Reginaldo Prandi



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O tambor-de-mina em São Paulo


A história da Casa das Minas de Thoya Jarina inclui-se no processo de expansão e diversificação das religiões afro-brasileiras em São Paulo, em curso a partir dos anos 60. Componente de um movimento de migração do Nordeste e Norte, que trouxe para o Sudeste as mais variadas formas de cultos a orixás, voduns, inquices, encantados e antepassados, e que encontrou em São Paulo, assim como em outras grandes cidades da região, condições culturais e econômicas muito favoráveis, num processo de mudança sociocultural que incluía a valorização do que se considerava então as verdadeiras raízes da cultura brasileira, a chegada dos voduns do tambor-de-mina expressa uma demanda nova no contexto da sociedade secularizada. É o pluralismo religioso, com a possibilidade da livre escolha da religião num leque de possibilidades sacrais e mágicas, como num mercado religioso, que inclui, no limite, a formação da empresa religiosa, a multiplicação de templos através da franquia e a constituição do adepto como consumidor religioso. A sociedade diversifica-se em mercado, consumo, identidades, e assim também diversifica-se a religião (Pierucci e Prandi, 1996).

No tambor-de-mina paulista, como nas demais modalidades religiosas de origem negra presentes na cidade, misturam-se adeptos negros, pardos e brancos, sem distinção de origem racial, como mais um elo da cadeia que transformou a religião étnica em religião para todos. Através da atuação do seu líder, Pai Francelino de Xapanã, a mina em São Paulo convive com modalidades da umbanda, do candomblé, do xangô do Nordete e do batuque em contatos que são, ao mesmo tempo, burocráticos, religiosos e culturais, sugerindo novas formas de influência e sincretismo: a diversidade construindo espaços de expressão de interesses comuns e dificuldades afins das religiões afro-brasileiras.

Pai Francelino tem vários oyês em casas de candomblé como o de Balogun na Casa das Águas, do Babalorixá Armando de Ogum (Itapevi), Araibatan n’Ilê Alakêtú Axé Ibualamo, do Babalorixá José Carlos de Ibualamo (São Paulo), e Mogbá Xangô no Ilê Alakêtú Axé Airá, do Babalorixá Pércio de Xangô, além do cargo de Babá Kekerê do Ilê Axé Yemowá, de seu pai, hoje falecido, em São Luis do Maranhão.

Pai Francelino cultiva laços de relacionamento e amizade com todas as religiões afro-brasileiras nos mais diferentes pontos do País. Dedica-se ao diálogo inter-religioso e político-religioso, participando de inúmeras instituições voltadas à defesa das tradições de origem africana, sendo membro da URI (United Religions Initiative) – Iniciativa das Religiões Unidas, do Conselho Parlamentar pela Cultura de Paz da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, do Comitê Paulista pela Ética na Programação de Rádio e TV, e também do CONER – Conselho Estadual de Ensino Religioso do Estado de São Paulo, ao lado de bispos católicos, sheiks muçulmanos, rabinos, monges budistas, espiritualistas, espíritas, umbandistas, afro-brasileiros, metodistas, prebisterianos, anglicanos etc. entre outras funções.

No terreiro, as relações entre os seguidores da religião dos voduns e encantados, que envolvem complexo conjunto de obrigações hierárquicas, interdependência, reciprocidade e formas de solidariedade muito bem delineadas, ampliam-se e se fortalecem com as redes de parentesco das inúmeras famílias de sangue que se emaranham no grupo de culto. Parentesco de santo e parentesco de sangue misturam-se e se enredam: ninguém está sozinho no tambor-de-mina. O controle social é generalizado e o grupo praticamente vai se fechando sobre si mesmo, como um núcleo duro que elabora respostas coletivas para a vida individual no cotidiano da sociedade além grupo de culto, para a vida de seus membros fora do terreiro. A religião é assim, ao mesmo tempo, o espaço dos deuses, da família, do lazer, da socialização das crianças, da construção da identidade psicológica de cada um.

A organização dos voduns e encantados em famílias, cada uma com suas características e símbolos, datas de comemoração, obrigações e preceitos, exprime a necessidade de ordenação deste mundo a partir da ordenação do mundo sobrenatural. Nada está solto, isolado ou sozinho. O sentido da religião envolve a possibilidade de expressão de múltiplos egos, ninguém é uma coisa só. A possibilidade de um filho-de-santo receber mais de uma dezena de entidades é emblemática. E ao mesmo tempo que a mina promove essa capacidade de expressão individual múltipla quase ilimitada, ela organiza e regula as manifestações possíveis através da estrutura das famílias de entidades e do calendário das festas, fazendo da diversidade sinônimo de ordem e disciplinando, através da hierarquização iniciática, a possibilidade do caos antevista na variedade quase sem fim de manifestações de deuses, espíritos, encantados, numa multidão de representações sobrenaturais, anulando e redefinindo cada personalidade individual. Como se a regra fosse: somos um e somos tudo; é preciso experimentar cada possibilidade de sermos o outro, experiência que a sociedade nos nega na definição das classes e papéis sociais.

A religião tradicional que migrou e que se refez na cidade moderna vai assim se mostrando como imagem caricatural da sociedade atual, que é a sociedade da diferença e da multiplicidade. Nessa sociedade secularizada, onde não há mais lugar para a religião única e hegemônica, capaz, como no passado recente, de ditar regras para a sociedade como um todo, nessa sociedade que não precisa mais de deuses, que seguem cultuados em vista agora das necessidades dos indivíduos, nessa sociedade o tambor-de-mina vai se expandindo como uma das infindáveis religiões da metrópole contemporânea. Como aconteceu com os orixás pouco antes, agora também os voduns vão se fazendo deuses metropolitanos.


* * *

Quadro 1. Voduns assentados na Casa das Minas de Tóia Jarina

Família

Vodum

Nação

Orixá correspondente

Santo católico sincretizado com o vodum

Dambirá

Azonce

Jeje

Omulu-Obaluaê

São Sebastião




Acóssi

Jeje

Omulu-Obaluaê

São Lázaro




Alogué

Jeje

Ossaim

-




Azile

Jeje

Omulu-Obaluaê

São Roque




Boçalabê

Jeje

Euá

Santa Teresa




Dangbê

Jeje

Oxumarê

São Bartolomeu




Eowá

Jeje-nagô

Euá

N. S. do Carmo




Lepom

Jeje

Omulu-Obaluaê

São Roque




Naveorualim

Jeje

Oxum

N. S. da Glória




Oruana

Nagô

-

Santa Inês




Idarço

Nagô

Oxumarê

São Bartolomeu




Xapanã

Nagô

Omulu-Obaluaê

São Sebastião




Polibogi

Jeje

Omulu-Obaluaê

São Manoel

Davice

Doçu

Jeje

Ogum

Santos Reis




Naê

Jeje

Iemanjá

-




Sepazim

Jeje

-

-




Zomadônu

Jeje

Omulu-Obaluaê

Santos Reis




Doçupé

Jeje

Ogunjá

Santo Antônio




Arronovissavá

Jeje

Oxalufã

Jesus Cristo




Bedigá

Jeje

Ogum

Santos Reis

Savaluno

Agüê

Jeje

Oxóssi

Santa Helena




Azacá

Jeje

Oxóssi

São Sebastião




Boço Jara

Nagô

Logun-Edé

Santo Expedito




Boço Vondereji

Nagô

Xangô

Santo Antônio

Queviossô

Abê

Jeje

Iemanjá

N. S. da Conceição




Averequete

Jeje-nagô

Xangô Aganju

São Benedito




Badé

Jeje-nagô

Xangô

São Pedro




Lissá

Jeje-nagô

Oxaguiã

Jesus Cristo




Nanã

Jeje-nagô

Nanã

Senhora Santana




Navezuarina

Nagô

Oxum

Santa Luzia




Sobô

Jeje

Oiá

Santa Bárbara




Xadantã

Jeje

Xangô Airá

São José

Orixá

Ogum

Nagô

Ogum

São Jorge




Odé

Nagô

Oxóssi

Santa Helena




Xangô

Nagô

Xangô

São Pedro




Oiá

Nagô

Oiá

Santa Bárbara




Oxum

Nagô

Oxum

N. S. da Glória




Ajê

Nagô

Ajé Xalugá

-




Iemanjá

Nagô

Iemanjá

N. S. das Candeias



Quadro 2. Freqüência dos voduns assentados

na Casa das Minas de Tóia Jarina

e dos correspondentes orixás


Vodum

Núme-ro de casos

Orixá correspon-dente

Núme-ro de casos

Naveorualim

Navezuarina

Oxum


22

10

5



Oxum

37

Doçu

Doçupé


Bedigá

Ogum


12

1

1



11

Ogum

25

Abê

Naê


Iemanjá

17

2

1



Iemanjá

20

Sobô

Oiá


17

11


Oiá-Iansã

28

Badé

Averequete

Vondereji

Xadantã


Dadá-hô

Xangô


11

3

2



2

2

1



Xangô

21

Xapanã

Acóssi


Lepom

Zomadonu


Polibogi

Azile


3

10

3



1

2

2



Omulu-Obaluaê

21

Agüê

Azacá


Odé

7

1

5



Oxóssi

13

Lissá

Arronovissavá



4

1


Oxalá

5

Euá

Boçalabê


2

1


Euá

3

Boço Jara

4

Logun-Edé

4

Dangbê

Idarço


2

1


Oxumarê

3

Nanã

2

Nanã

2

Ajê

1

Ajé Xalugá

1

Alogué

1

Ossaim

1



Quadro 3. Iniciados Dançantes e seus Voduns e Tobóssis




Ordem de iniciação

Iniciado

Ano de inicia-ção

Cargo sacer-dotal

Vodum Principal

Vodum Adjuntó

Tobóssi

Dos filhos dançantes

Pai Francelino

1964

Pai, Tóy Vodunnon

Xapanã (Azonce)

Sogbô (*)

Assuabebê

1

Norma

1979

Afastada

Doçu

Abê




2

Oraci

1979




Naveorualim

Acóssi




3

Enedina

1981

com casa em Curitiba

Eowá

Lissá

Agamavi

4

Ernesto

1982

falecido em 1993

Badé

Eowá




5

Ariovaldo

1982

Falecido

Oiá

Doçupé




6

Márcio Adriano

1984

Toy Hunji (pai-pequeno)

Boço Jara

Sogbô

Idojasi

7

Sandra Aparecida

1984

Izadioncoé (mãe-pequena)

Xadantã

Naveorualim

Sindoromin

8

Joaquim

1984

falecido em 1992

Averequete

Sogbô

Berebosi

9

Marcos Antônio

1984




Badé

Oruana

Elacindê

10

Ana Maria

1985




Lissá

Abê




11

Manoel

1986

falecido em 1989

Poliboji

Navezuarina




12

Fernando

1987




Doçu

Naveorualim




13

Sueli

1987




Agüê

Sogbô

Delobê

14

Solange Maria

1987

com casa em Belém

Abê

Lepon

Azondolabê

15

Vitória Maria

1987

Afastada

Sogbô

Doçu




16

Cidinéia Maria

1987

falecida em 1993

Naveorualim

Doçu




17

Jandira

1987

falecida em 2000

Nanã

Agüê




18

Maria Rosa

1987

Afastada

Oxum

Xangô




19

Reinaldo

1988




Agüê

Oiá




20

Nelson

1988

Afastado

Abê

Badé

Dandalossim

21

Airton

1989

com casa em Ibiúna

Boço Jara

Navezuarina




22

João Batista

1989

com casa em Santo André

Naveorualim

Lissá

Anarodim

23

Alberto Jorge

1990

com casa em Manaus/AM

Badé

Sogbô




24

Maria da Glória

1990

com casa no Paraná

Abê

Doçu




25

Carlos Eduardo

1990




Ogum

Oxum




26

Miriam Marlene

1990

Iyá bii (Mãe criadeira)

Doçu

Abê

Dagusi

27

Lairton

1990

Afastado

Naveorualim

Doçu




28

Vera Lúcia

1990

Afastada

Navezuarina

Agüê

Iralabê

29

Cantora

1990

Afastada

Abê

Acóssi




30

Leonardo

1991

com casa em São Paulo

Doçu

Navezuarina

Akisilobê

31

Maria Noêmia

1991

com casa em São Paulo

Odé

Oxum




32

Dinorá

1991

falecida em 1995

Abê

Lissá




33

Iracy

1991

falecida em 2004, sua casa continua em Diadema

Agüê

Abê

Huessobê

34

Edilson

1992




Badé

Navezuarina




35

Alzenir

1992




Zomadônu

Abê




36

Elizabete

1992




Oiá

Acóssi




37

Genival

1993




Ogum

Oiá




38

Elza

1993




Ogum

Oxum




39

Sérgio

1993




Averequete

Sogbô




40

Édison

1993




Navezuarina

Doçu




41

Kátia

1993




Oiá

Docupé




42

Odete

1993




Oiá

Acóssi




43

Antônio Aramízio

1994

Com casa em Ituiutaba/MG

Doçu

Naê




44

José Divino

1994




Lepon

Naveorualim




45

Leonel Vicente

1995




Badé

Navezuarina




46

Deusane Regina

1995




Abê

Lepon




47

Maria Aparecida

1995




Abê

Azile




48

Antônio Bernardino

1996

com casa em Diadema

Acóssi Sapatá

Abê




49

Hamilton Anselmo

1998

Com casa em Curitiba/PR

Acósakpatá

Naveorualim




50

Nica

1999




Odé

Naveorualim

Glegbenusi

51

Cristiane

1999




Dangbê

Naveorualim




52

Chica

1999




Oyá

Azaká




53

Arminda (Leão)

1999




Oyá

Ogum




54

Vitória

1999




Oyá

Akóssu




55

Marta

1999




Naveorualim

Akóssu




56

Walkíria

1999

Com casa em Diadema

Ogum

Sogbô




57

Nilson

1999

Com casa em Diadema

Naveorualim

Odé

Nowin Dunsi

58

Augusta

2000




Naveorualim

Badé




59

Fábio Neves

2000




Nanã

Badé




60

Lucrécia

2001




Naveorualim

Doçu




61

Jean Karlo

2001

Com casa em Manaus/AM

Lego Xapanã

Sogbô

Azonmeunsi

62

Damiana (Cícera)

2001




Sogbô

Agüê

Funzosi

63

Jorgete

2001




Oyá

Agüê




64

Cysleide

2001




Naveorualim

Badé




65

Edson

2002




Azonçu

Sogbô




66

Dirce

2003




Oyá

Akóssu




67

Sérgio

2003




Jara

Sogbô




68

Rogério Cássio

2003




Jara

Sogbô




69

Alzira Maria

2003




Sogbô

Lego Xapanã




70

Cláudio

2004




Naveorualim

Badé



(*) Pai Francelino recebe também Doçu, que comanda a casa o ano inteiro, presidindo as iniciações.

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