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O testemunho de um traidor

Templeton e Yamauchi haviam mencionado Josefo, um historiador do século I bastante conhecido entre os acadêmicos, mas cujo nome não é familiar a muita gente hoje em dia.

— Diga-me algo a respeito dele — eu disse — e me explique de que modo o seu testemunho traz corroboração concernente a Jesus.

— Sim, é claro — respondeu Yamauchi enquanto cruzava as pernas e se acomodava melhor em sua cadeira. — Josefo era um historiador judeu muito importante do século I. Ele nasceu em 37 d.C. e escreveu a maior parte de suas quatro obras por volta do final do século I. Em sua autobiografia, defendeu seu posicionamento na guerra entre judeus e romanos, de 66 a 74 d.C. O fato é que Josefo rendera-se ao general romano Vespasiano durante o cerco de Jotapata, enquanto muitos de seus colegas preferiram o suicídio à rendição.

O professor deu um leve sorriso e prosseguiu.

— Josefo achava que não era o desejo de Deus que ele se suicidasse, por isso tornou-se defensor dos romanos.

Josefo me pareceu uma personagem interessante; queria mais detalhes a seu respeito para que pudesse compreender suas motivações e preconceitos.

— Gostaria que o senhor traçasse para mim o perfil de Josefo — eu disse.

— Ele era um sacerdote e um fariseu bastante egoísta. Sua obra mais ambiciosa recebeu o nome de Antigüidades, e nela ele contava a história do povo judeu, da criação até os seus dias. É provável que a tenha terminado em torno de 93 d.C. Por seu colaboracionismo com os romanos, Josefo era muito odiado por seus compatriotas judeus. Tornou-se, porém, bastante popular entre os cristãos, porque em seus escritos refere-se a Tiago, o irmão de Jesus, e ao próprio de Jesus.

Esse seria o nosso primeiro exemplo a corroborar a vida de Jesus fora dos evangelhos.

— Fale-me sobre essas menções — eu disse.

— Nas Antigüidades — continuou Yamauchi —, ele descreve como um alto sacerdote de nome Ananias aproveitou-se da morte de Festo, governador romano, que também é mencionado no Novo Testamento, para mandar matar Tiago.

Yamauchi inclinou-se em direção à estante, puxou um volume grosso e o folheou em busca de uma passagem que parecia saber perfeitamente onde estava.

— Ah, aqui está — disse ele. — "Convocou então uma reunião do Sinédrio e trouxe perante ele um homem chamado Tiago, o irmão de Jesus, chamado o Cristo, e alguns outros. Ele os acusou de transgredir a lei e condenou-os ao apedrejamento".33 Não conheço nenhum estudioso — disse Yamauchi categoricamente — que tenham conseguido colocar em dúvida essa passagem. L. H. Feldman observou que, se esse fosse um acréscimo cristão posterior ao texto, muito provavelmente teria um tom mais elogioso à conduta de Tiago.


Temos aqui, portanto, uma referência ao irmão de Jesus, que, ao que parece, teria se convertido ao ver Cristo ressuscitado, bastando comparar João 7.5 e 1Coríntios 15.7, que corrobora o fato de que, para algumas pessoas, Jesus era o Cristo, que significa "Ungido" ou "Messias".

"Viveu Jesus..."

Eu sabia que Josefo havia escrito um texto maior ainda sobre Jesus, o Testimonium flavianum. Sabia também que essa passagem era das mais polêmicas na literatura antiga porque, ao que parece, confirmava totalmente a existência de Jesus, seus milagres, morte e ressurreição. Porém, seria um documento autêntico? Ou teria sido adulterado ao longo dos anos em benefício das pessoas favoráveis a Cristo?

Pedi a Yamauchi sua opinião, e logo ficou claro que tinha tocado em um tema que o interessava profundamente. Ele descruzou as pernas e endireitou-se na cadeira.

— Essa é uma passagem fascinante — disse ele entusiasmado, inclinando-se para a frente com o livro nas mãos. — É verdade, é um texto controvertido.

Em seguida, leu-o para mim:
Nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome.34
A riqueza do material que confirma os fatos referentes a Cristo era facilmente perceptível.

— O senhor concorda em que o texto é controvertido. Qual foi a conclusão dos estudiosos sobre essa passagem? — perguntei-lhe.

— Os estudos a respeito desse material atravessaram três fases diferentes — respondeu Yamauchi. — Por motivos óbvios, os primeiros cristãos interpretaram-no como uma comprovação 100% autêntica sobre Jesus e sua ressurreição. Eles reverenciavam esse material. Depois, a passagem inteira foi posta em dúvida por alguns eruditos na época do iluminismo. Hoje em dia, porém, há um consenso notável tanto entre os estudiosos judeus quanto entre os cristãos de que essa passagem é totalmente autêntica, embora possa haver algumas interpolações.

Ergui as sobrancelhas, chocado.

— Interpolações? O senhor poderia explicar o que significa isso?

— Isso significa que os primeiros copistas cristãos inseriram algumas frases que um escritor judeu como Josefo jamais escreveria — disse Yamauchi.

— Por exemplo — prosseguiu, destacando uma frase do livro —, a primeira linha diz que "nesse mesmo tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio". Essa frase não costumava ser usada pelos cristãos em referência a Jesus, portanto deve ser de fato da autoria de Josefo. A frase seguinte, porém, diz: "... se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem". Isso implica que Jesus seria mais do que humano, o que deve ser uma interpolação.

Balancei afirmativamente a cabeça, para que Yamauchi soubesse que eu estava seguindo sua linha de raciocínio.

— Depois, lemos: "... suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios". Essa frase parece estar plenamente de acordo com o vocabulário que Josefo utiliza em outras passagens, e costuma ser considerada autêntica. Mas vem em seguida uma declaração ambígua: "Era o Cristo", o que parece ser uma interpolação.

— Isso porque — eu o interrompi — Josefo diz em sua referência a Tiago que Jesus "era chamado Cristo".

— Exato — disse Yamauchi. — É improvável que Josefo dissesse tão categoricamente aqui que Jesus era o Messias, enquanto em outras passagens ele diz simplesmente que Jesus era considerado o Messias por seus seguidores. O trecho seguinte da passagem, em que são mencionados o julgamento e a crucificação de Jesus e o fato de que seus seguidores ainda o amavam, não é incomum e é considerado genuíno. Em seguida, vem a frase: "No terceiro dia, ele apareceu diante deles com a vida restituída". Estamos novamente diante de uma declaração explícita de fé na ressurreição, portanto é pouco provável que Josefo seja de fato seu autor. Esses três elementos, ao que tudo indica, parecem ser interpolações.

— E a que conclusão chegamos? — perguntei-lhe.

Que esse trecho de Josefo, a princípio, dizia respeito a Jesus, mas sem esses três pontos que mencionei. Apesar disso, Josefo confirma informações importantes sobre Jesus: que ele foi o líder matirizado da igreja de Jerusalém e que foi um mestre sábio, tendo deixado vários discípulos, embora tenha sido crucificado por ordem de Pilatos, instigado por alguns dos líderes judeus.

A importância de Josefo

Embora essas referências fossem de fato provas independentes e importantes sobre a existência de Jesus, eu não conseguia entender por que um historiador como Josefo não teria procurado mais informações sobre uma figura de tal importância do século 1. Eu sabia que alguns céticos, como Michael Martin, filósofo da Universidade de Boston, fizeram a mesma crítica.

Quis saber de Yamauchi o que ele achava da afirmação de Martin, para quem Jesus Cristo nunca existiu: "Se Jesus tivesse existido, era de esperar que Josefo [...] tivesse dito algo mais a respeito dele [...] É surpreendente que Josefo o mencione de passagem [...] enquanto cita outras figuras messiânicas e João Batista dando vários detalhes a respeito deles".35

Yamauchi respondeu-me de modo enérgico pouco usual.

— De tempos em tempos, aparece alguém que tenta negar a existência de Jesus, mas isso é pura perda de tempo — disse em um tom exasperado. — Existem provas irrefutáveis de que Jesus existiu, portanto esses questionamentos hipotéticos são muito vazios e falaciosos. Eu, porém, responderia do seguinte modo: Josefo estava interessado em questões políticas e na luta contra Roma; assim sendo, João Batista era mais importante, porque ele parecia representar uma ameaça política maior que Jesus.

— Espere um instante. Não é verdade que alguns estudiosos retrataram Jesus como zelote, ou pelo menos como simpatizante deles? — interrompi, referindo-me a um grupo revolucionário do século i que se opunha politicamente a Roma.

Yamauchi descartou a objeção com um aceno de mão.

— Os próprios evangelhos não dão respaldo a essa suposição. Lembre-se de que Jesus não se opunha ao pagamento de impostos aos romanos. Portanto, como Jesus e seus seguidores não representavam nenhuma ameaça política, compreende-se perfeitamente que Josefo não se interesse por aquela seita — embora, retrospectivamente, suas observações tenham sido muitíssimo importantes.

— Então, na sua opinião, qual a importância dessas duas referências de Josefo?
— São altamente significativas — respondeu Yamauchi — principalmente depois que se comprovou a precisão de seus relatos sobre a guerra dos judeus. Eles foram corroborados, por exemplo, pelas escavações arqueológicas em Massada, bem como por historiadores como Tácito. Josefo é considerado um historiador bastante confiável; além disso, a menção que faz do nome de Jesus é tida por extremamente importante.

A "superstição perniciosa"

Yamauchi acabara de mencionar o historiador romano mais importante do século I. Eu queria saber o que Tácito tinha a dizer sobre Jesus e o cristianismo.

— O senhor poderia dar mais detalhes sobre essa corrobo-ração? — pedi-lhe.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Tácito deixou registrada o que é provavelmente a referência mais importante sobre Jesus fora do Novo Testamento — disse ele. — No ano 115 d.C, ele afirma explicitamente que Nero perseguiu os cristãos e fez deles bodes expiatórios para desviar as suspeitas de ter sido ele o culpado pelo incêndio que devastou Roma em 64 d.C.

Yamauchi levantou-se e foi até a estante, examinando-a em busca de um livro.

— Ah, sim, aqui está — disse ele, pegando um volume bem grosso e folheando-o até encontrar a passagem que queria. Depois, leu-a para mim:
... para acabar com os rumores, [Nero] acusou falsamente as pessoas comumente chamadas de cristãs, que eram odiadas por suas atrocidades, e as puniu com as mais terríveis torturas. Christus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério; mas, reprimida por algum tempo, a superstição perniciosa irrompeu novamente, não apenas em toda a Judéia, onde o problema teve início, mas também por toda a cidade de Roma.36
Eu já conhecia essa passagem, e estava ansioso para saber o que Yamauchi diria sobre a observação de um estudioso muito influente, J. N. D. Anderson.

— Anderson acha que Tácito, ao se referir a essa "superstição perniciosa" que Pilatos "reprimia, por algum tempo", mas que "irrompeu [...] novamente", referia-se, inconscientemente, à crença dos primeiros cristãos de Jesus ter sido crucificado, mas que se levantara da sepultura. O senhor concorda com ele? — perguntei-lhe.

Yamauchi refletiu durante alguns segundos.

— Essa é sem dúvida a interpretação de alguns estudiosos — disse ele como se, aparentemente, evitasse me dar sua opinião. Em seguida, porém, fez uma observação de fundamental importância. — Independentemente de a passagem se referir de maneira específica a isso ou não, ela nos mostra algo notável: não havia sina pior para alguém que a crucificação, e o fato de haver um movimento que se baseava em um homem crucificado precisava de explicação. Como o senhor explica que uma religião baseada na adoração de um homem que padeceu a morte mais ignominiosa possível tenha se difundido tanto? E claro que os cristãos vão dizer que foi por causa da ressurreição. Os que não crêem nela terão de formular uma teoria diferente. Em minha opinião, porém, nenhuma das duas alternativas é muito persuasiva.

Pedi-lhe que definisse melhor o peso dos escritos de Tácito com relação a Jesus.

— Trata-se de um depoimento importante da parte de uma testemunha que não simpatiza com o sucesso e com a difusão do cristianismo, baseado em uma personagem histórica, Jesus, crucificado por ordem de Pôncio Pilatos — respondeu ele. — É significativo o fato de que Tácito se refira à "multidão imensa" apegada de tal forma às suas crenças que preferia morrer a abjurá-la.



"Tratando-o como Deus"

Sabia que outro romano, Plínio, o Jovem, também havia se referido ao cristianismo em seus escritos.

— Ele corroborou alguns pontos importantes também, não é mesmo? — perguntei-lhe.

— Correto. Ele era sobrinho de Plínio, o Velho, o famoso enciclopedista que morreu na erupção do Vesúvio, em 79 d.C. Plínio, o Jovem, tornou-se governador da Bitínia, no Noroeste da Turquia. Grande parte de sua correspondência com seu amigo, o imperador Trajano, foi preservada até os dias de hoje.

Yamauchi pegou uma fotocópia de uma página de livro.

— No livro 10 de suas cartas — disse o professor —, ele se refere especificamente aos cristãos que prendeu.


Eles afirmaram [...] que sua única culpa, seu único erro, era terem o costume de se reunirem antes do amanhecer num certo dia determinado, quando então cantavam responsivamente os versos de um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros não cometerem maldade alguma, não deflaudarem, não roubarem, não adulterarem, nunca mentirem, e não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo.37
— Qual a importância dessa referência?

— Ela é muito importante. Foi escrita provavelmente em cerca de 111 d.C. e mostra como o cristianismo se espalhou rapidamente, tanto na cidade quanto no campo, em meio a todas as classes sociais, sejam elas compostas por mulheres escravas, sejam por cidadãos romanos, uma vez que ele menciona o fato de mandar para Roma os cristãos romanos para julgamento. Fala também da adoração a Jesus como Deus, que os cristãos mantinham padrões éticos elevados e que não se deixavam abalar facilmente em sua fé.



O dia em que a terra escureceu

Para mim, uma das referências mais problemáticas do Novo Testamento é a declaração dos evangelistas de que a terra ficou em trevas durante parte do tempo em que Jesus esteve pendurado na cruz. Não seria esse um mero recurso literário para enfatizar o significado da crucificação e, de forma alguma, uma ocorrência histórica verdadeira? Afinal de contas, se a terra tivesse se recoberto de trevas, não haveria ao menos uma menção desse fato extraordinário fora da Bíblia?

O dr. Gary Habermas, contudo, menciona um historiador chamado Talo que, em 52 d.C, escreveu uma história do mundo mediterrâneo desde a Guerra de Tróia. Embora o trabalho de Talo tenha se perdido, foi citado por Júlio Africano por volta de 221 d.C. e, ali, há menção das trevas de que falam os evangelhos! 38

— Será possível — perguntei — que temos aí uma corrobo-ração extrabíblica para o que declaram as Escrituras?

— Nessa passagem — Yamauchi explicou —, Júlio Africano diz que "Talo, no terceiro livro de histórias, explica o fato como um eclipse solar, embora, a mim, não me pareça uma explicação razoável". Portanto, ao que tudo indica, Talo confirma a ocorrência das trevas no momento da crucificação e atribui sua causa provável a um eclipse solar. Júlio Africano diz então que não era possível que fosse um eclipse o evento ocorrido na hora da crucificação.

Yamauchi aproximou-se mais da escrivaninha e pegou um pedaço de papel.

— Escute o que diz o estudioso Paul Maier sobre as trevas em uma nota de rodapé em seu livro Pontius Pilate [Pôncio Pilatos], de 1968:

Esse fenômeno, evidentemente, foi visível em Roma, Atenas e outras cidades do mediterrâneo. Segundo Tertuliano [...] foi um evento "cósmico" ou "mundial". Phlegon, um autor grego da Caria, escreveu uma cronologia pouco depois de 137 d.C. em que narra como no quarto ano das Olimpíadas de 202 (ou seja, 33 d.C), houve um grande "eclipse solar", e que "anoiteceu na sexta hora do dia [isto é, ao meio-dia], de tal forma que até as estrelas apareceram no céu. Houve um grande terremoto na Bitínia, e muitas coisas saíram fora de lugar em Nicéia". 39



Um retrato de Pilatos

A menção de Yamauchi a Pilatos me fez lembrar como alguns críticos puseram em dúvida a precisão dos evangelhos pelo modo como retratam esse líder romano. Enquanto no Novo Testamento ele é uma figura vacilante e disposta a se render às pressões da turba judia que pedia a crucificação de Jesus, outros relatos históricos o descrevem como um indivíduo obstinado e inflexível.

— Não haveria aí uma contradição entre a Bíblia e os historiadores seculares? — perguntei-lhe.

— A bem da verdade, não — disse Yamauchi. — O estudo de Maier sobre Pilatos mostra que seu protetor ou patrono era Sejanus e que Sejanus foi destituído do poder em 31 d.C, porque conspirava contra o imperador.

Fiquei atônito.

— Mas que relação tem uma coisa com a outra? — perguntei-lhe.

— Bem, com a destituição de Sejanus, a posição de Pilatos em 33 d.C, provável data da crucificação de Jesus, era de muita fragilidade — explicou Yamauchi. — Portanto, seria perfeitamente compreensível que Pilatos se mostrasse relutante em ofender os judeus naquele momento, entrando, em decorrência disso, em maiores conflitos com o imperador.
Isso significa que o relato bíblico conta com uma alta probabilidade de acerto a seu favor.40

Outros relatos judaicos

Depois de discutir basicamente a corroboração dos fatos sobre Jesus do ponto de vista dos romanos, procurei saber se outros relatos judaicos, com exceção dos de Josefo, apresentavam também alguma outra confirmação. Perguntei a Yamauchi se havia referências a Jesus no Talmude, importante obra do judaísmo concluída em torno de 500 d.C. e que incorpora a Mishná, compilada por volta de 200 d.C

— De modo geral, os judeus não costumam entrar em detalhes sobre hereges — disse ele. — Poucas passagens do Talmude falam de Jesus. Ele é considerado um falso messias que praticava artes mágicas e foi justamente condenado à morte. Repetem também os rumores de que Jesus era filho de um soldado romano e de Maria, insinuando com isso que havia algo de incomum em seu nascimento.

— Então — eu disse — mesmo do ponto de vista negativo essas referências judaicas confirmam algumas coisas sobre Jesus.

— Isso mesmo — disse Yamauchi. — O professor Wilcox faz a seguinte observação em um artigo publicado em uma obra de referência acadêmica:
A literatura judaica tradicional, embora mencione Jesus só muito raramente (e, seja como for, tem de ser usada com muita cautela), respalda a alegação do evangelho de que ele curava e fazia milagres, embora atribua tais atividades à magia. Além disso, ela preserva a lembrança de Jesus como professor, diz que ele tinha discípulos (cinco) e que, ao menos no período rabínico primitivo, nem todos os sábios haviam concluído se ele era "herege" ou "enganador". 41

Provas fora da Bíblia

Embora estivéssemos encontrando muitas referências a Jesus fora dos evangelhos, intrigava-me o fato de não acharmos muitas outras mais. Eu sabia que poucos documentos do século i haviam sido preservados, mesmo assim perguntei a Yamauchi:

— De modo geral, não devíamos encontrar mais referências sobre Jesus em escritos antigos fora da Bíblia?

— Quando as pessoas começam um movimento religioso, só depois de muitas gerações é que os registros escritos de suas atividades começam a aparecer — disse Yamauchi. — O fato é que temos uma documentação histórica de melhor qualidade sobre Jesus do que sobre o fundador de qualquer outra religião.

Essa observação me pegou desprevenido.

— É mesmo? — eu disse. — O senhor poderia dar mais detalhes?

— Por exemplo, embora as Gathas de Zoroastro, que datam de 1000 a.C, sejam consideradas autênticas, a maior parte das escrituras do zoroastrismo só foram postas por escrito no século III d.C. A biografia pársi mais popular de Zoroastro foi escrita em 1278 d.C. Os escritos de Buda, que viveu no século VI a.C, só foram registrados depois da era cristã. A primeira biografia de Buda foi escrita no século I d.C. Embora as palavras de Maomé (570-632) estejam registradas no Alcorão, sua biografia só foi escrita em 767, mais de um século depois de sua morte. Portanto, o caso de Jesus não tem paralelo, e é impressionante o quanto podemos aprender sobre ele fora do Novo Testamento.

Resolvi me dedicar ao tema para resumir o que havíamos aprendido sobre Jesus até o momento com base em fontes extrabíblicas.

— Suponhamos que não tivéssemos nenhum dos escritos do Novo Testamento e nenhum outro livro cristão — eu disse. — Na ausência deles, a que conclusão poderíamos chegar sobre Jesus com base em fontes não-cristãs da Antigüidade, como, por exemplo, Josefo, o Talmude, Tácito, Plínio, o Jovem, e outros?

Yamauchi sorriu.

— Ainda assim teríamos um volume considerável de provas históricas; na verdade, esses documentos nos dariam um tipo de esboço da vida de Jesus.

Depois prosseguiu, levantando um dedo para dar ênfase a cada observação que fazia.

— Saberíamos, em primeiro lugar, que Jesus era um professor judeu; segundo, muitas pessoas acreditavam que ele curava e fazia exorcismos; terceiro, alguns acreditavam que ele era o Messias; quarto, ele foi rejeitado pelos líderes judeus; quinto, foi crucificado por ordem de Pôncio Pilatos durante o remado de Tibério; sexto, apesar de sua morte infame, seus seguidores, que ainda acreditavam que ele estivesse vivo, deixaram a Palestina e se espalharam, assim é que havia muitos deles em Roma por volta de 64 d.C; sétimo, todo tipo de gente, da cidade e do campo, homens e mulheres, escravos e livres, o adoravam como Deus. Sem dúvida a quantidade de provas corroborativas extrabíblicas é muito grande. Com elas, podemos não somente reconstruir a vida de Jesus sem termos de recorrer à Bíblia como também ter acesso a informações sobre Cristo por meio de um material mais antigo do que os próprios evangelhos.

A corroboração de detalhes dos primeiros tempos

O apóstolo Paulo não conheceu a Cristo em vida, mas afirma ter encontrado o Cristo ressurreto e, posteriormente, ter conversado com algumas das testemunhas oculares para se certificar de que estava pregando a mesma mensagem que eles. Uma vez que o apóstolo começou a escrever suas cartas antes que os evangelhos fossem escritos, encontramos nelas relatos extremamente antigos sobre Jesus — tão antigos que ninguém pode alegar que tenham sido seriamente distorcidos por acréscimos lendários.

Luke Timothy Johnson, um estudioso da Universidade Emory, declara que as cartas de Paulo são "uma garantia externa preciosa" da "antigüidade e ubiqüidade" das tradições relativas a Jesus" 42 — eu disse a Yamauchi. — O senhor concorda com ele?

Já fazia algum tempo que estávamos conversando. Yamauchi levantou-se um pouco para esticar as pernas e depois sentou-se novamente.

— Não há dúvida de que os escritos de Paulo são os mais antigos do Novo Testamento — afirmou — e eles, de fato, fazem referências muito significativas à vida de Jesus.

— O senhor poderia detalhá-las? — perguntei-lhe.

— Bem, ele se refere ao fato de Jesus ser descendente de Davi, que ele era o Messias, que foi traído, tentado, crucificado por nossos pecados e sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia e que muitas pessoas o viram, inclusive Tiago, o irmão de Jesus que não crera nele antes da crucificação. É interessante também o fato de que Paulo não menciona algumas coisas muito importantes que aparecem nos evangelhos, por exemplo, as parábolas e os milagres de Jesus, concentrando-se na morte expiatória e na ressurreição de Cristo. Paulo achava que esses eram os fatos mais relevantes sobre Jesus, e, de fato, eles transformaram Paulo de perseguidor de cristãos no mais famoso missionário cristão, disposto a enfrentar todo tipo de aflição e privação por causa da fé. Paulo também confirma alguns aspectos importantes do caráter de Jesus: sua humildade, sua obediência, seu amor pelos pecadores, e assim por diante. Ele convoca os cristãos a ter a mente de Cristo, no segundo capítulo da carta aos Filipenses.
Essa é a famosa passagem em que Paulo provavelmente cita um antigo hino cristão que falava sobre o esvaziamento de Cristo, o qual, embora igual a Deus, tomou a forma de um homem, de um escravo, e sofreu o maior dos castigos: a crucificação. Portanto, as cartas de Paulo são um testemunho importante da divindade de Cristo. Ele se refere a Jesus como "o Filho de Deus" e "a imagem de Deus".

— O fato de Paulo —interrompi —, oriundo de uma cultura judaica monoteísta, adorar a Jesus como Deus é muito significativo, certo?

— Sim — disse ele —, e põe por terra uma teoria popular de que a divindade de Cristo teria sido incorporada posteriormente ao cristianismo por influência de crenças pagas. Não foi nada disso. Até mesmo Paulo, já naqueles primeiros tempos, adorava a Jesus como Deus. A confirmação de Paulo, é preciso que se diga, é de extrema importância. Temos ainda outras cartas de testemunhas oculares, Tiago e Pedro. Tiago, por exemplo, recorda-se de trechos do Sermão do Monte.

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