Gua da rocha espiritualidade marista



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ÁGUA DA ROCHA

ESPIRITUALIDADE MARISTA
fluindo da tradição de Marcelino Champagnat

ÁGUA DA ROCHA

Diretor:

Ir. A.M.Estaún


Comissão de Publicações:

Ir. Emili Turú, Ir. A.M.Estaún,

Ir. Onorino Rota e Luiz Da Rosa.
Original: Inglês
Redactores: Inglês: Ir. Marie Kraus, SND

Português: Ir. Salatiel Amaral, FMS

Ir. Alfredo Caetano Damian, FMS
Tradutor: Português: Ricardo Tescarolo
Grupo de comunicações:

Ir. Joadir Foresti, Ir. Jean Pierre Destombes,

Ir. Federico Carpintero e Ir. AMEstaún
Fotografias:

Ir. A.M.Estaún.

Arquivo Fotográfico do Instituto dos Irmãos Maristas.

Arquivo Fotográfico da “Fabbrica di San Pietro in Vaticano”.


Diagrama e fotolitos:

TIPOCROM, s.r.l.

Via A. Meucci, 28 – 00012 Guidonia (Roma)
Redação e Administração:

Piazzale Marcellino Champagnat, 2.

C.P. 10250 – 00144 ROMA

Tel. (39) 06 545 171

Fax (39) 06 54 517 217

E-mail: publica@fms.it

Web: www.champagnat.org
Edição:

Instituto dos Irmãos Maristas Casa Generalícia – Roma


Impressão:

Junho, 2007



ÁGUA DA ROCHA

ESPIRITUALIDADE MARISTA

fluindo da tradição de Marcelino Champagnat

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

1. SACIADOS NAS CORRENTES DE ÁGUA VIVA

2. CAMINHAMOS NA FÉ

3. COMO IRMÃOS E IRMÃS

4. ANUNCIAMOS A BOA-NOVA AOS POBRES

SONHAMOS NOVOS SONHOS

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

NOTAS

GLOSSÁRIO

APRESENTAÇÃO
6 de junho de 2007
Festa de São Marcelino
Prezados Irmãos e membros da Família Marista:
Os primeiros seguidores de Marcelino Champagnat amavam o Fundador como a um irmão maior e como a seu pai. Isso não causa estranheza, uma vez que o jovem sacerdote e seus discípulos tinham muitas coisas em comum.
João Maria Granjon, os Irmãos Audras, João Batista e João Cláudio, Antônio Couturier, Bartolomeu Badard, Gabriel Rivat e João Batista Furet eram moços despretensiosos, provenientes do campo, vivendo do fruto de seu trabalho.
Mais ainda, vinham, quase todos, sem estudos. Já sabemos que o próprio Fundador teve que lutar para superar as dificuldades acadêmicas e, no seminário, passou por maus momentos, devido às lacunas em seu preparo.
Mas, as raízes da lealdade e da dedicação dos jovens que Marcelino reuniu, em torno a si, eram muito mais profundas do que as semelhanças e a experiência que tinham, em seus respectivos contextos. Porque o Fundador era um homem enamorado de Deus e, com sua ajuda, seus primeiros Irmãos chegaram a sê-lo também. Eles, sob sua orientação, foram tomando progressiva consciência da presença de Deus e aprenderam a confiar em sua providência.
Marcelino ensinou-lhes também a tomar Maria por modelo, sabendo que esse era um caminho seguro, para centrarem suas vidas no Senhor.
Esforçaram-se desse modo por imitar o jeito de Maria. Plenamente fiéis à visão apostólica do Fundador, esses jovens fizeram sua a preocupação que o Fundador tinha pelos pobres de Deus e porfiavam por atendê-los.
Com o passar do tempo, seu modo de viver o Evangelho converteu-se como num reflexo do caráter e dos valores da pessoa que os inspirara. Anos mais tarde, muitos deles recordavam esse sacerdote tão decidido e corajoso quanto entusiasta e prático, desejoso de concretizar as idéias e impregnado do espírito de humildade. Aqui brota a fonte da espiritualidade simples e pés-no-chão, que ele gratuitamente partilhou com seus Irmãos.
Essa espiritualidade nascia da própria experiência de Marcelino em sentir-se amado por Jesus e chamado por Maria. Com os outros pioneiros maristas, estava convencido de que Ela suscitava a nova Sociedade, para tornar-se uma forma renovada de ser Igreja. Em Fourvière, comprometeram- se a converter esse sonho em realidade.
Recebemos a espiritualidade de Marcelino Champagnat e dos nossos primeiros Irmãos, como uma preciosa herança (C 49); atualizada em cada geração que nos precedeu, ela mantém sua dimensão marial e apostólica. Cabe-nos, hoje, encarná-la, nas muitas culturas e situações em que o Instituto se faz presente, atualmente.
Os Irmãos que participaram do Capítulo de 2001 pediram ao novo Conselho Geral a elaboração de um manual que tornasse a espiritualidade apostólica marista de Marcelino Champagnat acessível a uma audiência mais ampla. Os capitulares estavam conscientes de que, desde o começo do Instituto, essa espiritualidade fora um atrativo não apenas para os Irmãos de Marcelino, mas também para o laicato marista. Constitui- se um privilégio para mim apresentar o documento intitulado Água da Rocha: Espiritualidade Marista – fluindo da tradição de Marcelino Champagnat.
Este texto resulta do trabalho de muitas mãos e é fruto de muitas consultas. Sabemos que toda espiritualidade genuína é viva e dinâmica, e portanto, convém ter presente que, o que foi escrito nestas páginas, não representa a última palavra sobre o tema. Foi escrito, sim, para a nossa época e para este momento da história.
Numerosos são os que tiveram papel importante na elaboração do documento e de seus conteúdos, mas houve um grupo particular, integrado por Irmãos, leigos e outros membros maristas de vários países, que conduziu este projeto do começo ao fim. Meu agradecimento a quantos tomaram parte nesse trabalho, especialmente os membros da Comissão Internacional: Irmão Benito Arbués, FMS, Irmão Bernard Beaudin, FMS, Irmão Nicholas Fernando, FMS, Irmã Vivienne Goldstein, SM, Irmão Maurice Goutagny, FMS, Irmão Lawrence Ndawala, FMS, Irmão Spiridion Ndanga, FMS, Irmão Graham Neist, FMS, Bernice Reintjens, Agnes Reyes, Vanderlei Soela, Irmão Miguel Ángel Santos, FMS, Irmão Luis García Sobrado, FMS, e de maneira especial o Irmão Peter Rodney, FMS, membro do Conselho Geral, que coordenou os trabalhos do grupo.
Como dizemos, a espiritualidade apostólica marista é uma experiência viva e dinâmica de Deus, que se orienta, ao mesmo tempo, à contemplação e à ação. Transformados pelo amor de Jesus e chamados por Maria, somos enviados em missão, a anunciar a Boa Nova de Deus, às crianças e aos jovens marginalizados da sociedade.
Aqui nasce o título deste texto: Água da Rocha. Quem conhece a história de Marcelino sabe que ele construiu a casa de l´Hermitage com suas próprias mãos, aproveitando a rocha que havia cortado. Aágua do Gier, riacho que percorre a propriedade de l´Hermitage, foi uma fonte importante de vida para a comunidade nascente. Ao recolher essas duas imagens, o documento Água da Rocha reserva para a espiritualidade apostólica marista de Marcelino, o lugar central e merecido na vida de cada um de nós e de todos os que chegarem a conhecer e a amar o fundador, como os primeiros discípulos seus, há tantos anos. Desejo que a leitura destas páginas lhes possibilite o aprofundamento da experiência interior e pessoal, e os ajude a crescer na fé.
Com afeição,


Irmão Seán D. Sammon, FMS


Superior Geral
INTRODUÇÃO

Espiritualidade marista.
Marcos de desenvolvimento de nossa espiritualidade.
Como ler este documento.

Nosso mandato
No ano de 2001, o 20o Capítulo Geral do Instituto dos Irmãos Maristas recomendou que fosse elaborado um texto que contribuísse para a reflexão sobre nossa espiritualidade, nos moldes do documento Missão Educativa Marista publicado em 1998.1
O Conselho Geral considerou que o documento aprofundaria nosso entendimento e nossa vivência da Espiritualidade Marista, bem como nossa estima por ela. O texto não pretende ser a palavra definitiva sobre nossa espiritualidade, mas, elucidar o sentido que, hoje, ela tem para nós. É, pois, essencial que o documento narre a história de nossa busca de Deus, de que modo ela nasceu, criou raízes e floriu. Ele se propõe revelar a riqueza de nossa espiritualidade como dom oferecido à Igreja e ao mundo, além de promover nosso crescimento na fé, quer em nível pessoal, quer nas diferentes comunidades em que nos inserimos. O documento visa ainda ajudar a desenvolver uma espiritualidade apostólica e mariana, em nosso apostolado.
Espiritualidade marista
Ao longo da existência, nossa realidade espiritual interage dinamicamente com a experiência vital. De um lado, à medida que nos integramos à vivência cotidiana, vai-se formando o que entendemos ser nossa espiritualidade. De outro, esta espiritualidade constrói o modo como compreendemos o mundo, as pessoas, Deus e como nos relacionamos com eles.
Quando mencionamos a espiritualidade cristã, referimo-nos ao fogo inextinguível que arde em nós e nos impregna da paixão pela construção do Reino de Deus.2 Ela representa a força propulsora de nossa vida, ao permitirmos que o Espírito de Cristo nos conduza. Todo cristão que vive isso, cresce em santidade.3
Vivemos a espiritualidade cristã de um modo marial e apostólico próprio.4 É uma espiritualidade encarnada, inspirada em Marcelino*.5 Ela foi desenvolvida pelos primeiros Irmãos, que a transmitiram a nós, qual herança preciosa.6
Embora partilhemos das mesmas raízes com outros modos de vida Marista*, nós nos identificamos por uma espiritualidade peculiar. Ela é continuamente renovada pela ação do Espírito, que conduz nossos esforços pessoais e comunitários para encarná-la em situações de mudança e nas diferentes culturas.7 A espiritualidade fortalece nossa união e constitui elemento decisivo para a vitalidade de nosso ser-em-missão.8 Portanto, quando empregamos o termo “Marista,” neste documento, estamos nos referindo exclusivamente às pessoas cuja espiritualidade se identifica com a tradição de Marcelino.
Marcos do desenvolvimento de nossa espiritualidade
Marcelino foi agraciado com um relacionamento profundo com Jesus e Maria. Nossa espiritualidade teve início com esse dom.
Começando com a intuição original, inspirada pelo Espírito e, influenciado por sua própria personalidade e pelos acontecimentos de sua vida, ele e a primeira comunidade de irmãos viveram um carisma*. Em razão da fidelidade criativa, esse carisma começou a se expressar como espiritualidade.
Por ocasião da morte de Marcelino, em 1840, essa espiritualidade já estava bem definida, embora não sistematizada. Tempos depois, seus discípulos começaram a elaborar alguns textos com o intuito de apresentá- la, sendo os mais significativos: Vida de Marcelino Champagnat (1856), Biographies de quelques Frères (1868) Avis, Leçons, Sentences et Instructions (1868) e Annales de l’Institut (Iniciados em 1884 pelo Irmão Avit).
Ao propormos uma visão contemporânea da espiritualidade Marista, seguimos o exemplo das gerações anteriores à nossa. O Manuel de Piété (1855) foi o primeiro texto a consolidar uma compreensão da espiritualidade de Marcelino e da primeira geração de Irmãos, em especial no que se refere ao modo de se relacionarem com Jesus e Maria.
Ele ilustrava essa espiritualidade com exemplos práticos, focalizando as virtudes consideradas características de um Irmão Marista e necessárias à “perfeição”. Naturalmente, esse trabalho refletia o clima, de certo modo austero, daqueles tempos.
Os Superiores e os Capítulos Gerais subseqüentes continuaram a refletir sobre a melhor maneira de viver essas virtudes, em circunstâncias tão instáveis quanto as da secularização de 1903, das duas guerras mundiais e de várias revoluções e perseguições. Os sinais dos tempos impõem uma renovação da reflexão sobre nossa espiritualidade, para que continue a constituir-se guia para nossa vida e missão.
Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, prevalecia em toda a Igreja uma visão ascética de espiritualidade, aí incluindo-se nosso Instituto. Tal concepção dava pouca ênfase às dimensões vivenciais e místicas de espiritualidade.
O Vaticano II* nos encorajou a colocar esses elementos no núcleo de nossa espiritualidade. A vocação universal à santidade foi o convite para que religiosos e leigos participassem do mistério de Deus e da Igreja. Com isso, a palavra “mística”* recuperou o sentido original de um relacionamento habitual com Deus. O presente documento procura conscientemente incorporar e destacar a dimensão mística de nossa espiritualidade. O Concílio também solicitou aos Institutos Religiosos que promovessem sua renovação à luz do carisma fundacional, dando impulso ao estudo sistemático do nosso patrimônio e da nossa herança espiritual.
Após o Manuel de Piété (1855), foi publicado o texto Oração-Apostolado-Comunidade, fruto do 17º Capítulo Geral (1976) que sintetizou nossa concepção de espiritualidade. Aquele documento destacou a integração das diferentes dimensões de nossa vida. O Ir. Basílio Rueda, então Superior Geral (1967-1985), mediante uma produção escrita abrangente e profunda, enriqueceu nossa espiritualidade renovando a expressão de seus elementos carismáticos, inscritos nas correntes teológicas e espirituais nascidas do Vaticano II. Em sua revisão das Constituições, o 18º Capítulo Geral (1985) descreveu a nossa espiritualidade como mariana e apostólica.9 Desde então, os Superiores Gerais, bem como o XIX (1993) e o XX (2001) Capítulos Gerais continuaram a desenvolver o sentido e as implicações dessa espiritualidade mariana e apostólica.10
Como ler este documento
A novidade deste texto é o fato de se dirigir tanto a Irmãos quanto a Leigos Maristas. Ele reflete a convicção de que os dois grupos partilham um carisma que nasceu de Marcelino. Eles se nutrem da mesma espiritualidade, embora em diferentes circunstâncias de vida.
Escrever para os dois grupos representou o desafio de utilizar linguagem e imagens que tivessem sentido para ambos. Por isso, consideramos importante valer-nos de conceitos familiares que integrassem a herança e a tradição espiritual Marista. Por exemplo, empregamos palavras como “fraternidade” e “comunidade” com amplo significado. Ao usar “comunidade”, tivemos em mente todas as comunidades de que os Maristas participam: famílias, comunidades religiosas, diferentes formas de comunidades educativas, paroquiais, etc. Logo, não restringimos esse termo apenas aos leitores Irmãos. As expressões “irmão” e “fraternidade” representam símbolos poderosos de um tipo especial de relacionamento. Elas são geralmente usadas não apenas para se referir a Irmãos professos, mas assumem um sentido mais inclusivo, procurando descrever um tipo de relacionamento próprio de todos os Maristas. Os conceitos seguidos de um asterisco (*) estão relacionados em um Glossário no final do documento para que o leitor possa consultar qual o seu sentido.
Este documento compreende cinco partes. Aprimeira apresenta os elementos que identificam a Espiritualidade Apostólica Marista, cuja origem se encontra na experiência e no espírito de Marcelino e de nossa comunidade fundadora. Utilizando a imagem de uma peregrinação ou jornada, para descrever o desenvolvimento espiritual, as partes subseqüentes apresentam os modos como pode ser vivida a nossa espiritualidade: em nossa busca de Deus e pelo sentido de nossa vida (2); em nossos relacionamentos (3) e na vida apostólica (4). Descrevem de que maneira cada uma dessas dimensões essenciais pode enriquecer e desenvolver nossa vida espiritual. A parte final convida a olharmos um futuro esperançoso, inspirado no Magnificat de Maria.11Aesperança possibilita que enfrentemos os desafios contemporâneos com a coragem dos santos Maristas que nos precederam. Empreendemos a caminhada com a convicção de que somos herdeiros de uma tradição espiritual de valor.
Para nós, membros da Comissão, traduzir a nossa herança em palavras, foi uma jornada espiritual abençoada. Passamos muitas horas juntos, e com outros Maristas, discutindo os elementos essenciais de nossa espiritualidade, as fontes que a nutrem e os modos como integra as dimensões centrais de nossa vida. Aprendemos uns com os outros na reflexão sustentada pela oração, na partilha cheia de entusiasmo e numa respeitosa atenção.
O documento pretende ser não tanto um texto a ser lido, mas um companheiro de nossa jornada espiritual. Devemos refletir sobre ele e trabalhar com ele, não porque represente uma proposta definitiva sobre nossa espiritualidade, mas principalmente por constituir uma referência para o desenvolvimento de nossa espiritualidade. Nós aqui lançamos o convite a que todos rezem com este texto. Que ele possa nos ensinar a chegar a Deus, a cultivar nossos relacionamentos e a realizar nossa missão do jeito Marista Acreditamos que a reflexão orante com outros Maristas é mais eficaz, considerando quanto fomos abençoados por esse modo de abordar o texto.
Esperamos que o documento contribua para enriquecer a oração, provoque reflexão e inspire a ação. Que ele pavimente o caminho que nos conduz às Fontes de Água Viva.
Comissão Internacional de Espiritualidade Apostólica Marista
Roma, 2007.

1. SACIADOS NAS CORRENTES DE ÁGUA VIVA

Quem tiver sede, venha a mim e beba.
Hão de jorrar rios de água viva do coração de quem crê em mim.
Tornamo-nos rios de água viva.

Quem tiver sede, venha a mim e beba 12

1. A história de nossa espiritualidade é de paixão e misericórdia, paixão por Deus e misericórdia pelas pessoas.
2. Nossas origens remontam ao cordial relacionamento de um jovem sacerdote com um grupo de rapazes que viveram em uma época de grande instabilidade social. O sacerdote era Marcelino Champagnat*, e os rapazes eram Jean-Marie Granjon, Jean Baptiste Audras, Jean-Claude Audras, Antoine Couturier, Barthélemy Badard, Gabriel Rivat e Jean-Baptiste Furet. Eles constituíram a nossa comunidade fundadora em La Valla*.
3. Homens simples e sem formalidades, viviam com muita simplicidade e grande união. Seus dias eram dedicados a aprender a ler, escrever e ensinar, bem como ao trabalho manual, que os sustentava economicamente. Viviam no meio do povo, partilhando a realidade.
4. Com o povo, sentiam a presença de Deus de modo crescente e mais profundo, e aprendiam a confiar na Providência Divina. Juntos descobriram o anseio por Jesus e por segui-lo do jeito de Maria. Cultivaram o amor à Santíssima Virgem como caminho para centrar o coração em Jesus. Estimulavam-se reciprocamente em ajudar as pessoas necessitadas.
5. Aexemplo de Maria, “partindo apressada em direção a uma cidade na região montanhosa”,13 todas as semanas eles se dirigiam aos vilarejos, nos arredores da cidade, procurando tornar Jesus conhecido e amado. Davam especial atenção às crianças pobres e acolhiam-nas em casa.14
6. O jeito como o grupo vivia o Evangelho refletia o caráter, os valores e a espiritualidade de seu líder, Marcelino Champagnat. Essa espiritualidade era fortemente influenciada por sua própria personalidade. Os primeiros discípulos lembravam com afeto o Marcelino que haviam conhecido: aberto, franco, resoluto, corajoso, entusiasta, determinado e justo.15 Sua vida fora a expressão de uma pessoa com senso prático, humilde e de ação. Isso permitira-lhe que, valendo-se de uma diversidade de fontes, construísse uma espiritualidade simples e prática.16
7. Uma das principais influências na formação da espiritualidade de Marcelino foi a experiência pessoal de ser intensamente amado por Jesus e especialmente acolhido por Maria. Um incidente, ocorrido em 1823 (o “Lembrai-vos na neve”*), foi muito significativo para Marcelino e seus Irmãos. Marcelino e Estanislau perderam-se, em meio a uma terrível tempestade de neve. Com o companheiro de viagem desfalecido a seus pés, Marcelino pensou: “Se Maria não vier em nosso auxílio, estaremos perdidos”. 17 Então, colocando a vida nas mãos de Deus, rezou o Lembrai- vos. A invocação a Maria obteve-lhe uma resposta milagrosa. Marcelino e os primeiros Irmãos descobriram, no incidente, uma profunda realidade: a prova de que partilhavam o mesmo projeto que Deus confiara a Maria.
8. Marcelino também tinha consciência do amor de Jesus e de Maria pelos outros. Isso lhe inspirou uma paixão de apóstolo. Dedicou a vida a partilhar esse amor. No encontro com o jovem agonizante, Jean- Baptiste Montagne*, constatamos a que ponto Marcelino ficou perturbado por encontrar um menino, no final da vida, sem conhecer o amor que Deus lhe tinha.
9. Esse acontecimento teve, para ele, o sabor de um apelo de Deus. De imediato, um profundo sentimento de compaixão tomou conta dele, impulsionandoo a colocar em ação o projeto fundacional: “Precisamos de Irmãos!”18 Confirmou-se, então, o projeto de oferecer resposta às necessidades da juventude, pela ação de um grupo de evangelizadores. Esse grupo levaria a Boa-Nova de Jesus às pessoas que viviam à margem da Igreja e da sociedade. Marcelino fora ordenado sacerdote, havia apenas quatro meses.
10. Marcelino respondeu com entusiasmo e de modo prático às necessidades que observava ao seu redor. Essa atitude emergiu do Projeto*, colocado sob a proteção de Maria em Fourvière*19 e partilhado também pelos pioneiros da Sociedade de Maria. Juntos sonharam um jeito renovado de ser Igreja. Com Jean-Claude Colin*, Jeanne-Marie Chavoin* e outros fundadores Maristas*, Marcelino compartilhou a convicção de que Maria os chamava a oferecerem resposta às necessidades da França pós-revolucionária.
11. Esses primeiros Maristas tinham consciência de que o Projeto* era parte da missão de Maria: dar Cristo à luz e estar com a Igreja, em seu nascimento. Era um trabalho que incluiria todas as dioceses do mundo e se estruturaria qual uma árvore com diversas ramificações, congregando leigos, sacerdotes, religiosas e religiosos, para viver um novo modo de ser Igreja.
12. Aespiritualidade Marista, nascida com Marcelino e sua comunidade fundadora, se enriqueceu ao longo das sucessivas gerações de seguidores tornando- se, hoje, fonte de água viva para o mundo. As futuras gerações contribuirão ainda mais para essa espiritualidade. Com Marcelino, sabemos que Maria continuará a orientar o desenvolvimento de nossa identidade Marista.20
13. Cremos que o carisma* de Marcelino é uma graça concedida à Igreja e ao mundo, graça que somos convidados a viver e a desenvolver, à medida em que aprofundarmos nossa participação no mesmo carisma. Aespiritualidade Marista descreve e expressa esse carisma*, encarnado nos diversos tempos e lugares da história. Como acontece com todos os carismas autênticos, ele é dom do Espírito Santo colocado sob nossos cuidados e dedicado à construção e à unificação da Igreja, Corpo Místico de Cristo.
14. Ao vivermos nossa espiritualidade, nossa sede é saciada. Ao mesmo tempo, tornamo-nos “água viva” para os outros.

Hão de jorrar rios de água viva do coração de quem acredita 21
15. Inspiramo-nos na visão e na vida de Marcelino e seus primeiros discípulos, nesta jornada que nos conduz a Deus. Partilhando essa peregrinação com tantas pessoas, tomamos consciência de nosso estilo de vida. Recebemos a graça de fazer a experiência de ser, com Maria, amados profundamente por Jesus. Daí emergem as características peculiares de nosso modo de seguir Champagnat.
A presença e o amor de Deus
16. Nós, seguidores de Marcelino e de seus primeiros discípulos, estamos impregnados do mesmo dinamismo interior. Vivemos um modo de ser e fazer, movidos pelo mesmo espírito original. Vamos, dia após dia, aprofundando o exercício da presença amorosa de Deus em nós mesmos e nos outros. Essa presença de Deus se manifesta no sentimento profundo de reconhecer-se pessoalmente amado por Deus e na convicção de que Ele nos acompanha, bem de perto, em nossa experiência humana.
Confiança em Deus
17. O relacionamento de Marcelino com Deus, combinado com a consciência de suas limitações, explica sua inabalável confiança em Deus. Aprofundidade dessa confiança impressionava aqueles que com ele trabalhavam e escandalizava os que julgavam imprudentes as ações que ele empreendia. Sentia, no seu jeito humilde, a presença viva de Deus, o que lhe dava coragem e confiança. Não ofendamos a Deus pedindo-Lhe pouco. Quanto maior o nosso pedido, mais O agradaremos.22 Algumas freqüentes invocações de Marcelino - Se Deus não construir a casa...23 e Sabeis, Senhor!24 - eram expressões espontâneas de sua ilimitada confiança em Deus.
18. Devemos empenhar-nos em cultivar nosso relacionamento com Deus em tal medida que ele se torne para nós fonte diária de renovado dinamismo espiritual e apostólico, como o foi para Marcelino. Essa vitalidade nos tornará ousados, a despeito de nossas limitações. Inspirados na experiência de Marcelino, aceitamos os mistérios da vida com muita confiança, abertura e generosidade.
Amor a Jesus e ao seu Evangelho
19. Tornar Jesus conhecido e amado: eis o sentido da nossa vocação e a finalidade do Instituto. Se falharmos nesse propósito, nosso Instituto será inútil.25 Com tais palavras, Marcelino expressou, com clareza, sua convicção, que deve ser a convicção constante e crescente de todos os Maristas hoje: a centralidade de Jesus em nossa vida e na missão.26
20. Para nós, Jesus é a face humana de Deus.27 Nós O encontramos de modo especial nos três lugares Maristas onde Jesus nos revela Deus.28
21. No Presépio, encontramos a inocência, a simplicidade, a ternura e, mesmo a fragilidade de um Deus que toca os corações mais insensíveis. [...] Não há lugar para medo de um Deus que se tornou criança.29 Relacionamonos com o Deus, que armou sua tenda entre nós e a quem podemos chamar de irmão.
22. Ao pé da Cruz, surpreendemo-nos com um Deus que nos amou sem reservas. Encontramo-nos com um Deus que partilha o sofrimento físico e psicológico, a traição, o abandono e a violência que afligem a humanidade, e que transforma, porém, essas experiências. Com isso, penetramos no mistério do sofrimento que redime e aprendemos a humilde fidelidade do amor.30 Cristo crucificado é a expressão mais radical de um Deus que é Amor.
23. O Altar, com a Eucaristia, é o lugar privilegiado de comunhão com o Corpo de Cristo: para ser um com todos e aprofundar nosso relacionamento, com a presença viva de Jesus em nós. A celebração da Eucaristia e a oração diante do Santíssimo Sacramento eram, para Marcelino, exercícios intensivos da presença de Deus31, do mesmo modo que o são para os Maristas de hoje. Fonte e culminância da vida cristã, a Eucaristia nos coloca no centro da espiritualidade Marista.
24. Esses lugares Maristas privilegiados, além de instâncias de encontro com o amor de Jesus, são também espaços de encontro com os pobres.32 No Presépio, sensibilizamo-nos com a situação de pobreza e fragilidade das crianças e dos jovens, principalmente os menos favorecidos. Na Cruz, associamo-nos às pessoas atingidas pelo fracasso e pelo sofrimento e àquelas que lutam contra a fome, em favor da justiça e da paz. No Altar, entramos em comunhão com o amor de Jesus que nos conduz a uma relação profunda com os pobres. Vamos a eles, que se convertem então em verdadeiros amigos e irmãos nossos. Abrimos nossas casas aos pobres e partilhamos com eles nossa presença, tempo e recursos.
Do jeito de Maria
25. O relacionamento de Marcelino com Maria, a quem se referia como a “Boa Mãe”*, foi marcado por profunda afeição e total confiança, pois estava plenamente convencido de que o projeto que empreendera, na verdade era dela. Escreveu certa vez: Sem Maria não somos nada; com Maria temos tudo, porque Maria sempre tem seu adorável Filho nos braços e no coração.33 Essa convicção permaneceu com ele por toda a vida. Jesus e Maria eram o tesouro no qual Marcelino aprendera a depositar seu próprio coração. Esse relacionamento íntimo contribuiu para o dimensionamento da espiritualidade mariana. Em nossa tradição, a expressão “Recurso Habitual”* traduz a plena confiança em Maria. O lema “Tudo a Jesus por Maria; tudo a Maria para Jesus”, atribuído ao fundador por seus biógrafos, revela o estreito relacionamento entre filho e mãe, atitude de confiança de Champagnat em Maria, atitude que somos convidados a viver.
26. Participamos da maternidade espiritual de Maria34 ao assumirmos nossa responsabilidade em levar os valores cristãos às pessoas com quem partilhamos nossa vida. Contribuímos para o crescimento da comunidade eclesial, cuja comunhão fortalecemos pela oração fervorosa e pelo generoso serviço ao próximo.
27. Maria inspira nossas atitudes para com os jovens.35 Ao contemplá-la nas Escrituras, impregnamonos de seu espírito. Vamos, sem hesitação, ao encontro dos jovens lá onde eles se encontram, anunciando-lhes a fidelidade, a justiça e a misericórdia de Deus.36 Relacionando-nos com jeito mariano com os jovens, tornamo-nos a face de Maria para eles.
28. Desde o tempo de Marcelino, seus discípulos empenharam-se em fazer Maria conhecida e amada. Hoje, continuamos convencidos de que, seguir Jesus do jeito de Maria, é um modo privilegiado de viver em plenitude o cristianismo. De coração compassivo, partilhamos com as crianças e os jovens essa experiência e convicção e ajudamo-los a viver a face maternal da Igreja.
29. A Igreja foi aprofundando sua compreensão sobre o papel de Maria como Primeira Discípula. Desde a fundação, os maristas vêm experienciando um relacionamento cada vez mais importante com Maria, sua “Irmã na Fé”, uma mulher que ficou confusa diante de Deus, desafiada a confiar e aceitar sem conhecer todas as respostas, e cuja vida de fé foi marcada ‘com o pó da estrada em seus pés’.37
Espírito de família
30. Marcelino e os primeiros Irmãos viviam unidos de coração e mente. Era um relacionamento marcado por grande afeto e compreensão. Em suas ponderações sobre o modo de viver como irmãos, consideravam significativo comparar o espírito de sua comunidade, com o de uma família. Ao modo de nossas primeiras comunidades, espelhamo-nos na família de Nazaré para desenvolver as atitudes que tornam realidade o espírito de família: amor e perdão, entreajuda e apoio, esquecimento de si, abertura aos outros e alegria.38 Esse tipo de relacionamento tornou-se a característica do nosso modo de ser Marista.
31. Esse espírito de família fez surgir uma espiritualidade fortemente relacional e afetiva. O jeito preferido de Marcelino referir-se a Deus e a Maria era o de fazer analogias com os vínculos familiares: o “Sagrado Coração” de Jesus e de Maria, a “Nossa Boa Mãe”. Marcelino estimulava os Irmãos a terem, entre si e com seus educandos, um relacionamento inspirado no convívio amoroso entre pais e filhos, no aconchego familiar. Hoje, com a crescente presença feminina no ambiente Marista, as imagens de irmãs e mães enriqueceram o jeito marista de se relacionar e que influencia nosso apostolado. Nosso relacionamento é essencialmente o de irmãs e irmãos.
32. Onde quer que os seguidores de Champagnat se encontrem, unidos pela missão, é possível reconhecer o “espírito de família” como jeito marista de viver em comunidade. Sua fonte é o amor que o Senhor Jesus tem por todos os seus irmãos e irmãs — por toda a humanidade, enfim. Com esse espírito, fazemos a experiência de pertença e de união, na missão.
Uma espiritualidade de simplicidade
33. Ahumildade, herança de Marcelino e dos primeiros Irmãos, está no cerne de nossa espiritualidade. Ela se manifesta na simplicidade de atitudes, especialmente na maneira de nos relacionarmos com Deus e com os outros. Esforçamo-nos por ser pessoas íntegras, autênticas, abertas e transparentes em nossos relacionamentos.
34. Essa atitude se espelha na experiência de Marcelino e seus primeiros Irmãos. O clima formativo que ele criou, inspirava-se no ambiente amoroso da família, numa pequena cidade do interior. De sua mãe, Marie Thérèse Chirat*, aprendeu a confiar na Providência divina; de sua tia, Louise Champagnat*, a entregar-se, com confiança filial nas mãos de Deus. Com seu pai, Jean-Baptiste Champagnat*, cresceu na sinceridade e na honestidade. Foi aprendendo a ser humilde e seguro diante das alegrias e desafios da vida. Consciente de suas próprias limitações, considerou graças de Deus todas as experiências, pelas quais passou, sempre disposto a acolher, com total confiança, a vontade divina. A primeira geração de Irmãos foi formada por jovens da mesma origem de Marcelino. Todas essas circunstâncias providenciais contribuíram para que ele desenvolvesse uma espiritualidade prática e sem complicações.39
35. Os jovens são atraídos por essa espiritualidade da simplicidade. As imagens que lhes oferecemos de Deus, bem como a linguagem, os exemplos e os simbolismos que empregamos, são tocantes e acessíveis. Quanto mais nossa evangelização e nossa catequese forem inspiradas pela espiritualidade marista, mais eficazes serão.
36. A simplicidade impregna a vida espiritual dos discípulos de Marcelino. Procuramos conhecer nossas virtudes e fraquezas e humildemente aceitamos ajuda. Vivemos, cada dia, num crescendo de paz com a pessoa que somos e que Deus criou.
37. Aceitamos as pessoas como elas são e nos aproximamos delas com sinceridade e generosidade, procurando sempre saber como se sentem conosco. Oferecemos com boa vontade nosso perdão incondicional, e sempre tomamos a iniciativa da reconciliação 40.
38. O mesmo espírito nos encoraja a assumir um jeito simples de viver. Isso implica evitarmos o consumismo, o acúmulo do supérfluo e o desperdício. Sentimo-nos responsáveis pela criação, dom precioso de Deus para a humanidade. Essa atitude nos encoraja a partilharmos as urgentes ações que algumas pessoas empreendem em favor da preservação do meio ambiente, intensificando a harmonia entre a humanidade e a natureza e colaborando com o Criador para a plena realização da Sua criatura.
39. Nosso desejo de estar em comunhão com a natureza manifesta-se de diversas maneiras. A tradição Marista valoriza de modo particular o trabalho manual, pois ele nos coloca em contato direto com a criação, com os outros seres vivos e com todas as coisas. Ele nos impõe [...] o cuidado na preservação e na transformação da natureza. E nos ensina [...] a sermos pacientes e organizados.41 Esse cuidado destaca o valor do trabalho manual e o exemplo dos povos indígenas que vivem em respeitosa e harmoniosa interação com a Terra.
40. O amor ao trabalho manual revela uma atitude própria do coração do Marista e reflete valores como a frugalidade, a laboriosidade, a disponibilidade e a dedicação. Enfim, um estilo simples de vida. Esse modo de viver vem da tradição marista de garantir o próprio sustento. A opção por uma vida de simplicidade contribui para tornar efetivo nosso serviço mais autêntico aos pobres.
41. Tudo isso nos dá a certeza de que devemos trilhar o caminho da simplicidade, como o fez Marcelino. Dirigimo-nos a Deus com transparência, honestidade, abertura e confiança. Conscientemente, procuramos formas simples de ajudar-nos, nesse empreendimento.
Tornamo-nos rios de água viva 42
42. Aépoca atual se caracteriza pela sede de espiritualidade. Nós, discípulos de Marcelino, cremos que nossa espiritualidade é uma graça de Deus a ser partilhada com a Igreja e com o mundo. Se conseguirmos ser testemunhas da vitalidade dessa espiritualidade, em nosso dia-a-dia, as pessoas, especialmente os jovens e as crianças, sentir-seão igualmente atraídas e convidadas a participarem dela, aceitando-a como um jeito próprio de se tornarem, também elas, “água viva”.
43. Ahistória de nossa espiritualidade é, na verdade, muito simples. É a história de mulheres e homens que sentiram uma sede que só Deus é capaz de saciar. E tendo bebido com sofreguidão, sentem-se impregnados do próprio desejo de Jesus de oferecer sua vida, em favor da Boa-Nova de Deus. Tocados, assim, pelo Espírito e movidos pelo próprio anseio de Deus de trazer vida ao mundo, tornamo-nos rios de água viva, que jorram das dimensões pessoais, comunitárias e apostólicas de nossa existência.
2. CAMINHAMOS NA FÉ

O anjo do Senhor anunciou a Maria...
Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.
Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus.
Virá sobre ti o Espírito Santo.
Bem-aventurados os que crêem...
Eis aqui a serva do Senhor.
Faça-se em mim segundo a Tua palavra.

O anjo do Senhor anunciou a Maria 43
44. Avida é um mistério que vai aos poucos se revelando. No entanto, mesmo após muito tempo, ela permanece misteriosa. A contínua revelação de nossas dimensões vitais mais profundas é um processo dinâmico, instigante e desafiador que nos convida a não abandonar a busca.
45. Ao longo de nossa existência experimentamos a beleza e o desencanto, a certeza e a dúvida. Há momentos em que estamos cheios de ânimo, mas outros, em que nos abatemos profundamente. Do mesmo modo como nos fascina esse maravilhoso mistério, igualmente, ele nos assusta.
46. Nossos corações almejam a felicidade, e acreditamos que é possível amar e partilhar as bênçãos da vida. Mas, somos atingidos pelo sofrimento e pela desconfiança, e então, hesitamos em assumir nossos relacionamentos e envolvimentos.
47. Vivemos uma época de transformações culturais e sociais, incrivelmente abrangentes e rápidas. As fronteiras se ampliam e se modificam; antigos valores são questionados e práticas tradicionais parecem perder sua eficácia.
48. Vivemos interrogando-nos sobre o sentido de nossa existência: Quem sou? Para que vivo? Que diferença faz a minha vida? A quem pertenço? Por quem sou responsável? Perguntas como essas habitam nossa mente e nosso coração. À medida que cresce a consciência sobre nossa própria vida e a que se manifesta em nosso entorno, essas inquietações se aprofundam mais e mais.
49. Ávidos por uma referência que dê sentido à nossa vida, empenhamo-nos na busca de uma idéia, de uma pessoa ou atividade que integre as diversas dimensões da nossa existência: sentimentos e anseios, relacionamentos e atividades, sexualidade e amor, direitos e responsabilidades, esperanças e sonhos.
50. Nessas condições, tão genuinamente humanas, encontramos o verdadeiro sentido de todos os desejos: Deus. E então nos damos conta de que essa experiência não resulta de nossa vontade, mas da ação do Espírito de Deus em nós. Confiantes, entregamo-nos à experiência de Deus.
51. Maria foi surpreendida pela intervenção divina em sua vida. Inicialmente temerosa, logo se tranqüilizou ao sentir o amor de Deus por ela. E mesmo sem ter todas as respostas, assumiu compromisso com um Deus que lhe inspirou absoluta confiança.
52. Marcelino Champagnat* também enfrentou muito cedo a inesperada intervenção de Deus, em sua vida. O anúncio do padre recrutador - Deus assim o quer - levou-o a rever todo o seu projeto de vida.44
Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo 45
53. Deus interveio na vida de Maria, nas condições daquele momento. Revelou a verdade sobre sua identidade e vocação, propondo-lhe um projeto para o qual ela estava preparada. A acolhida da Palavra de Deus, por Maria, demonstrou sua qualidade pessoal.
54. As experiências da vida diária são instâncias especiais de encontro com Deus. Apresença de Deus se manifesta na criação e nos acontecimentos cotidianos: no trabalho e nos relacionamentos, no silêncio e no barulho, nas alegrias e tristezas, nas conquistas e sofrimentos, na tragédia e na morte.
55. Deus se revela nas pessoas que encontramos pela vida afora. Crianças, jovens e idosos, familiares e companheiros de comunidade, refugiados e prisioneiros, enfermos e aqueles que lhes prestam assistência, colegas de trabalho e vizinhos, todas as pessoas são espelhos do Deus da vida e do amor.
56. Podemos sentir Deus também no testemunho de quem se compromete com a paz, a justiça e a solidariedade com os pobres e, generosamente, age em favor dos outros e por eles se sacrifica.
57. Todas as pessoas e acontecimentos da vida são oportunidades para nosso encontro com Deus misericordioso. Talvez sintamos Deus ainda mais perto de nós naqueles momentos em que nos sentimos mais vulneráveis e aflitos, ou quando empenhamos nossa palavra, não importando o risco que isso represente. Quando damos graças pelo dom da vida, resgatamos relacionamentos, oferecemos e aceitamos o perdão, celebramos a Eucaristia e partilhamos a Palavra – todos são momentos de graça para encontrar e conhecer o Senhor.
58. Impregnando-nos da plenitude desses momentos, descobrimos nossa verdadeira humanidade e a profundidade de nosso relacionamento com Deus. É vivendo esse relacionamento que conhecemos nossa verdadeira identidade: filhas e filhos de Deus, irmãos e irmãs entre nós.
59. Nossa verdadeira identidade é um dom que assume a forma de um convite incisivo, um chamado, uma vocação*. É Deus agindo em nós.46 O processo vocacional de Marcelino foi marcado por questionamentos e dúvidas. Sua peregrinação a La Louvesc* foi um tempo de oração e de discernimento.47 Marcelino viveu essa busca da identidade e do crescimento humano como um período de graça.
60. Deus escolhe homens e os chama cada qual pessoalmente, para conduzilos ao deserto e falar-lhes ao coração. Aqueles que o escutam, ele os põe à parte. Converte- os sem cessar por seu Espírito e os faz crescer em seu amor para enviá-los em missão.48 Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais compreendemos o sentido profundo de nossa existência. E aumenta nossa consciência de que fazemos parte do projeto de Deus para o mundo.
61. Esse processo de descobertas apresenta muitos riscos e imprevistos. Como Maria na Anunciação, enfrentamos temores e dúvidas. Não obstante, em cada instante da busca, Deus permanece fiel e presente, convidando-nos, insistentemente, a ver nossas vidas, através de Seus olhos.
62. As pessoas empreendem a jornada da vida de maneiras diferentes, com ritmos e intensidades próprios. Cada uma tem o seu modo de descobrir o sentido de sua existência e de dar suas respostas. Não importa tanto como nos comprometemos no decurso de nossa vida, nem as opções que fazemos. Sempre haverá oportunidade de encontrarmos Deus.
63. Marcelino reconhecia Deus em todas as coisas e acreditava que tudo vinha d’Ele. Sentia a presença divina tanto na tranqüilidade de Hermitage* como nas ruas barulhentas de Paris.49 Para ele, todos os lugares e circunstâncias eram oportunidades para encontrar o Senhor.
64. À maneira de Marcelino, podemos encontrar Deus em todas as situações. Nossa fé não reduz nossa experiência de Deus aos momentos de oração ou aos espaços “sagrados”. Nós podemos sentir o amor divino em todos os momentos e lugares da vida. Nessa perspectiva, o mundo deixa de ser obstáculo, e se torna lugar de encontro com Deus, de missão e de santificação.50
Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus 51
65. Com essa consciência, nosso discernimento da realidade se aprimora, desenvolvendo em nós o desejo de superarmos os acontecimentos da vida e assim encontrarmos o próprio Senhor da vida: Deus.
66. Nesse relacionamento com Deus, descobrimos que somos amados incondicionalmente. E à medida que esse amor se aprofunda, acaba por abranger a totalidade da vida.52 Com Maria, descobrimos que essa experiência de vida é dom maravilhoso de Deus: O Senhor fez em mim maravilhas; santo é Seu nome.53
67. Tornamo-nos, então, mais ávidos, não apenas de sentido e realização, mas de conhecer melhor o Senhor e de tornar-nos presenças amorosas nos encontros de nossa vida diária.
68. O modo de viver de Marcelino ajudou os primeiros Irmãos a descobrirem a presença amorosa de Deus. Em nossos dias, somos igualmente inspirados pelo testemunho de muitos Irmãos e Leigos Maristas. Em suas experiências cotidianas, essas pessoas encontram Deus e usufruem de Sua presença. Ouvem o chamado diário do amor de Deus e, como Maria, dizem seu generoso “sim”.
69. Jesus nos mostra quanto Deus se comove com as necessidades e o sofrimento das pessoas, principalmente dos “pequeninos”. À medida que nossa vida fica mais centrada no relacionamento com Deus, somos também mais tocados pela sua misericórdia e passamos a nos dedicar aos necessitados, de modo especial aos jovens.
70. Essa disposição em favor da vida, a paixão por Deus e a compaixão pelo seu povo constituem a nossa espiritualidade em ação. Em cada etapa da história, ela evoca um modo de ser presença no mundo, com Ele e por Ele.
Virá sobre ti o Espírito Santo 54
71. O mundo precisa de místicos — pessoas sensíveis ao mistério da vida em uma atitude de abertura e disponibilidade. Tendo vivenciado o amor de Deus, são testemunhas da luz, entre seus companheiros de jornada, servindo de inspiração na busca de Deus.
72. O místico acredita que o Espírito Santo é sempre uma presença ativa no mundo. O Espírito dá sentido à vida e à participação na missão de Jesus.
73. Como místicos, reconhecemos a presença do Senhor em todos os acontecimentos. O sentido de nossa fé nos faz apreender as dimensões mais profundas de cada situação, além das aparências e visões superficiais. Nossa oração se traduz na exclamação: Como é grande o Vosso amor, Senhor! E, certos da imensidão do amor de Deus, entregamonos confiantes à Sua infinita misericórdia.
74. Para acolher o amor de Deus com tal intensidade, precisamos adotar uma atitude de generosa abertura. Com a ajuda de Deus, desenvolvemos a capacidade de prestar atenção a toda a existência, tornando-nos reflexivos e perceptivos aos acontecimentos da vida e generosos em nossa resposta aos convites do Espírito, que se manifestam em nosso cotidiano.
75. Como Maria, que guardava aqueles acontecimentos em seu coração55, prestamos atenção contínua aos sinais dos tempos, aos apelos da Igreja e às necessidades da juventude.56 Praticamos o exercício pessoal e comunitário do discernimento evangélico, como treino ininterrupto de interpretação do sentido sacramental da realidade (acontecimentos, pessoas, coisas) que se torna lugar de comunhão com Deus.57 Foi esse o discernimento de Marcelino, no encontro com o jovem agonizante Jean-Baptiste Montagne*.58
76. Nossa espiritualidade nos permite “encontrar Deus em todas as coisas” e em todos os aspectos da vida. A oração é o recurso que propicia o aprofundamento das experiências de vida. Jamais substituímos oração por trabalho. A atenção à palavra de Deus nos faz permanecer fiéis, em nosso empenho pela construção do Reino. Nossa oração emerge da vida e devolve-nos à vida.
77. Na oração, pessoal ou comunitária, encontramos a oportunidade de ser modelados por Deus, como Ele fez com Jesus. Anossa oração é apostólica, renovada, aberta à realidade da criação e da História, eco de uma vida solidária com os irmãos, sobretudo com os pobres e os que sofrem.59 É uma oração que recolhe as penas e alegrias, angústias e esperanças daqueles que Deus coloca em nosso caminho.60
78. No decorrer da história, os seguidores de Marcelino valeram-se de diversos meios para alimentar a vida espiritual. A Oração da Igreja*, as visitas ao Santíssimo, o Rosário, a Missa diária, o estudo religioso, a meditação e outros exercícios espirituais contribuíram para o crescimento na santidade.
79. Atualmente, algumas práticas continuam essenciais para alimentar a nossa vida de fé como Maristas:
Lectio divina* ou “meditação da Palavra de Deus
80. O contato diário com a Palavra de Deus permite que conectemos nossa jornada pessoal com a perspectiva da História da Salvação. Ela nos faz superar a dimensão pessoal de vida para aquela mais ampla do Povo de Deus.
Oração pessoal
81. Na oração pessoal, sincera e alegre, ficamos sintonizados com o coração de Deus. Diante do Senhor, oferecemos todo o nosso ser — mente, corpo, anseios — e deixamos que Deus transforme e integre todas as dimensões de nossa vida.
Revisão do dia*
82. Refletindo sobre os acontecimentos do dia, como fizeram os discípulos de Emaús61, constatamos a presença de Deus em toda a jornada. Prestamos atenção aos apelos e convites de Deus, em todos os instantes da vida.
Oração em comunidade
83. A oração comunitária oferece a oportunidade de partilharmos a missão, na fé. Apresença na comunidade ajuda a criar um sentido de comunhão que transforma em oração todos os sonhos, realizações, conflitos, experiências pessoais e projetos comunitários e familiares. Os dias de recolhimento, em comunidade, “renovam a unidade interior de nossa vida ativa”.62 A oração em comunidade é o âmbito especial que nos permite discernir e assumir em comum nossas escolhas. Criamos espaços comunitários onde somos ajudados a viver e celebrar o sentido que Maria dá à nossa vida.
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