, Craig. The historical reliability of the New Testament. In: Lane, William Craig, Reasonable faith,193 231. Westchester, Crossway, 1994.

Where do we start studying Jesus? In: Michael J. Wilkins & J. P.



Moreland, Jesus under fire, p.17-50. Grand Rapids, Zondervan, 1995.

Dunn, James, The living word. Philadelphia, Fortress, 1988.

Geisler, Norman & Howe Thomas, Manual popular de dúvidas, enigmas e "contradições" da Bíblia. São Paulo, Mundo Cristão, 1999.

Marshall, I. Howard. I believe in the historical Jesus. Grand Rapids, Eerdmans, 1977.

3
A prova documental
As biografias de Jesus foram preservadas

de modo confiável?

Como repórter do Chicago Tribune, eu era um "rato de documentos" — passava incontáveis horas remexendo os arquivos dos tribunais tentando farejar alguma notícia interessante. Era trabalhoso e levava tempo, mas valia a pena. Freqüentemente eu passava à frente da concorrência com histórias de primeira página.

Por exemplo, certa vez, topei com algumas transcrições ultra-secretas do grande júri que foram colocadas por engano no arquivo público. Os artigos que escrevi depois disso revelavam a existência de inúmeras licitações fraudulentas nos bastidores dos maiores projetos de obras públicas de Chicago, incluindo-se aí a construção de rodovias expressas importantíssimas.

Mas os documentos secretos mais espetaculares que já descobri foram os do memorável caso em que a Ford era acusada de homicídio culposo pela morte violenta de três adolescentes em um pequeno carro modelo Pinto. Era a primeira vez que uma montadora americana respondia criminalmente pela comercialização de um produto supostamente perigoso.

Ao pesquisar os arquivos do tribunal na minúscula Winamac, em Indiana, descobri inúmeros memorandos confidenciais da Ford em que a empresa admitia saber antecipadamente que o carro em questão poderia explodir se abalroado por trás à velocidade de 32 quilômetros por hora. Os documentos mostravam que o fabricante optara por economizar alguns dólares por veículo e, em vez de torná-lo mais seguro, preferira aumentar o espaço disponível no porta-malas.

Um advogado da Ford que perambulava pelo prédio do tribunal viu que eu estava tirando fotocópias dos documentos. Furioso, ele entrou com uma ordem judicial que procurava impedir o acesso do público aos arquivos.

Mas era tarde demais. Minha história, "Memorandos secretos da Ford mostram que a empresa negligenciou perigo de explosão em veículo", apareceu na primeira página do Tribune e foi comentada no país todo.15



A autenticação dos documentos

Conseguir documentos secretos é uma coisa; provar a autenticidade deles é outra. Antes de um jornalista publicar seu conteúdo ou de um promotor aceitá-los como prova, é preciso seguir alguns procedimentos para que sua genuinidade seja comprovada.

No caso dos documentos referentes ao carro do exemplo anterior, seriam de fato autênticos os timbres da Ford que se viam nos papéis ou eram forjados? Será que as assinaturas foram falsificadas? Como eu poderia ter certeza? E, já que os memorandos foram fotocopiados inúmeras vezes, como eu poderia afirmar que seu conteúdo não fora adulterado? Em outras palavras, como poderia saber ao certo se todos os documentos copiados eram idênticos aos originais, que eu não possuía?

Além disso, como eu poderia saber se aqueles memorandos continham a história toda? Afinal de contas, eles representavam apenas uma pequena fração da correspondência interna da Ford. E se houvesse outros memorandos, desconhecidos do público, capazes de lançar luz totalmente nova sobre o assunto se trazidos à tona?

Essas perguntas são igualmente importantes quando se examina o Novo Testamento. Quando tomo a Bíblia nas mãos, estou segurando, na verdade, cópias de registros históricos antigos. Os manuscritos originais das biografias de Jesus — Mateus, Marcos, Lucas e João — e todos os demais livros do Antigo e do Novo Testamento há muito se desintegraram e viraram pó. Como posso ter certeza de que as versões modernas de que dispomos hoje — produto final de incontáveis cópias feitas ao longo dos séculos — possuem alguma semelhança com as palavras originais de seus autores?

Além disso, como posso saber se essas quatro biografias de Jesus não omitiram nada da história? E se a igreja primitiva tiver censurado outras biografias porque não gostava do modo como mostravam Jesus? Como posso saber se os políticos dentro da igreja não suprimiram algumas biografias de Jesus que eram tão precisas quanto as quatro que foram incluídas no Novo Testamento e que poderiam dar uma contribuição nova e importante às palavras e feitos desse controvertido carpinteiro de Nazaré?

Essas duas questões — a confiabilidade das biografias de Jesus que chegaram até nós e a existência de outras também precisas que teriam sido reprimidas pela igreja — merecem uma consideração cuidadosa. Eu tinha conhecimento de que havia um estudioso de autoridade universalmente reconhecida nesse tipo de questão. Voei para Newark e fui para Princeton num carro alugado a fim de vê-lo o mais rápido possível.

Segunda entrevista: Bruce M. Metzger, Ph.D.

Encontrei-me com Bruce Metzger em um sábado à tarde, no seu refúgio predileto: a biblioteca do Seminário Teológico de Princeton. Com um sorriso, ele diz que "gosta de tirar o pó dos livros".



Na verdade, ele é autor de alguns dos melhores livros que ali estão, principalmente quando o assunto é o Novo Testamento. No total, Metzger escreveu ou editou 50 livros, dentre eles The New Testament: its background, growth, and content [O Novo Testamento: seu cenário, desenvolvimento e conteúdo]; The text of the New Testament [O texto do Novo Testamento]; The canon of the New Testament [O cânon do Novo Testamento]; Manuscripts of the GreekBible [Manuscritos da Bíblia grega]; Textual commentary on the Greek New Testament [Comentário textual sobre o Novo Testamento grego]; Introduction to the apocrypha [Introdução aos apócrifos] e The Oxford companion to the Bible [O guia bíblico Oxford]. Muitos desses livros foram traduzidos para o alemão, chinês, japonês, coreano, malaio e outras línguas. Ele é também co-editor da The new Oxford annotated Bible with the apocrypha [A nova Bíblia Oxford anotada com os apócrifos] e editor geral de mais de 25 volumes da série New Testament tools and studies [O Novo Testamento: ferramentas e estudos].

Metzger é mestre pelo Seminário e pela Universidade de Princeton, onde fez também seu doutorado. É doutor honorário por cinco faculdades e universidades, dentre elas a St. Andrews University, da Escócia, a Universidade de Munster, na Alemanha, e a Potchefstroom, da África do Sul.

Em 1969, foi professor na Tyndale House, em Cambridge, Inglaterra. Também lecionou em Clare Hall, Universidade de Cambridge, em 1974, e no Wolfson College, em Oxford, em 1979. Atualmente é professor emérito do Seminário Teológico de Princeton, depois de uma carreira de 46 anos ensinando o Novo Testamento.

Metzger é presidente do Comitê responsável pela New revised standard version [Nova versão-padrão revisada] da Bíblia, colaborador da Academia Britânica e membro do Kuratorium do Instituto Vetus Latina, do mosteiro de Beuron, na Alemanha. Foi presidente da Sociedade de Literatura Bíblica, da Sociedade Internacional para Estudos do Novo Testamento e da Sociedade Patrística Norte-Americana.

Se olharmos as notas de rodapé de qualquer livro de prestígio sobre o Novo Testamento, é bem provável que encontremos o nome de Metzger inúmeras vezes. Seus livros são leitura obrigatória nas universidades e nos seminários do mundo todo. Ele é altamente respeitado por estudiosos de confissões teológicas bem amplas e diversas.

Sob muitos aspectos, Metzger, nascido em 1914, representa um retrocesso se comparado à geração que o precedeu. Ele chega em um Buick cinza, que chama de "carruagem à gasolina", veste um terno cinza-escuro e gravata azul estampada, que é o máximo da informalidade a que se permite durante suas visitas à biblioteca, mesmo durante o fim de semana. Os cabelos brancos estão muito bem penteados; seus olhos, vivos e alertas, são circundados por um par de óculos sem aro. Seu andar hoje é mais lento, mas ele não sente nenhuma dificuldade em subir metodicamente as escadas até o segundo andar, onde faz suas pesquisas em um escritório obscuro e austero.

Metzer também não perdeu o senso de humor. Ele me mostrou uma latinha que ganhou quando era presidente do comitê da Revised standard version [Versão-padrão revisada]. Ele abriu a tampa para que eu visse as cinzas de um exemplar da rsv queimada em 1952, durante um protesto de um pregador fundamentalista.

— Parece que ele não gostou muito quando o comitê mudou o "companheiros" da Versão do rei Tiago para "camaradas", em Hebreus 1.9 — Metzger me explicou com um leve sorriso. — Ele nos acusou de sermos comunistas.

Embora, às vezes, haja uma certa hesitação na fala de Metzger, e ele costume responder com expressões pitorescas do tipo "exato", ele continua na linha de frente da erudição neotestamentária. Quando lhe pedi algumas estatísticas, ele não foi buscar os números constantes de seu livro de 1992 sobre o Novo Testamento. Metzger tinha números recentes, que pesquisara para manter-se atualizado. Sua mente ágil não tem dificuldade em se lembrar de detalhes referentes a pessoas e lugares; além disso, está a par de todos os debates atuais entre os especialistas do Novo Testamento. Na verdade, eles continuam a procurá-lo em busca de discernimento e sabedoria.

Seu escritório, do tamanho aproximado de uma cela de cadeia, não tem janelas e é todo cinza. Há duas cadeiras de madeira; ele insistiu para que eu me sentasse na mais confortável. Faz parte do seu encanto. Ele é de uma gentileza a toda prova, surpreendentemente modesto e discreto, de uma bondade de espírito que me fez desejar envelhecer com o mesmo tipo de graça jovial.

Primeiramente, passamos algum tempo nos conhecendo; logo em seguida, passei para a primeira questão que desejava discutir: como podemos ter certeza de que as biografias de Jesus chegaram até nós bem preservadas?

Cópias de cópias de cópias

— Para ser sincero com o senhor — eu disse a Metzger —, quando soube que não havia nenhum exemplar original do Novo Testamento, fiquei muito cético. Se tudo que temos são cópias de cópias, pensei, como ter certeza de que o Novo Testamento que temos hoje é, no mínimo, semelhante aos escritos originais? Como o senhor responderia a isso?

— Não é só a Bíblia que está nessa situação, outros documentos antigos que chegaram até nós também estão — replicou ele. — A vantagem do Novo Testamento, principalmente quando comparado com outros escritos antigos, é que muitas cópias sobreviveram.

— Qual a importância disso? — perguntei.

— Bem, quanto maior o número de cópias em harmonia umas com as outras, sobretudo se provêm de áreas geográficas diferentes, tanto maior a possibilidade de confrontá-las, o que nos permite visualizar como seriam os documentos originais. A única forma possível de harmonizá-los seria pela ascendência de todos eles à mesma árvore genealógica que representaria a descendência dos manuscritos.

— Muito bem — eu disse —, compreendi por que é importante que existam várias cópias. Mas e quanto à idade dos documentos? Não há dúvida de que isso também é importante, não é verdade?

— Exatamente — respondeu Metzger —, mas esse elemento é outro dado que favorece o Novo Testamento. Temos cópias que datam de algumas gerações posteriores ao escrito dos originais, ao passo que, no caso de outros textos antigos, talvez cinco, oito ou dez séculos tenham se passado entre o original e as cópias mais antigas que sobreviveram. Além dos manuscritos gregos, temos também a tradução dos evangelhos para outras línguas numa época relativamente antiga: para o latim, o siríaco e o copta. Além disso, temos o que podemos chamar de traduções secundárias feitas pouco depois, como a armênia e a gótica. Há várias outras além dessas: a georgiana, a etíope e uma grande variedade.

— De que forma isso nos ajuda?

—Mesmo que não tivéssemos nenhum manuscrito grego hoje, se juntássemos as informações fornecidas por essas traduções que remontam a um período muito antigo, seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento. Além disso, mesmo que perdêssemos todos os manuscritos gregos e as traduções mais antigas, ainda seria possível reproduzir o conteúdo do Novo Testamento com base na multiplicidade de citações e comentários, sermões, cartas etc. dos antigos pais da igreja.

Embora fosse impressionante, era difícil julgar tal prova isoladamente. Eu precisava de algum contexto para avaliar melhor a singularidade do Novo Testamento. De que maneira, eu me perguntava, podemos compará-lo a outras obras bem conhecidas da Antigüidade?



Uma montanha de manuscritos

— Quando o senhor fala da multiplicidade de manuscritos — prossegui —, de que modo isso contrasta com outros livros antigos normalmente reputados pelos eruditos por confiáveis? Por exemplo, fale-me de escritos de autores da época de Jesus.

Metzger consultou algumas anotações à mão que tinha trazido, prevendo minha pergunta.

— Veja o caso de Tácito, o historiador romano que escreveu os Anais por volta de 116 d.C. — começou. — Seus primeiros seis livros existem hoje em apenas um manuscrito, copiado mais ou menos em 850 d.C. Os livros 11 a 16 estão em outro manuscrito do século xi. Os livros 7 a 10 estão perdidos. Portanto, há um intervalo muito longo entre o tempo em que Tácito colheu suas informações e as escreveu e as únicas cópias existentes. Com relação a Josefo, historiador do século I, temos nove manuscritos gregos de sua obra Guerra dos judeus, todos eles cópias feitas nos séculos X a XII. Existe uma tradução latina do século IV e textos russos dos séculos XI ou XII.

Eram números impressionantes, sem dúvida. Existe apenas uma seqüência muito tênue de manuscritos ligando essas obras antigas ao mundo moderno.

— Só para comparar — perguntei —, quantos manuscritos do Novo Testamento grego existem ainda hoje?

Metzger arregalou os olhos.

— Há mais de 5 mil catalogados — disse ele entusiasmado, erguendo a voz em uma oitava.

Isso equivalia a uma montanha de manuscritos, se comparado com os formigueiros de Tácito e Josefo!

— Isso é incomum no mundo antigo? Qual seria o segundo colocado? — perguntei.

— O volume de material do Novo Testamento é quase constrangedor em relação a outras obras da Antigüidade — disse ele. — O que mais se aproxima é a Ilíada de Homero, que era a bíblia dos antigos gregos. Há menos de 650 manuscritos hoje em dia. Alguns são muito fragmentários. Eles chegaram a nós a partir dos séculos 11 e m d.C. Se levarmos em conta que Homero redigiu seu épico em aproximadamente 800 a.C, veremos que o intervalo é bastante longo.

"Bastante longo" era eufemismo; estávamos falando em mil anos! De fato, não havia comparação: a existência de manuscritos do Novo Testamento constituía uma prova surpreendente quando justaposta a outros escritos respeitados da Antigüidade — obras que os estudiosos modernos não relutam de forma alguma em considerar autênticas.

Minha curiosidade em relação aos manuscritos do Novo Testamento fora despertada. Pedi a Metzger que me descrevesse alguns deles.

— Os mais antigos são fragmentos de papiros, que era um tipo de material para escrita feito da planta do papiro que crescia às margens do delta do Nilo, no Egito — disse Metzger. — Existem atualmente 99 fragmentos de papiros com uma ou mais passagens ou livros do Novo Testamento. Os mais importantes já descobertos são os papiros Chester Beatty, achados por volta de 1930. Destes, o número 1 apresenta partes dos quatro evangelhos e do livro de Atos, datando do século III d.C. O papiro número 2 contém grandes porções de oito cartas de Paulo além de trechos de Hebreus, e a data gira em torno de 200 d.C. O papiro número 3 compreende uma seção enorme do livro de Apocalipse, com data do século III d.C. Um outro grupo de manuscritos de papiros importantes foi comprado por um bibliófilo suíço, Martin Bodmer. O mais antigo deles, de aproximadamente 200 d.C, contém cerca de dois terços do evangelho de João. Um outro papiro, com partes dos evangelhos de Lucas e João, é do século III d.C.

A essa altura, o intervalo entre a escrita das biografias de Jesus e os manuscritos mais antigos revelava-se extremamente pequeno. Mas qual é o manuscrito mais antigo? Será que é possível chegar aos manuscritos originais, que os especialistas chamam de "autógrafos"?

O refugo que mudou a história

— De todo o Novo Testamento — eu disse —, qual é a parte mais antiga que temos hoje?

Metzger não precisou refletir para responder.

— Um fragmento do evangelho de João com parte do capítulo 18. Tem cinco versículos, três de um lado, dois de outro e mede cerca de 6,5 por nove centímetros — disse Metzger.

— Como foi descoberto?

— Foi comprado no Egito em 1920, mas passou despercebido durante anos em meio a outros fragmentos de papiros semelhantes. Em 1934, porém, C. H. Roberts, do Saint Johris College, de Oxford, trabalhava na classificação de papiros na Biblioteca John Rylands, em Manchester, na Inglaterra, quando percebeu imediatamente que havia deparado com um papiro em que se achava preservado um trecho do evangelho de João. Pelo estilo da escrita, ele foi capaz de datá-lo.

— E a que conclusão ele chegou? — perguntei. — É muito antigo?

— Ele concluiu que o manuscrito era de cerca de 100 a 150 d.C. Muitos outros paleógrafos famosos, como sir Frederic Kenyon, sir Harold Bell, Adolf Deissmann, W. H. P. Hatch, Ulrich Wilcken e outros, concordam com sua avaliação. Deissmann estava convencido de que o manuscrito remontava pelo menos ao reinado do imperador Adriano, nos anos 117 a 138 d.C, ou até mesmo ao do imperador Trajano, entre os anos 98 e 117 d.C.

Era uma descoberta formidável, porque os teólogos alemães céticos do século passado haviam postulado enfaticamente que o quarto evangelho não fora redigido pelo menos até o ano 160 — numa época já bem distante dos eventos do tempo de Jesus para que pudesse ter alguma utilidade histórica. Com isso, influenciaram gerações de estudiosos, que zombavam da confiabilidade desse evangelho.

— Isso sem dúvida põe fim à essa teoria — comentei.

— Realmente — disse Metzger. — Temos aqui um fragmento muito antigo do evangelho de João proveniente de uma comunidade das margens do rio Nilo, no Egito, muito distante de Éfeso, na Ásia Menor, onde o evangelho provavelmente foi escrito.

Essa descoberta fez com que as pontos de vista populares da história fossem revistos, colocando o evangelho de João muito mais próximo dos dias em que Jesus caminhou pela terra. Tomei nota disso mentalmente para perguntar depois a um arqueólogo se havia outras descobertas que pudessem respaldar nossa confiança no quarto evangelho.



Uma abundância de provas

Embora os manuscritos de papiros constituam as cópias mais antigas do Novo Testamento, existem também cópias antigas escritas em pergaminhos, feitos de pele de gado, ovelhas, cabras e antílopes.

— Temos os chamados manuscritos unciais, escritos inteiramente em letras gregas maiúsculas — Metzger explicou. — Temos hoje 306 exemplares, muitos dos quais remontam ao início do século III. Os mais importantes são o Códice sinaítico, que é o único com o Novo Testamento completo em letras unciais, e o Códice Vaticano, bastante incompleto. Ambos são de cerca de 350 d.C. Um novo estilo de escritura, de natureza mais cursiva, emergiu por volta de 800 d.C. É chamado de minúscula, e há cerca de 2 856 manuscritos desse tipo. Há também os lecionários, que contêm as Escrituras do Novo Testamento na seqüência de leitura prescrita pela igreja primitiva em determinadas épocas do ano. Um total de 2 403 desses manuscritos já foram catalogados. Com isso, o total geral de manuscritos gregos chega a 5 664.

De acordo com Metzger, além dos documentos gregos existem milhares de outros manuscritos antigos do Novo Testamento em outras línguas. Existem entre 8 e 10 mil manuscritos da Vulgata latina, mais um total de 8 mil em etíope, eslavo antigo e armênio. No total, há cerca de 24 mil manuscritos.

— Qual a sua opinião diante disso? — perguntei-lhe, buscando confirmar claramente o que julgava ter ouvido. — No que se refere à multiplicidade de manuscritos e ao intervalo de tempo entre os originais e nossos primeiros exemplares, qual a situação do Novo Testamento perante outras obras bem conhecidas da Antigüidade?

— Muito boa — respondeu ele. — Podemos confiar imensamente na fidelidade do material que chegou até nós, principalmente se o compararmos a qualquer outra obra literária antiga.

Essa conclusão é compartilhada por estudiosos eminentes de todo o mundo. De acordo com o falecido F. F. Bruce, autor de Merece confiança o Novo Testamento?, "no mundo não há qualquer corpo de literatura antiga que, à semelhança do Novo Testamento, desfrute uma tão grande riqueza de confirmação textual".16

Metzger já mencionara o nome de sir Frederic Kenyon, ex-diretor do Museu Britânico e autor de The paleography of Greek papyrí [A paleografia dos papiros gregos]. Segundo Kenyon, "em nenhum outro caso o intervalo de tempo entre a composição do livro e a data dos manuscritos mais antigos são tão próximos como no caso do Novo Testamento".17
Sua conclusão: "Não resta agora mais nenhuma dúvida de que as Escrituras chegaram até nós praticamente com o mesmo conteúdo dos escritos originais".18

Mas, e as discrepâncias entre os vários manuscritos? No tempo em que não havia ainda as velozes máquinas fotocopia-doras, os manuscritos eram laboriosamente copiados à mão por escribas, letra por letra, palavra por palavra, linha por linha, num processo muito propício a erros. Queria muito saber agora se esses erros dos copistas tinham introduzido imprecisões irremediáveis nas Bíblias de hoje.



Examinando os erros

— Dada a semelhança de escrita das letras gregas — eu disse — e as condições primitivas nas quais trabalhavam os escribas, era grande a possibilidade de que eles introduzissem erros nos textos.

— Exato — concordou Metzger.

— Então é provável que existam milhares de variações nos manuscritos antigos que possuímos, não é mesmo?

— Exato.

— Isso significa então que não podemos confiar neles? — perguntei num tom mais de acusação que de interrogação.

— Não, senhor, não significa que não podemos confiar neles — respondeu Metzger categoricamente. — Em primeiro lugar, os óculos só foram inventados em 1373, em Veneza. Tenho certeza de que muitos dos antigos escribas sofriam de astigmatismo. Acrescente-se a isso a dificuldade que era, independentemente das circunstâncias, ler manuscritos já apagados, cuja tinta havia perdido a nitidez. Havia também outros perigos — falta de atenção da parte dos escribas, por exemplo. Portanto, embora a maior parte dos escribas fosse escrupulosamente cuidadosa, alguns erros acabavam passando.
Mas— Metzger estava pronto a acrescentar — há outros fatos que compensam isso. Por exemplo, às vezes a memória do escriba pregava-lhe peças. Entre olhar o que tinha de copiar e, em seguida, escrever o que lera, ele podia acabar mudando a ordem das palavras. Ele escrevia exatamente as palavras que lera, porém na seqüência errada. Isso não deve ser motivo para se alarme, já que o grego, ao contrário de outras línguas, como o inglês ou o português, é uma língua que admite flexões.

— Isso quer dizer que... — interrompi.

— Que faz uma enorme diferença em português se você disser: "O cachorro morde o homem" ou: "O homem morde o cachorro". A ordem das palavras é importante em português, mas não no grego. Uma palavra pode funcionar como sujeito da oração independentemente de onde esteja colocada. Conseqüentemente, o significado da oração não fica truncado se as palavras não estiverem na ordem que consideramos correta. Existe, portanto, uma certa variação entre um manuscrito e outro, mas, em geral, são variações de somenos importância. As diferenças de grafia seriam um outro exemplo.

Mesmo assim, o número de "variações" ou de "diferenças" entre os manuscritos era preocupante. Eu já tinha visto algumas estimativas da ordem de 200 mil variações.19 Metzger, contudo, não deu muita importância a essa quantidade.

— O número parece grande, mas engana um pouco pelo modo como as variações são computadas — disse ele, explicando que, se uma única palavra for escrita incorretamente em 2 mil manuscritos, contabilizam-se 2 mil variações.

Concentrei-me na questão mais importante.

— Quantas doutrinas da igreja estão em risco por causa das variações?
— Não sei de nenhuma doutrina que esteja em risco — respondeu ele com convicção.

— Nenhuma?

— Nenhuma — ele repetiu. — Os testemunhas-de-jeová batem à sua porta e lhe dizem: "Sua Bíblia está errada em 1João 5.7,8, onde se lê: 'o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um' (nvi, nota de rodapé). Eles dirão que não é assim que esse texto aparece nos manuscritos mais antigos. E é verdade mesmo. Acho que essas palavras só aparecem em cerca de sete ou oito cópias, todas dos séculos XV ou XVI. Admito que esse texto não faz parte do que o autor de 1João foi inspirado a escrever. Isso, porém, não invalida o testemunho sólido da Bíblia acerca da Trindade. No batismo de Jesus, o Pai fala, seu Filho amado é batizado e o Espírito Santo desce sobre ele. No final de 2Coríntios, Paulo diz: "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês". A Trindade aparece representada em muitos lugares.

— Então as variações, sempre que ocorrem, normalmente são de importância secundária, e não primordial?

— Sim, sim, é isso mesmo. Os estudiosos trabalham muito cuidadosamente para tentar solucioná-las, devolvendo-lhes o significado original. As variações mais significativas não solapam nenhuma doutrina da igreja. Qualquer Bíblia que se preza vem com notas que indicam as variações de texto mais importantes. Mas, como eu já disse, esses casos são raros.

São tão raros que estudiosos como Norman Geisler e William Nix chegaram à seguinte conclusão: "... o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior de manuscrito, mais que qualquer outro livro da Antigüidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99,5% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não".20


Todavia, mesmo que seja verdade que a transmissão do Novo Testamento ao longo da história tenha sido sem precedentes em sua confiabilidade, como saber se temos de fato o material completo?

E quanto às alegações de que os concílios da igreja teriam eliminado documentos igualmente legítimos porque não gostavam da imagem que eles pintavam de Jesus? Como saber se os 27 livros do Novo Testamento representam o que há de melhor e mais confiável em termos de informação? Por que nossas Bíblias trazem os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, enquanto muitos outros evangelhos antigos — o Evangelho de Filipe, dos Egípcios, da Verdade, da Natividade de Maria — foram excluídos?

Era hora de nos voltarmos para a questão do "cânon", uma palavra de origem grega que significa "regra", "norma" ou "padrão" e que descreve os livros aceitos como oficiais pela igreja e incluídos no Novo Testamento.21 Metzger é considerado a principal autoridade nessa área.

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